Nos Bastidores do Teatro Infantil – Série de Entrevistas: 12.Paulo Merisio


 

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Por Renato Mello.

paulo merisioO 12º entrevistado da nossa série “Nos Bastidores do Teatro Infantil” é o diretor Paulo Merisio.

Merisio está estreando neste fim de semana o espetáculo “Um Herói Bem Fanfarrão e Sua Mãe Bem Valente” numa temporada no Centro Cultural da Justiça Federal que se estenderá até o dia 14 de dezembro.

Nesta entrevista, Paulo Merisio nos fala do espetáculo e de sua visão sobre o teatro infantil.

BC: – Gostaria que você falasse um pouco sobre “Um Herói Fanfarrão e Sua Mãe Bem Valente”. Do que trata o espetáculo?
PM: – Trata-se de um conto tradicional finlandês, recontado por Ana Maria Machado e transportado para a cena. Conta as aventuras de Ahti Lemminkainen, um rapaz que é mago e guerreiro e que estabelece um trato com sua esposa: ele não se meteria mais em brigas e confusões e ela não sairia mais com as amigas para dançar. Mas a esposa esquece-se do trato e quando ele descobre, decide partir para a Lapônia conquistar outra noiva. Como em várias histórias clássicas, ele precisa passar por três provações para conseguir se casar com a nova noiva – a filha da bruxa; no entanto, na terceira prova, é necessária a intervenção de sua mãe bem valente, que acaba decidindo o destino de Ahti. É uma história repleta de magia e peripécias, alternando momentos de humor e de encantamento. Optamos por concretizar a ideia dos contadores de história por meio de um grupo de funcionários de uma repartição, que, ao ter contato com a trama, tem seu ânimo alterado e, simbolicamente, instaura mais cor em seu cotidiano.

BC: – Quais as expectativas que você tem sobre o espetáculo?
PM: – Em primeiro lugar, que possa trazer questões para as crianças. Identifico-me com uma produção voltada para esse público que não o considere “um espectador do futuro”. As crianças estão no mundo, ávidas por diálogos instigantes e que possam abrir portas no seu imaginário. Assim, mais do que trazer respostas, buscamos propor ao nosso público uma participação efetiva como espectador, deixando espaço para a imaginação. Esse espaço intermediário entre a contação de histórias e a atuação colabora nessa perspectiva.

Em segundo lugar, para a Companhia, tenho a expectativa de que esse espetáculo possa colaborar no processo de fortalecimento dessa visão sobre o teatro para crianças e no amadurecimento de sua identidade.

BC: – Ana Maria Machado teve algum tipo de participação no processo de concepção do espetáculo?
PM: – Na verdade, não; estamos curiosos para saber sua impressão sobre a montagem.

BC: – Quais as dificuldades e possíveis armadilhas para adaptar um conto de uma escritora da estatura de Ana Maria Machado para os palcos?
PM: – Todo novo espetáculo é um desafio, mas ter como base um
conto de Ana Maria Machado é um grande estimulo. Parte da perspectiva poética está garantida pelo texto; como não fazemos uma adaptação para a estrutura dramática clássica, mantendo a figura do narrador, em certa medida, a voz de Ana Maria está presente na obra.

Tive um primeiro contato com esta história em 2003, quando era professor de teatro na Universidade Federal de Uberlândia, e o levei à cena com o grupo que dirijo até hoje em Uberlândia, a Trupe de Truões – na época, o grupo ainda era vinculado à Universidade e a montagem tinha fins didáticos. Desde a primeira vez que li a historia identifiquei uma grande potencialidade cênica e propus a Cia Melodramática que trabalhássemos com esse texto. Em função da metodologia de construção, baseada em jogos teatrais de improvisação, partimos para uma montagem totalmente nova do texto.

Um Herói Fanfarrão e Sua Mãe Bem Valente por Thaneressa Lima -041014_39

Um Herói Fanfarrão e Sua Mãe Bem Valente

BC: – De que maneira o fato de ter a sua própria companhia, a “Cia Melodramática do Rio de Janeiro”, ajuda a estruturar seus projetos e ideias?
PM: – Minha trajetória é toda articulada a grupos e companhias; comecei a fazer teatro ainda na década de 1980 no Grupo Dois Pontos, de Niterói, dirigido por Leonardo Simões e quando me formei na Martins Penna, em 1993, constitui em conjunto com as atrizes Kelzy Ecard e Monica Muller, a Cia. Atores da Truanesca. Ao passar no concurso para a UFU, acabei me desvinculando da cena carioca e iniciei com alguns alunos o processo de construção da Trupe de Truões – que já atua há doze anos e hoje é profissional.

O trabalho em grupo, com todas as dificuldades que traz em termos de relacionamento (e não são poucas), é um espaço mais propicio para a investigação. É necessário, no entanto, paciência para que se amadureçam as relações e se consiga constituir uma identidade. A Cia. Melodramática está em sua terceira montagem e possui a trajetória vinculada ao projeto de pesquisa Sentidos do Melodrama (CNPq, FAPERJ, Capes). Em 2012 montamos, na UNIRIO, o espetáculo “Lição de melodrama”. Retomamos em 2014 o espetáculo “Melodrama da meia-noite” e estivemos em cartaz no Teatro Ziembinski e no Parque das Ruinas. Somando-se essas experiências com o processo de construção de “Um herói fanfarrão…” vamos amadurecendo o perfil da companhia e começando a pensar num planejamento de mais longo prazo.

BC: – “Um Herói Fanfarrão” é o primeiro espetáculo infantil da companhia. Vocês têm projetos para novos espetáculos do gênero?
PM: – Na Trupe de Truões construímos a trilogia de As mil e uma noites – Ali Babá, Simbá e Aladim. Brinco com a companhia que vamos construir a trilogia Ana Maria Machado; mas, por enquanto, estamos nos dedicando inteiramente ao projeto do Herói e queremos que ele amadureça, faça temporadas, viagens. Mas vamos, assim, construindo nosso repertório. Temos como eixos de nossas pesquisas o melodrama e o teatro para crianças, o que certamente, significará novas investidas nesse campo.

BC: – Qual a grande dificuldade encontrada para viabilizar um projeto infantil?
PM: – Ainda há uma espécie de hierarquia em relação ao teatro dito “adulto”. Mas temos que cada vez mais romper com esses limites. Acredito que a construção de espetáculos voltados para crianças e jovens, com uma pesquisa coerente de linguagem é um passo importante para essa ruptura. Associações como o CBTIJ/ ASSITEJ, o CEPETIN e o grupo Cultura Infância ajudam a fortalecer um olhar menos preconceituoso e colaboram na discussão de políticas concretas e investimentos para a produção que tem esse público como referência.

BC: – Você acredita que o teatro infantil possui um mercado de enorme potencial que ainda não foi devidamente explorado?
PM: – Mais do que um mercado, penso que o teatro para crianças e jovens é um espaço para pesquisa e investigação da cena tão importante quanto qualquer outro. Evidente que temos que pensar na sustentabilidade dos artistas, mas ainda acredito que um bom espetáculo e uma trajetória de grupo que tem como norte o amadurecimento coletivo, tendem a conquistar seu espaço.

BC: – Dirigir teatro infantil te realiza artisticamente?
PM: – Tenho uma formação bastante plural. Ter uma relação direta com o teatro me realiza; dirigir, ensinar, pesquisar, atuar – cada participação me proporciona momentos diferenciados de prazer. Mas é inegável que minha trajetória está diretamente associada ao universo do teatro voltado para crianças. A atuação no Departamento do Ensino de Teatro da UNIRIO, a direção da Trupe de Truões, a participação no CBTIJ e em Congressos voltados para as pesquisas nesses campos, espelham essa relação estreita.

Mas, conseguir estabelecer um diálogo direto com as crianças por meio da cena é sempre uma experiência marcante e realizadora.


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