Nos Bastidores do Teatro Infantil: Série de Entrevistas 20. Anna Bello


 
Foto: Rafael Blasi

Foto: Rafael Blasi

Por Renato Mello

Na 20ª entrevista da série “Nos Bastidores do Teatro Infantil”, a atriz, cantora e flautista Anna Bello revela ao Botequim Cultural suas motivações para levar ao palco teatral o musical “Tra-la-lá”, um projeto pessoal que busca revelar ao público infantojuvenil a obra e universo de Lamartine Babo, um dos mais geniais artistas brasileiros.

Tra-La-Lá” se encontra em cartaz até o dia 26 de março no Oi Futuro Ipanema.

Em seu currículo consta colaborações com destacados nomes do teatro nacional. Em 2001, protagonizou “Cambaio”, musical de João e Adriana Falcão e músicas de Edu Lobo e Chico Buarque; direção musical de Lenine e direção geral de João Falcão. Atuou nos espetáculos: “Os meus balões”, “Iluminando a história”, de Karen Acioly, “A ver estrelas”, de João Falcão, “Eu e meu guarda-chuva”, ao lado de Andréa Beltrão, “A Borralheira – Uma opereta brasileira”, adaptação da opereta “La Cenerentola”, de Rossini com direção de Fabianna de Mello e Souza, entre outros. Trabalhou com diversos diretores como Fabiana de Mello e Souza, André Paes Leme e Gustavo Paso.

Segue abaixo a entrevista gentilmente nos concedida por Anna Bello.

Foto: Rafael Blasi

Foto: Rafael Blasi

 

BC: –  O que despertou o desejo de levar Lamartine Babo para os palcos num musical infantojuvenil?
AB: – Quando tinha 10 anos, comecei a tocar flauta em um grupo chamado Flautistas da Pro- Arte que ensinava música através da MPB. O grupo, que tem mais de 20 anos, homenageia um compositor brasileiro a cada ano. Lá aprendi não só a tocar flauta mas também sobre a história de cada compositor, a tocar em conjunto, a cantar, a dançar, enfim, é um trabalho muito diferenciado no que diz respeito à educação musical no Brasil. Esse grupo foi criado por Tina Pereira e Cláudia Ernest Dias. Tina era minha professora e namorava o Sutêonio Soares Valença, biógrafo do Lamartine, e acredito que por isso, o Lalá foi o primeiro homenageado do grupo. 

Há um tempo, tenho vontade de apresentar esses compositores para o público infantil e, ao mesmo tempo, fazer uma homenagem à Tina e Suetônio. Em 2014, fiz um show teatral baseado na obra de  Braguinha, chamado “ABC do Braguinha”. E a ideia inicial era fazer uma série de shows, cada um sobre um compositor, quando pensei: por que não um musical? 

Quando entrei em contato com a sobrinha do Lamartine para pedir autorização e falar sobre o projeto, lembro que ela ficou muito feliz de se tratar de um espetáculo para crianças, pois ela disse que Lalá era uma verdadeira criança. Talvez por isso o espetáculo emocione pessoas de todas as idades. Tra-la-lá fala para criança que existe em cada um de nós.

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BC: – Lamartine foi uma personalidade multifacetada e marcante na vida social brasileira do século XX. Que aspectos são mais abordados no espetáculo?
AB: – Pra mim, ele era um gênio! Foi um compositor que transitou por vários gêneros musicais e não só marchinhas, como ficou mais conhecido. Foi cantor, jornalista, humorista, apresentador de rádio e, às vezes, fazia uma orquestra inteira com a boca, quando apresentava uma nova melodia para os amigos em um bar. Centralizamos muito da personalidade dele no personagem do Armando Boaventura (Leandro Castilho) que é um contador de histórias, um poeta das ruas.

Ele tinha um humor que de tão inocente chegava a ser poético. E essa característica está presente em todo o espetáculo, inclusive através de falas do próprio Lamartine que Vanessa Dantas distribuiu entre os personagens. Uma vez perguntaram para o Lamartine de onde ele tirava toda aquela alegria da sua obra e ele respondeu: “Da minha tristeza.”

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BC: – Você acredita que o espetáculo terá um papel relevante para difundir o universo musical de Lamartine Babo para um público que talvez não o conheça como deveria?
AB: – Acredito que sim!! Acho que todo o espetáculo que se propõe a falar de um compositor, independente da forma, tem esse papel. O nosso objetivo é que as pessoas saiam do teatro querendo conhecer mais sobre a obra e a vida do Lalá. 

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BC: – Vanessa Dantas é responsável por belas adaptações de óperas para o teatro infantil. Como foi a escolha de Vanessa para assinar o roteiro? Você já havia pré-definido para ela uma linha narrativa ou as escolhas partiram dela? Como foi esse processo de concepção da dramaturgia?
AB: – Vanessa foi a primeira pessoa que eu chamei para o projeto, pois sempre admirei a forma como ela escrevia e a maneira com que ela se entregava para cada trabalho. Nos conhecemos quando trabalhei em um de seus espetáculos: “A Borralheira – uma opereta brasileira”. Nessa peça, nós interpretávamos as irmãs da Borralheira e com essa irmandade na ficção, descobrimos uma grande amizade. Depois veio “O Barbeiro de Ervilha”, em que eu participei das últimas temporadas. Nossa amizade cresceu e com ela veio a vontade de trabalhar outras vezes junto.

Nos encontramos e eu dei pra ela o livro “Tra-la-lá”, do Suetônio, e uma lista de músicas que eu considerava mais representativas dentro da obra do Lalá. Disse que queria um espetáculo que usasse o universo poético do Lamartine para contar uma história original, mas que não fosse um espetáculo biográfico. Sugeri que os personagens das músicas poderiam ganhar vida, como a Juju e o Voronoff. Tivemos vários encontros e longas conversas telefônicas onde íamos afinando os caminhos do texto. Vanessa insistiu (e eu concordei) que mesmo não sendo biográfico, era importante que a gente falasse um pouco sobre o Lamartine. Nos encontramos também com Pedro Paulo Malta que nos orientou e ajudou nesse sentido.  Um tempinho depois, Vanessa já tinha devorado todas as 800 páginas do livro de Suetônio e já era uma especialista no assunto. 

Facilita muito o fato da Vanessa também ser atriz e produtora, pois quando ela escreve ela pensa em todos os aspectos: número de atores em cada cena, quem vai poder tocar, quem estará trocando de roupa…

Quando começamos a ensaiar outros ajustes foram feitos, pois na cena acabamos descobrindo outras necessidades, mas continuamos sempre dialogando para encontrar a melhor solução. 

Foi um processo maravilhoso, acho que o texto é uma joia!!

22_Anna Bello_Leonardo Miranda_ Leandro Castilho_Isabela Rescala_Tra-la-lá_Crédito Rafael Blasi

Foto: Rafael Blasi

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BC: – Dois personagens remetem diretamente ao universo de Lamartine:  Juju Balangadã(você) e Seu Voronoff(Leonardo Miranda). Existe alguma associação direta das características dos personagens da peça com os personagens das canções? Ou na verdade é apenas uma mera citação(talvez brincadeira) com os nomes dos personagens, sendo na verdade uma recriação?
AB: – Lamartine se inspirou no médico russo Serge Voronoff para fazer a música Seu Voronoff. Voronoff era uma figura superexcêntrica da época que prometia rejuvenescer as pessoas enxertando glândulas de macaco. Transpondo para o universo infantil, Vanessa transformou o Seu Voronoff em um médico de bonecos. 

Já a personagem Dona Juju Balangãndã, foi inspirada em Carmem Miranda, a maior representante dos balangandãs. Nessa época a expressão “balangandã” se popularizou através da música de Dorival Caymmi, “O que é que a baiana tem?”. Jouxjoux queria dizer em francês bijuterias, joias de fantasia e balangandã seria a palavra equivalente a jouxjoux em português. 

Armando Boaventura é uma figura citada por Lamartine em um dos seus programas de rádio, chamado Canção do Dia. Nesse programa, ele compunha uma música por dia baseada em acontecimentos ocorrido nas últimas 24 horas. Ele fazia novas letras para canções de sucesso. Lalá achava que os nomes influenciavam na sorte das pessoas e que esse jornalista chamado Armando Boaventura tinha uma baita sorte.

Tina é uma homenagem à minha mestra Tina Pereira e Pedro uma homenagem à Pedro Paulo Malta.

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BC: – Observando a ficha técnica, impressiona muito a composição tanto do elenco, quanto a equipe de criação artística. Começando pelo elenco: Alguns nomes referenciais do bom teatro infantil fazem parte dele, como Leonardo Miranda e Leandro Castilho, que além de excelentes atores, são ótimos músicos. Ainda é muito difícil montar um elenco para teatro infantojuvenil que exija atributos distintos como a interpretação, o canto e o conhecimento instrumental?
AB: – O grande desafio era compor um elenco que, além de todo os fatores (canto, interpretação), ainda tocasse instrumentos. Era um verdadeiro quebra-cabeça!!! Tínhamos que pensar nos instrumentos que o elenco que já estava escalado tocava para encaixar o elenco jovem. Fora isso, tinha a questão do biotipo e também a maneira de cantar, já que se trata de um musical brasileiro.

Tivemos uma grata surpresa, pois tanto Daniel (Haidar) quanto a Isabela (Rescala) são artistas completos, supermusicais. Leonardo (Miranda) eu já conheço de longa data, era também meu sócio na produtora e, além de supertalentoso, era perfeito para o papel.  Eu e Leandro (Castilho) já tínhamos trabalhado juntos no “Barbeiro de Ervilha”. Quando a Vanessa me mostrou o primeiro tratamento do texto, eu só conseguia ouvir a voz dele nas falas do Armando. Além do elenco, tivemos uma equipe muito incrível com a gente!

Eléonore Guisnet que é nossa preparadora corporal, foi essencial para construção dos personagens e manipulação dos bonecos, e ainda criou as coreografias. Aurélio di Simoni, Carlos Alberto Nunes e Carol Lobato conseguem dar cor e forma para os elementos do texto de uma maneira linda e poética, contribuindo para a criação dos personagens e para contar a história.  E tem também o Bruno Dante que fez bonecos tão expressivos que parecem que estão olhando pra gente de verdade.

Temos uma equipe muito talentosa e sobretudo harmoniosa. Tenho certeza que isso contribui muito para o espetáculo que temos.

Foto: Rafael Blasi

Foto: Rafael Blasi

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BC: – Fale um pouco do trabalho de direção de Ana Paula Abreu. Como foi o processo de concepção do espetáculo conjuntamente com ela?
AB: – Eu e Ana Paula nos conhecemos na Uni-Rio. Somos amigas e já tínhamos trabalhado juntas, mas ela como diretora de produção (junto com a sua sócia Renata Blasi). Há tempos, a gente falava de trabalhar junto na área criativa e agora aconteceu! Ana possui uma grande experiência em musicais. Ela tem uma ótima visão do todo e isso nos ajudou a levantar um esboço do espetáculo em pouco tempo. Com isso foi possível, descobrir com a própria cena os caminhos dos personagens e entender o funcionamento da engrenagem da peça, a mistura das linguagens e a dinâmica dos atores com os instrumentos musicais. Que horas pegar o instrumento, como passar para o outro que vai tocar logo em seguida… E, principalmente, fazer isso tudo de forma orgânica, fazendo parte da movimentação do personagem. Ana é muito tranquila e segura, e apesar de não ser musicista, tem um ótimo ouvido! 

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BC: – Com relação aos arranjos musicais(Marcelo Rezende), buscam uma sonoridade de época ou tem uma proposta mais atemporal? 
AB:Marcelo buscou uma sonoridade mais atemporal, mas foi fiel a muitas introduções e melodias originais, já que era o próprio Lamartine que as criava. Lalá era inclusive muito conhecido por isso. Pixinguinha e Radamés, que em geral escreviam as partituras para os compositores que não tinham ensino formal de música, como era caso de Lamartine, diziam que ele era o único que chegava com a ideia completa do arranjo e fazia com a boca todos os instrumentos.  Por isso também pedi ao Marcelo que a gente fizesse uma canção só com sons de boca, como interpretamos “O Teu Cabelo Não Nega”. A instrumentação foi determinada muito pelo material que cada ator trazia.

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BC: – A pesquisa de época também faz parte da proposta dos figurinos de Carol Lobato (por sinal, uma especialista no tema)?
AB: – Tanto Carol Lobato como o Carlos Alberto Nunes fizeram uma pesquisa baseada nas referências que a Ana Paula passou inicialmente. É como um grande quadro em movimento, onde as criações de figurino, cenário e luz dialogam e se complementam. A peça se passa nos dias de hoje, mas temos as cenas de flashback. A lembrança do Seu Voronoff é quase cinematográfica, e fazer isso no palco foi o nosso grande desafio. Voltamos no tempo em momentos diferentes e para conseguir contar essa história de forma lúdica, a equipe inteira contribuiu com inúmeros detalhes que tornam as transições mágicas.

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BC: – Falando agora de teatro infantojuvenil de uma maneira mais ampla, você atuou em espetáculos importantes com referências no segmento, como Karen Aciolly, Fabianna de Mello e Souza e João Falcão. Como você vê o teatro infantojuvenil que se faz hoje? Te agrada o nível técnico, as propostas, ou você ainda percebe uma lacuna a ser preenchida?
AB:Acho que cada vez mais temos produções que pensam o teatro infanto-juvenil com respeito e comprometimento, não só em relação a parte técnica, mas principalmente no que diz respeito ao texto, aos assuntos abordados e à encenação.
Fico feliz de ver que tem muita gente boa nessa direção!  Teatro infantil na verdade é para família toda. É uma delícia ver os adultos se divertindo de verdade e compartilhando essa alegria com os pequenos.

É importante que os patrocinadores também consigam ter esse olhar respeitoso com o teatro infantil e entender a importância desse trabalho. Acho que nesse sentido a OI Futuro tem conseguido dar atenção para esse segmento e está fazendo um grande trabalho.

Nosso país ainda não tem o costume de consumir Arte. Nosso trabalho é de formiguinha, mas não pode parar!

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BC: – Por fim, quais são suas expectativas para “Tra-la-lá”?
AB:Minhas expectativas se resumem em ter uma vida longa com esse espetáculo e conseguir através dele, emocionar e divertir crianças e adultos. 

Foto: Rafael Blasi

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