Nos Bastidores do Teatro Infantil: Série de Entrevistas. 19. Fabianna de Mello e Souza


 

Por Renato Mello.

incendios_0005Após um ano de ausência, a coluna “Nos Bastidores do Teatro Infantil” volta a ser publicada aqui no Botequim Cultural. O retorno não poderia ser mais auspicioso, com uma das mais importantes criadoras da cena teatral infantil, a atriz e diretora Fabianna de Mello e Souza.

Fabianna de Mello e Souza  inicia no Teatro Ipanema a partir do dia 24 de setembro nova temporada de “Oikos, um dos espetáculos que mais indicações recebeu aos principais prêmios do teatro infantil carioca em 2015.

Nesta entrevista Fabianna  nos fala de “Oikos”, seu processo de criação, o trabalho na Cia dos Bondrés e sua visão sobre o teatro infantil.

 

Foto: Fernanda Tomaz

“Oikos” – Foto: Fernanda Tomaz

BC: – Existe alguma modificação no espetáculo “Oikos” apresentado em 2014 no Oi Futuro para essa nova temporada no Teatro Ipanema?
FMS: – Sim existem algumas modificações. Os Bondrés tem essa marca de estar sempre avançando e investigando. Já durante a temporada retrabalhamos algumas cenas. Em seguida tivemos a oportunidade de circular através dos SESCs o que nos possibilitou revisitar o espetáculo através de ensaios. Neste segundo semestre a Cia dos Bondrés está passando por um momento de muita efervescência pois estamos realizando uma pesquisa durante três meses sobre a história do Brasil, os Fatos e Versões, estudando o Livro de João Ubaldo “Viva o Povo Brasileiro” e  reapresentando “Oikos” e “Epa!” Outros atores estão se aproximando, tá chegando sangue novo!! (risos) E isso é muito bom!  No espetáculo temos no elenco novos atores como Felipe Pedrine, Julia Morales e Bel(Flaksman) além da Flavia Lopes e Tomaz Nogueira. Este espetáculo ele é muito atual porque os fatos e acontecimentos de nossa cidade acabam por refletir na história dos cidadãos de Oikos. O que deixa esta temporada cheia de frescor. Estamos animadíssimos.

BC: –   De que maneira a problemática do mundo contemporâneo é abordada dentro do microcosmo particular criado por vocês para o vilarejo de “Oikos”?
FMS: – Sim. No Soleil(Théâtre du Soleil), havia um princípio de base: procurar o pequeno para achar o grande. Este pensamento nos norteou muito para desenvolver a dramaturgia do espetáculo.  Nossa história acontece neste pequenino vilarejo longe de tudo. Aparentemente…. No mundo em que vivemos o sentido de fronteiras está se transformando e as distâncias se aproximando.  A tragédia da Samarco em Mariana afetou grande parte de nosso país, causou estragos enormes no rio, nos seus afluentes,  no mar, na economia, na circulação  e claro que chega em nossas casas, na família, nas escolas e por aí vai. As redes sociais tem possibilitado uma nova maneira de nos reorganizarmos e   de nos alertamos. Oikos é contaminado por um lixo vindo de uma outra cidade, enorme e muito longe dali. O combate a este problema também será encontrado a partir da ajuda e da solidariedade de outras cidades através das redes e da união de seus habitantes.   E a cidade tão pequena consegue então solucionar seus problemas. Porque não está só, porque consegue se comunicar se organizar e pedir ajuda.   O sentimento de pertencimento, de responsabilidade, vigilância, de amor à terra e ao planeta onde todos nós somos habitantes, vizinhos e irmãos.

Oikos - Foto: Fernanda Tomaz

Oikos – Foto: Fernanda Tomaz

BC: – Como você percebe a recepção do público infantil em relação a temáticas apresentadas pelo espetáculo em relação a questões de sustentabilidade e de equilíbrio do meio ambiente?
FMS: – Este espetáculo é cheio de humor, de objetos manipulados e máscaras balinesas. A linguagem é muito direta com o público e ao longo de nossa trajetória a recepção tem sido incrível tanto das crianças como dos pais. Os problemas do meio ambiente estão sendo cada vez mais tratados com seriedade principalmente por parte do indivíduo e é preciso que o sistema de governança e de economia também mudem de atitude.  É preciso acreditar que podemos mudar, acreditar no outro e na força da mudança.  Acho que este espetáculo comunica tão diretamente por abordar problemas que o cidadão brasileiro se preocupa, de maneira divertida e através do teatro do bom teatro.

BC: –  Uma das marcas do seu trabalho é a utilização das máscaras balinesas. Gostaria que você abordasse como elas interferem diretamente no jogo do ator e das exigências que elas despertam na relação do ator com seu corpo, com a palavra e na forma de se expressar em cena.
FMS: – As máscaras interferem em tudo, até na sua maneira de ver a vida(risos). Elas são muito poderosas!! E muito exigentes!!! As máscaras balinesas são usadas nas apresentações dos templos de Bali que ao chegarem no ocidente revelou-se um grande instrumento de treinamento e preparação para o ator, pois o retira do seu universo cotidiano e nos revela a força da teatralidade. Viajar para o outro (as máscaras) o ator precisa antes de tudo imaginar e acreditar. O engajamento do corpo como um todo, a energia exigida ao vestir uma mascaras é enorme. Um acontecimento. Tudo obrigatoriamente se transforma!!  Os atores que tem esta prática desenvolvem resistência e versatilidade. Sei que sou suspeita, pois sou uma apaixonada.

BC: – Como surgiu seu interesse pelo estudo da técnica das máscaras balinesas?
FMS: – Surgiu em 1993, veja só! Quando participei do 1º workshop ministrado por Ariane Mnouchkine!!  Foi um workshop com máscaras balinesas e outras vindas do Japão e commedia dell arte. Uma revolução! Um amor à primeira vista que mudou minha vida pois em seguida fui convidada a integrar a trupe onde permaneci quase 10 anos e ainda desenvolvi minha pesquisa em Bali, Sri Lanka  e no Japão.

BC: – “Oikos” é fruto de um longo trabalho colaborativo dentro da Cia dos Bondrés. Gostaria que você abordasse o processo desse desenvolvimento coletivo para a dramaturgia final de “Oikos”?
FMS: – Ui! O processo de “Oikos” daria um livro!!! (risos)  Os Bondrés tem como princípio e pratica o processo coletivo. Extremamente coletivo. Lê-se um processo longo e intenso.  Isto traz uma grande riqueza artística, mas grandes problemas financeiros pois é difícil um edital e patrocinadores reconhecerem esta necessidade. Em “Oikos” tivemos o patrocínio da Oi que foi fundamental. Levamos quase 8 meses dentro da sala de ensaio investigando, treinando, descobrindo novas máscaras e desenvolvendo a dramaturgia…. ao final de seis meses, foi um processo  de muitas experimentações, tínhamos um esqueleto e uma dramaturgia quase  pronta. Quando finalmente percebemos que não era aquilo, que “Oikos” não correspondia aos nossos desejos artísticos, então resolvemos recomeçar do ZERO. Literalmente! E faltavam   dois meses!!! Foram jornadas de 10 horas de trabalho. Teríamos que encontrar uma história para abordar tais assuntos!!! Convidamos Keli Freitas para participar da dramaturgia até então desenvolvida por Eduardo Vaccari, por mim e pelos Os Bondrés. Foi um dos processos mais difíceis que já vivi, porém, uma linda aventura teatral que amadureceu muito o grupo.

BC: – Qual a diferença para você, como diretora, no desenvolvimento de um projeto dentro da sua própria companhia e de outros projetos exteriores aos Bondrés na condição de diretora convidada?
FMS: –  Acho que não existem muitas diferenças no processo de criação de espetáculos onde sou convidada, pois eu conto muito com os atores e com a equipe.  A colaboração de todos sempre me é fundamental.  Eu sou uma diretora que adoro atores. A escuta, o diálogo  e o processo de descoberta do texto  pertencem a mesma metodologia, se é que podemos chamar assim, de experimentações e confronto dos desejos e visões.

A Borralheira, uma Opereta Brasileira - Foto: Dalton Valerio

A Borralheira, uma Opereta Brasileira – Foto: Dalton Valerio

BC: –  Como foi a experiência de realizar um musical infantil a partir de um conto de fadas famoso, como “Borralheira, uma Opereta Brasileira”?
FMS: – Uma delícia. Para mim era impensável dirigir um musical, é um estilo que me atraia muito pouco. E foi lindo! Mas as máscaras participaram! Os 5 primeiro dias de ensaio foram máscaras, coro e corifeu(risos). Vanessa(Dantas), a idealizadora, é muito parceira. Tive sorte pois todos os atores e equipe confiaram muito em mim. Foi um aprendizado.  Existia um ritmo de trabalho bem diferente, uma equipe produção também bastante especial e a troca foi muito intensa. “Borralheira” é um dos espetáculos mais lindos que dirigi.

O Moço que Casou com a Megera - Foto: Carmo Dalla Vacchia

O Moço que Casou com a Megera – Foto: Carmo Dalla Vacchia

BC: –  E a experiência de dirigir um espetáculo para uma companhia que é referência dentro do teatro infantil, como a Cia de Teatro Medieval, da Marcia Frederico?
FMS: –  Cada projeto é uma aventura particular. O interessante e o princípio é estar disponível e atento de como fazer para que o processo aconteça da melhor forma possível para encontrar o teatro. Na experiência com a Cia Medieval tínhamos o texto da Marcia como Guia, que era ótimo! Ter um texto ótimo já é caminho andado e éramos quatro atores. Atores experientes como Rogério Freitas e a Marcia e todos se conheciam bem. Tinham um passado profissional em comum. Havia um acordo doce e natural entre os atores e era preciso respeitar esta trajetória vivida. E foi muito bom. Sempre é bom quando há um ambiente de confiança, entusiasmo e respeito pelo nosso ofício e isto encontramos fartamente nesta companhia teatral.

BC: – Falando em referências, quais foram as suas em se tratando de teatro infantil?
FMS: – Não foram tantas assim, mas foram fundamentais na minha vida profissional. Meu primeiro Infantil foi como Grupo TAPA,  “João e Maria” de Eduardo Wotzik. Um processo muito intenso com atores incríveis. Aprendi demais! Eu era a Maria virtual, isso láááá nos anos 80. “A Rainha Alérgica” de Tereza Frota, que me rendeu a indicação de melhor atriz para o prêmio Coca Cola. Também participei da “Bela e a Fera” com Gilberto Gawronski, que apresentou um novo processo e uma abordagem contemporânea para a cena. Também fizemos “O homem que Calculava” de Malba Tahan, “Meu Avô” dirigido por Ronaldo Nogueira, este então… foram mais de dois anos de temporada.

BC: –   Por que sua opção por um aprofundamento no teatro infantil? No que esse segmento teatral te encanta?
FMS: – É teatro??? Me encanta!!!!! Tem que ser bom! Infantil ou adulto e tudo mais… tem ser bom. E se aprofundar é sempre uma obrigação principalmente no teatro. Tudo que acontece na cena tem que ser necessário, tem que participar da história, tem de ser interessante. Para isto é preciso de trabalho duro, sério e profundo.

BC: – Você já teve uma experiência anterior na ocupação do Teatro Maria Clara Machado. Quais são suas expectativas e projetos agora a frente do Teatro Ipanema?
FMS: – A experiência no Maria Clara foi muito bacana e nos deu vontade de continuar…melhor e mais profundamente. Nos reunimos então. A residência “Vem” do teatro Gonzaguinha com Alex Mello e Rogério Garcia, com a nossa “Ágora” com Mauro Luiz Vianna e José Carlos della Vedova.  Para a atual residência o edital da prefeitura mudou e melhorou muito, o que nos dá maior liberdade para desenvolver o nosso projeto cultural. Nossa residência tem como objetivo principal resgatar a força deste teatro tão importante na história da nossa cidade através de uma programação intensa e de qualidade, abrigar grupos, incubadoras, desenvolver ateliês de treinamento para atores, atrair e acolher bem o público. Estamos trabalhando lá desde de abril e o teatro Ipanema já está apresentando novos ares. Um interesse grande do público e dos artistas. Muitas peças, shows e oficinas tema acontecendo lá dentro. Desde cedo tem atividade e o teatro abre 6 dias por semana, muitas vezes 7. Uma loucura!!! Uma alegria !!!!!

Oikos - Foto: Fernanda Tomaz

Oikos – Foto: Fernanda Tomaz

OIKOS
FICHA TÉCNICA
Texto: Eduardo Vaccari e Fabianna de Mello e Souza
Direção: Fabianna de Mello e Souza
Interpretação: Camila Nhary, Flávia Lopes, Lucas Oradovschi, Matheus Lima, Patricia Ubeda, Ruy Carvalho, Tomaz Nogueira
Trilha sonora: Karine Neves
Cenário, figurino e adereços: Gabi Windmüller
Assistentes de cenário e figurinos: Alberta Barros e Juliano Martins
Costureira: Maria José Gomes
Fotos: Fernanda Tomaz
Coordenação geral: Fabianna de Mello e Souza
Direção de Produção: Pagu Produções Culturais

SERVIÇO:
Data: 24/09/16 a 16/10/16 (sábados e domingos)
Horário: 16h
Local: Teatro Ipanema
Endereço: R. Prudente de Morais, 824 – Ipanema, Rio de Janeiro – RJ
Ingresso: R$15,00 (meia) R$30(inteira)


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