Nos Bastidores do Teatro Infantil – Série de Entrevistas: 13.Vanessa Dantas


 

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Por Renato Mello.

Vanessa Dantas - foto Renato MangolinQuem assiste as produções de Vanessa Dantas se impressiona com o apuro técnico, a qualidade artística e a complexidade das obras que escolhe para adaptar. Seu trabalho é referência e motivo de orgulho para quem tem algum tipo de ligação com o teatro infantil. Poucas pessoas tem a capacidade de colocar de pé produções infantis reunindo nomes de enorme relevância no teatro carioca.

Não é por acaso que Vanessa é responsável por alguns dos trabalhos mais premiados dos últimos anos, como “O Barbeiro de Ervilha”, “A Borralheira” e agora com sua última montagem “O Elixir do Amor”.

Como produzir obras desse porte já não fosse suficiente, Vanessa ainda é responsável pelas adaptações e também atua.

É com grande orgulho que apresentamos agora a 13ª entrevista da nossa série “Nos Bastidores do Teatro Infantil”.

4 - A Borralheira Foto Dalton Valerio

A Borralheira – Foto Dalton Valerio

BC: – O que te motivou a abrir uma produtora para se dedicar especificamente ao teatro infantil?
VD: – Para responder essa pergunta precisarei voltar ao tempo. Minha mãe era professora de escola pública, alfabetizadora de turmas de primeira e segunda série do Ensino de Primeiro Grau. Em suas aulas ela incluía o teatro. Tínhamos em casa um pequeno e portátil teatro azul de madeira, com cortinas vermelhas e marionetes. Quando ela os levava para a escola eu, pequena, sempre ia junto para assistir as encenações, que aconteciam todas as sextas feiras. Minha mãe dizia que era “A Hora da História”. E cresci ouvindo sobre o resultado do trabalho dela com as crianças, de como a arte as afetava positivamente tanto no rendimento escolar quanto no relacionamento familiar e social. Passou o tempo. Me tornei atriz e sempre fiz teatro adulto. Mas em um determinado momento falou alto poder escolher as histórias que eu queria contar. A escolha de produzir teatro para crianças foi muito natural. Tem a ver com a minha experiência em casa, com o que vivi e no que acredito hoje. Eu me preocupo muito que os adultos também gostem dos espetáculos. Acredito na troca entre as gerações, em espetáculos que promovam o diálogo entre elas.

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BC: – Qual a grande dificuldade encontrada para viabilizar um espetáculo infantil?
VD: – Patrocínio privado. Ainda são poucas as empresas privadas que investem no teatro para crianças e jovens, talvez porque ainda falte para muitas a visão do alcance sóciocultural do teatro infanto-juvenil. Uma criança que tem contato constante com a arte dificilmente será um adulto que se desvirtuará na vida. A arte é transformadora e o teatro é um maravilhoso portal para ela. Ele engloba muitas artes. Nós, produtores, em maioria recorremos aos editais de patrocínios culturais públicos. Mas ainda são poucos os editais, por vezes vezes com verbas restritas para a categoria infanto-juvenil e muitas são as produções. O que tem de muito bacana nos editais é que as suas comissões julgadoras são de profissionais e estudiosos do ramo que visam pela qualidade artística dos projetos apresentados. Isto contribui para que os idealizadores concorrentes aprofundem e inovem ainda mais as suas propostas e também as suas realizações. É fato que muitos projetos de qualidade concorrem aos editais de patrocínio. Se houvessem mais editais e com melhores verbas destinadas ao teatro para crianças, se mais patrocinadores privados investissem e com exigência de qualidade, o atual teatro para crianças e jovens do Rio de Janeiro ganharia visibilidade e projeção. Seria um grande movimento artístico, cultural e social. A formação de plateia deve vir do berço. Crianças que crescem com a arte se tornam adultos que a reconhecem e a valorizam. Uma sociedade que valoriza a arte é uma sociedade melhor em todos os aspectos. Ela reforça a identidade de um povo.

1 - O BARBEIRO DE ERVILHA - RENATO MANGOLIN

O Barbeiro de Ervilha – Foto Renato Mangolin

BC: – Ao contrário do que se pensa, teatro infantil não tem nada de amador. Existe um mercado de atores, diretores, autores e toda uma cadeia de produção. Você não acha que existe nesse segmento um enorme potencial que ainda não foi atingido?
VD: – O potencial artístico existe. No Rio de Janeiro há um grande número de profissionais, grupos, companhias e produtores de excelência artística e um profundo trabalho de pesquisa sobre o fazer teatral para o público infanto-juvenil. O que falta é uma política cultural sólida, um maior número de parcerias de patrocínio e com melhores verbas, um maior espaço na mídia em geral, uma melhor viabilização de estrutura dentro de parte dos teatros…

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BC: – Uma característica marcante dos seus trabalhos é a adaptação de óperas para o público infantil. Qual o maior desafio em adaptar uma obra erudita para o teatro infantil, num país com um déficit de cultura musical?
VD: – Avaliando meus últimos três espetáculos, eu os considero trabalhos de introdução à ópera. Eles misturam o clássico com o nosso popular. As ambientações europeias originais são transpostas para ambientações brasileiras. As músicas, fiéis aos temas melódicos das óperas, associam os arranjos das mais conhecidas árias, duetos, conjuntos e coros com os ritmos encantadores da nossa cultura popular. O barbeiro de Ervilha (Adaptação de Il Barbiere di Siviglia, de Gioacchino Rossini) foi transposto para o Nordeste, A Borralheira, uma opereta brasileira (Adaptação de La Cenerentola, também de Rossini) foi transposta para Minas e O Elixir do Amor (Adaptação de L’Elisir d’Amore, de Gaetano Donizetti) foi transposto para o pampa gaúcho. Meu intuito com esse trabalho de pesquisa, onde o classico e o popular se misturam na cena, foi de trazer para o público infantil uma familiaridade inicial com as obras operísticas. Até agora só tive gratíssimas experiências tanto nas estreias no Rio de Janeiro quanto nas circulações em outras cidades. As crianças pedem para voltar e ver de novo o espetáculo. Muitas eu já conheço pelo nome. Os pais vem conversar conosco emocionados e muitos já disseram que a partir do espetáculo assistido irão incentivar mais as crianças às óperas. Ruth Rocha, autora consagrada da nossa literatura tem uma coleção maravilhosa de óperas para crianças. Eu sempre a indico.

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O Elixir do Amor – Foto Dalton Valerio

BC: – Como surgiu a ideia de adaptar “O Elixir do Amor”? Gostaria que você falasse um pouco do seu trabalho dramatúrgico na adaptação dessa ópera de Donizetti?
VD: – Daniel Herz, o diretor do espetáculo, foi quem me apresentou O Elixir do Amor e sugeriu que eu o adaptasse. Eu fiquei fascinada pelo libreto e aceitei o convite. Imediatamente comecei a fazer associações para desenvolver uma dramaturgia popular brasileira a partir do original, a começar pelo próprio compositor Donizetti. Ele foi um clássico nacionalista italiano e criou óperas belíssimas dando voz ao seu país. Se ele fosse brasileiro… De onde ele seria? Mas bah! É claro, tchê! Seria do Rio Grande do Sul! O gaúcho é conhecido por amar e defender bravamente a sua terra e a sua gente! A ação da história original – que se passa no campo da Itália no início do século XIX – encaixou perfeitamente nos campos gaúchos. A solidão do peão – vaqueiro dos pampas – chamava pelo protagonista Nemorino, o camponês do libreto original. A fazendeira italiana Adina passou a ser a patroa da estância. Estas e muitas outras afinidades contribuíram para o enorme desejo de levar esta história para os palcos com um sopro dos costumes, das tradições e do folclore do universo campesino do Rio Grande.
O clima de romance entre prendas e peões dos contos do grande folclorista João Simões Lopes Neto serviu de fonte inspiradora para a criação do universo dramatúrgico. Da mesma maneira o cancioneiro gaúcho – que são belíssimas poesias populares – inspiraram a criação dos trovadores, os cantadores da história.
Com a dramaturgia definida e o texto adaptado, nós convidamos o maestro Josimar Carneiro para realizar a adaptação e a direção musical. Ele mergulhou a fundo nas partituras de Donizetti, respeitando a essência da obra original e as exigências da adaptação dramatúrgica e a ambientação nos pampas. As letras, Josimar e eu trabalhamos em parceria.
Para aperfeiçoamento do sotaque regional da adaptação do libreto, nós contamos com a assessoria das gaúchas Maria Carolina Ribeiro, atriz e escritora e da atriz Luiziane Fortes. Luiziane é integrante do grupo de dança Marca do Sul, que tem o trabalho voltado para o folclore gaúcho e latino americano. Ela também assessorou a nossa equipe em relação à cultura e tradição regional gaúcha.

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BC: – Desde os seus tempos de atriz na Cia Atores de Laura, você mantém uma fecunda relação profissional com Daniel Herz. Como se dá na prática seu relacionamento como produtora com um diretor tão criativo em trabalhos recentes como “O Barbeiro de Ervilha e agora “O Elixir do Amor”?
VD: – Daniel foi meu professor de teatro durante anos na Laura Alvim. Além de ter sido atriz da Cia Atores de Laura, também fiz várias assistências de direção dele em outros espetáculos. Muito do olhar cênico que desenvolvi vem da prática teatral de anos com o Dani. Nossa relação de trabalho acontece através do artístico. Ele é um diretor muito generoso e também bastante divertido. Rigor e irreverência são suas palavras chaves.

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BC: – “O Elixir do Amor” é um espetáculo que exige uma série de qualidades e conhecimentos do elenco. Como é montar um elenco necessitando de tantos predicados dos atores?
VD:- No elenco do elixir temos atores e músicos. Alguns atores já haviam trabalhado ou com o Daniel ou comigo e os convidamos diretamente respeitando as necessidade do nosso diretor musical Josimar Carneiro. Para escalar outros atores nós abrimos audição porque precisávamos de vozes específicas e era preciso que além de bons atores também se encaixassem nas características físicas dos personagens. Hoje em dia, no Rio de Janeiro, os profissionais estão muito bem preparados para os musicais. Foram difíceis as escolhas porque tivemos a oportunidade de conhecer muita gente boa. Nós arquivamos os currículos que recebemos para futuras audições e trabalhos. Já os músicos foram convidados pelo Josimar, com o desafio de tocarem como personagens em cena. Eles toparam o desafio e realizaram o trabalho com muita alegria, disciplina e competência.

6 - O BARBEIRO DE ERVILHA - FOTO RENATO MANGOLIN

Leandro Castilho como Figaro no Barbeiro de Ervilha – Foto Renato Mangolin

BC: – Vocês já ganharam o Prêmio Zilka Sallaberry, o mais importante do teatro infantil. Para que servem os prêmios? Um reconhecimento ao trabalho ou um estímulo para os novos projetos?
VD: – As duas coisas, um reconhecimento ao trabalho e também um estímulo para o aperfeiçoamento artístico e de realização. É um movimento importante e imprescindível, de valorização e mobilização dos profissionais e de seus patrocinadores e apoiadores. As premiações aumentam a visibilidade do teatro para crianças e jovens. É também um selo de qualidade que contribui para que o espetáculo premiado tenha vida longa e também consiga circular em outros estados e até mesmo no exterior.

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Vanessa Dantas, Giulia Nadruz e Leonardo Miranda em “O Elixir do Amor” – Foto Caique Cunha

BC: – Como dona de uma produtora, é possível viver de teatro infantil?
VD: – Se as produções são constantes, sim. Mas nem sempre é possível estar constantemente em cartaz.

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BC: – Produzir teatro infantil te realiza?
VD: Como profissional e também como ser humano. Minha alma é de uma criança sonhadora.

10 - A Borralheira - Foto Dalton ValerioA Boralheira – Foto: Dalton Valerio

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