Nos Bastidores do Teatro Infantil: Série de Entrevistas: 18.Thiago Pach


 

image1

Por Renato Mello.

Ator, diretor, produtor e músico, Thiago Pach estreia no dia 23 de maio o espetáculo “Todo Vagabundo Tem Seu Dia de Glória” no Oi Futuro do Flamengo, depois de mais de 10 anos debruçado sobre o projeto. Thiago Pach é o 18º entrevistado da nossa série “Nos Bastidores do Teatro Infantil“, em que conta detalhes do espetáculo assim como seu pensamento sobre o universo do teatro infanto-juvenil.

Fotos: Marcus Gullo

BC: – Como surgiu a ideia e o projeto de “Todo Vagabundo tem Seu Dia de Glória”?
TP: – Em 2003, aos dezenove anos, após fazer um trabalho voltado para a Commedia Dell’arte que dirigi e apresentei em várias unidades do Sesc-Rio, resolvi escrever uma peça que pudesse se inspirar no tema. Foi quando surgiu o “Todo Vagabundo Tem Seu Dia de Glória”. Mas na época não era um musical.

BC: – Por que demorou tantos anos para que o espetáculo se tornasse realidade? Quais foram as grandes dificuldades?
TP: – Sempre escrevi tanto para o teatro quanto para a música. Esse ano, por exemplo, escrevi a letra de um samba que Wladimir Pinheiro musicou lindamente e nos meus shows de música também canto músicas autorais. Acontece que em relação ao teatro sempre guardei os textos na gaveta. Desde 2013 venho expondo mais esse meu lado incentivado por Adren Alves e Cacau Gondomar. No Brasil, viver de arte é difícil e sempre acreditei no artista plural. Há 3 anos transformei o “Todo Vagabundo Tem Seu Dia de Glória” em musical e resolvi colocar o sonho na rua. Esse é um projeto antigo, de doze anos. Montar um musical no Brasil é difícil e ponto. Mas montar um musical já famoso na Broadway, por exemplo, é mais fácil pois o público e o patrocinador já sabem mais ou menos o que vão ver quando abrir a cortina. No Brasil, por exemplo, se tornou hit montar musicais biográficos onde a público já conhece as canções e sabe o que vai ouvir. O público reconhece e canta junto. Isso já é um convite forte. Os fãs do artista homenageado são público garantido também. Assisti o musical “Clementina, cadê você?” com direção de Duda Maia (sobre Clementina de Jesus) e “Gonzagão A Lenda” com direção de João Falcão (sobre Luiz Gonzaga) e fiquei extasiado. Eu mesmo já interpretei o cantor Nelson Gonçalves no musical “Rádio Nacional – As Ondas Que Conquistaram o Brasil” dirigido por Fabio Pilar e Bibi Ferreira e, também interpretei Cauby Peixoto no musical “Emilinha & Marlene – As Rainhas do Rádio” dirigido por Antonio DeBonis. Acho incrível, pois nossos artistas merecem ser lembrados. Porém montar um musical inédito com músicas autorais é mais difícil nesse ponto pois o público não conhece as canções, não canta junto. Mas justamente por isso pode se surpreender. Acho que tem espaço e público para todo mundo. A Oi Futuro, nossa patrocinadora, acreditou nisso quando apostou no nosso projeto.

BC: – Ao contrário do que se pensa, teatro infantil não tem nada de amador. Existe um mercado de atores, diretores, autores e toda uma cadeia de produção. Você não acha que existe nesse segmento um enorme potencial que ainda não foi atingido?
TP: – Acho que o potencial do teatro destinado ao publico infantil e infanto-juvenil vem sendo subestimado. O teatro infantil é visto pelos pais e pelos produtores como mera distração para a criança quando na verdade pode ser usado como instrumento de modificação, de educação, de expressão e de desenvolvimento do pensamento crítico. Além disso, o hábito de ir ao teatro, é construído desde criança e deve ser incentivado não só na escola como principalmente em casa. O potencial desse mercado merece ser levado a sério. A ludicidade do teatro precisa ser vista para além da simples opção de recreação e lazer tanto pelos pais quanto pelos produtores e autores teatrais. O público reage super bem quando percebe que está sendo tratado com a sinceridade e respeito e que as produções tem qualidade. Um dos exemplos é o clássico “Os Saltimbancos” de Chico Buarque.

BC: – É possível observar desde os detalhes de acabamento, figurino e visagismo, um enorme cuidado na produção. Além disso, você se cercou de atores experientes, talentosos e uma equipe técnica de profissionais destacados. Tendo em vista que o teatro infantil não tem o reconhecimento artístico e o investimento financeiro que deveria, como foi possível montar uma estrutura de tanta qualidade?
TP: – Bom, antes de tudo, já no processo criativo do texto, eu nunca pensei em direcionar para o público X ou Y. Quis apenas contar uma boa história. E para segurar a atenção de um público, seja ele qual for, a história tem que ser interessante. Então, me cerquei de referencias e estudei para escrever o texto. Me inspirei na Commedia Dell’arte e em Shakespeare. E juntei uma equipe de artistas e técnicos talentosos e preparados. Atores incríveis e artistas que admiro muito como compositor e pianista Roberto Bahal, o cenógrafo e figurinista Marcelo Marques, a coreógrafa Sueli Guerra e a visagista Mona Magalhães, entre outros. A Oi Futuro percebeu esse cuidado e resolveu nos patrocinar.

image2 (1)

BC: – Você buscou inspiração estética em “A Viagem do Capitão Tornado”, de Ettore Scola e utiliza elementos da commedia dell’arte. Fale um pouco da pesquisa realizada para a ambientação dessa história.
TP: – Sim, o filme “A Viagem do Capitão Tornado” foi o ponto de partida para decisões estéticas. Mas para direcionamento de interpretação usei como inspiração também filmes como “Contos Canterbury” do Pasolini, “A Bela do Palco” de Richard Eyre e “Marquise” de Vera Belmont. Me inspirei também em textos como “Arlequim Servidor de dois Amos” de Goldoni e “A Megéra Domada” de Shakespeare. Mas o que me alimentou foi a Commedia Dell’arte que é um teatro muito artesanal e muito crítico. Trabalha com arquétipos muito bem definidos. É um tipo de atuação muito dinâmica e com base no improviso. Tem uma linguagem popular e evoluiu muito pela Europa desde o século XVI. Além disso esse gênero ditou todo o teatro que veio depois dele e inspirou artistas como Charles Chaplin, por exemplo. Os artistas de Commedia Dell’arte herdavam o ofício da família. Os filhos aprendiam com os pais. Eram gerações de atores comprometidos em passar o ofício adiante. Eram operários da arte. É interessante falar disso hoje onde a arte e, consequentemente, o artista são tão desvalorizados. Além disso, para o ator é um presente poder mergulhar nesse desafio. No “Todo Vagabundo Tem Deu Dia De Glória” nós tomamos esse gênero como inspiração. Não usamos máscaras, por exemplo. Mas tivemos um workshop com a professora e atriz Tarlia Laranjeira que estudou na Itália e é especialista no tema. E também é incrível poder misturar dois gêneros tão diferentes: o teatro musical e a Commedia Dell’arte.

BC: – Nesse espetáculo você atua, dirige, produz e ainda participou da criação da trilha sonora. Como foi possível conciliar tantas atividades?
TP: – Tenho um tio cantor, meu pai é desenhista e minha avó escrevia. Eu herdei um pouquinho de tudo isso. Em 2002 dirigi a grande atriz Isolda Cresta num monólogo de Bruna Beber e em 2004 fui diretor assistente do espetáculo “Canto de Amor às Gerais” dirigido por Nilson Nunes que estreou no Teatro Villa-Lobos, hoje fechado. O Thiago diretor já tinha se manifestado então. Criei o evento Tertúlia Teatral que em 2004 e 2005 reunia novos autores teatrais e autores já consagrados incentivando a produção de textos inéditos para o mercado teatral. Participaram do evento autores como Moacir Costa Lopes (A Ostra e O Vento) e Marcílio Moraes (Irmãos Coragem, Mandala, As Noivas de Copacabana). O Thiago produtor vem se manifestando aos poucos. Em 2013 produzi um show na França. Nos apresentamos num dos maiores festivais de arte da Europa, o Festival d’Avignon. Como disse, eu acredito no artista plural. Eu sou meio hiperativo! O texto e as letras das músicas vieram muito antes dos ensaios começarem. E o direcionamento da cena já estava muito na minha cabeça. É bem cansativo mas foi um processo natural.

BC: – Você divide a direção com Adren Alves. Na prática, como se dá a divisão do trabalho entre vocês?
TP: – Como a estética já estava muito definida na minha cabeça, eu não quis abrir mão da direção para não haver descontentamento, mesmo sabendo que seria um grande desafio. Convidei então Adren Alves para dividir a função, pois temos uma visão estética e de trabalho de ator muito parecida. Foram muitas horas de conversa e de leitura. Reguei a imaginação dele com todas as minhas referências e idéias e levantei o espetáculo. Adrén entrou limpando e fazendo com que meus desejos estéticos resultassem, já que eu também precisava estar em cena como ator. Foi tudo muito natural.

BC: – Quem é esse funileiro Cristóvão Gerônimo que você interpreta?
image1TP: – Nós temos uma ilusão de que a felicidade está atrelada ao sucesso. E confundimos sucesso com fama, fortuna ou beleza. Começa muito cedo a cobrança dos pais para que os filhos sejam ‘alguém’ na vida, e isso é muito perverso. O nosso protagonista é um homem feio, simples e pobre. É um boêmio sonhador. E, de repente, alguém julga que ele não pode ser feliz com tão pouco, mesmo sem conhecê-lo. Na trama, Cristóvão Gerônimo, é encontrado dormindo na rua por um nobre que, entediado, resolve enganá-lo. A ideia é levá-lo a crer que sua verdadeira condição é a que tem diante de seus olhos: criados à disposição, comes e bebes e uma vida de luxo e conforto. O Cristóvão gosta da nova vida até sentir falta de duas coisas: da liberdade e da alegria que tinha. Ele era feliz e nunca tinha se dado conta disso. Ele passa a viver um dilema. “Todo Vagabundo Tem Seu Dia de Glória” fala sobre vários assuntos. Entre eles o valor da ética, a descoberta do amor, a saudade, o preconceito e o papel da arte na formação do indivíduo. Vivemos um momento crítico no Brasil. O preconceito contra o que é diferente é algo que temos que lidar diariamente nas ruas, na televisão, em casa… O nosso musical fala sobre isso.

BC: – Qual sua expectativa para essa temporada no Oi Futuro?
TP: – Acho que vai ser o começo de uma linda jornada para esse musical autoral que fala muito sobre nós artistas. Uma homenagem ao teatro e as pessoas que tem amor como combustível. Espero que o público seja tocado pelos nossos personagens e que viagem conosco nesse mundo fantástico.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

abril 2017
D S T Q Q S S
« mar    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30