Nos Bastidores do Teatro Infantil – Série de Entrevistas: 5.Jay Vaquer


 

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Cantor e compositor, Jay Vaquer fez em 2013 sua estreia no teatro infantil assinando a direção musical e criando a trilha sonora de 2 espetáculos infantis: “Peter Pan” e “Cinderela, o Musical“.

Nessa nossa 5ª entrevista da série “Nos Bastidores do Teatro Infantil“, Jay Vaquer nos fala de sua experiência no teatro infantil, aonde de maneira franca e direta aponta alguns problemas enfrentados pelo segmento. Jay Vaquer ainda comenta sobre  seu atual projeto no teatro: Meia Noite Cinderela.

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BC: – Em 2013 você fez a direção musical e a trilha sonora de 2 espetáculos infantis: “Peter Pan” e “Cinderela, o Musical”. Como foi a experiência de criar um trabalho voltado para o teatro infantil?

JV: – Amo crianças e sinto imenso prazer e responsabilidade quando tenho a oportunidade de trabalhar pensando nelas. Em “Peter Pan”, fui chamado para apagar um incêndio. O cara que faria essa trilha abandonou o barco na última hora e topei a empreitada apesar de contar com quase nenhum dinheiro e pouco tempo para elaborar tudo. Fiz praticamente uma “doação”. Se fosse cobrar 10% do que valeria esse trabalho, inviabilizaria qualquer possibilidade de concretizá-lo efetivamente. Fiz uma “direção musical” dentro do estúdio (e foi um trabalho do cão…rs ). No palco, os atores dublavam. Alguns dublavam suas próprias vozes e outros dublavam vozes de terceiros. Em “Peter Pan”, apesar da autonomia para criar as músicas e letras, encontrei um elenco definido e um texto pronto (Que depois, fui descobrir que era basicamente um mix de “copy paste” do filme da Disney e do filme do P.J. Hogan de 1993. Vários diálogos idênticos. Isso não me satisfaz de forma alguma.) Para topar trabalhar em “Cinderela, o musical”, condicionei cuidar do texto e também em escolher um elenco que pudesse cantar ao vivo. Cantar BEM. (E é impressionante como tem gente nesse mercado que não canta NADA ou quase nada mas que se mete a cantar para tristeza de qualquer canção. O incrível não é o ator, mas quem coloca esse ator em cena e ainda cobra ingressos. Fico pasmo. Como pode?rs) Mas no meio do processo, percebi que daquela maneira, ainda assim, não ficaria satisfeito com aquele tipo de teatro que precisa ser realizado ali. Algumas “interferências” para que o texto fosse assim, assado e questões da montagem, tiravam meu tesão. Preciso me envolver com entusiasmo e paixão ou não tem sentido pra mim. Uma peça atrás da outra. Condições precárias. Tem peça começando 13:30. E depois, 15:00, 16:00, 17:10, 18:30. Montagens diferentes!  Isso aniquila logisticamente a possibilidade de uma luz mais elaborada, afinada para o espetáculo, o som costuma ficar terrível, não há a menor chance de pensar em cenários mais cuidados…Nem existe tempo, nem dinheiro e nem espaço pra isso. Os figurinos muitas vezes, são na verdade preguiçosas fantasias que podemos comprar nas Lojas Americanas para o carnaval. (Especialmente em “Peter Pan”, era bem isso.) A divulgação das peças é basicamente deixar o elenco fantasiado “filipetando” pelos corredores do shopping. (E quando chove, comemoram o aumento natural de pessoas circulando pelos tais corredores.) Isso funciona para os produtores que estabeleceram esse caminho que nada me interessa. Nem financeiramente e muito menos artisticamente. Até existe uma beleza nisso tudo. Os olhos das crianças ainda brilham quando essas peças terminam ou mesmo quando avistam o ator fantasiado ainda fora da sala de espetáculos. Essa função é alcançada da melhor maneira possível. “A arte do possível”. E respeito muito isso. Peter Pan deixou muita gente satisfeita por mais de um ano em cartaz. Quando cheguei ali, eles já estavam lá fazendo aquela roda girar daquela forma.Não poderia pretender modificar aquilo. FUNCIONA BEM pra eles. Para a produtora, para os donos do Teatro e até mesmo para o público. Me percebi um estranho naquele mecanismo. Eu estou errado e não eles…rs. Não quero isso pra mim. Meu objetivo, meu propósito é outro e tudo certo. Simples assim.

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BC: – Escrever trilha para teatro, seja adulto ou infantil, é um trabalho que te instiga como criador ou é apenas um trabalho como outro qualquer?

JV: – Tenho verdadeiro fascínio e completo respeito. Sou apaixonado por musicais e sei que posso contribuir bastante criando e produzindo trilhas e textos…e vou. Já estou.

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BC: – Você teve todas as condições necessárias à sua disposição para realizar o trabalho que tinha em mente ou os recursos eram sempre limitados?

JV: – Tudo foi realizado sem grana, sob condições precárias. Muita paixão, cuidado e entrega. Mas no final, um resultado bem frustrante. Essa é a verdade.

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BC: – Tem algum outro projeto de teatro infantil para breve?

JV: – Não tenho. Talvez o Peter Pan volte com novo texto e com elenco cantando ao vivo. Tenho projetos para teatro adulto. Mas adoro teatro infantil também. Especialmente quando não subestimam crianças. Quando a arte não é sufocada, sobrepujada pela covardia de um mercado que vai no óbvio do óbvio, no medíocre. Cansei de aplaudir Vladimir Capella arrasando. Recentemente, fui assistir “Nós de borboleta”…um texto bem construído, lúdico, inventivo. Tem filosofia, tem poesia. Ótimos atores bem dirigidos. Isso me interessa. (Claro que essa qualidade não garante público e o caminho óbvio é muito menos arriscado…Correr riscos sem patrocínio é complicado.) Colocar atores fantasiados, num texto copiado de algum filme, dublando canções num som horrível? Estou fora.

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BC: – Você não acha que no teatro infantil existe um mercado com um enorme potencial que ainda não foi atingido?

JV: – Com certeza. Tem muita gente pensando um teatro obsoleto, de péssima qualidade. São muito mais pipoqueiros que artistas. Se percebem que ainda pagam o ingresso por algo que resultou num cocô, será o e$goto no palco e TANTO FAZ. Não tenha dúvidas. Isso inclusive estabelece e até justifica um estigma terrível que existe. Teatro infantil não pode virar sinônimo de programa tosco. E cobram ingressos que não são baratos quando deveriam até pagar cachê para as “vítimas”..rs.. Indenização! Você ainda encontra focos de uma “mambembice” que não deveria caber mais. Tudo meio sucateado, uma indigência sob vários aspectos. Está errado.Mas os pais não reclamam, acham que é isso mesmo…. “Aaa…é só pra criança! Dane-se o ator interpretando pessimamente, desafinando uma música chata, com uma fantasia já puída, num cenário caindo aos pedaços.””Só pra criança”??Oi? rs… Pagam uma porcentagem irrisória da bilheteria para os atores…que por sua vez, acabam aceitando quase pagar para trabalhar se você considerar o que gastam com transporte e alimentação. Funciona como experiência para atores adolescentes ainda em formação…mas você não segura por muito tempo um elenco qualificado dentro de uma estrutura tão capenga. Um bom musical, com bons performers, óbvio que REQUER um elenco muito qualificado.

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BC: – Fico com a impressão que sua experiência em “Cinderela, o Musical” criou algum tipo de vínculo afetivo com você. Vejo principalmente pelo elenco desse seu novo espetáculo. Por exemplo, estarão na Ópera Rock “Meia Noite Cinderela”, uma série de nomes que participaram daquele espetáculo infantil, tais como Gabriela Di Grecco, Raquel Keller, Juliana Viana, Roberta Spindel e André Rayol. Estou certo quando enxergo esse vínculo ou estou exagerando?

JV: – Faltou citar o ótimo Yann Dufau. Na realidade, estamos juntos nessa empreitada. Somos parceiros e cúmplices no processo todo. Eles apostam em mim e eu aposto neles. Dedicamos muito tempo e grana nesse projeto. Escrevi cada palavra e cada nota pensando neles. Tudo começou naquele infantil (Por meses e meses, eles estavam lá por mim e eu estava lá por eles.) e acabou derivando para o adulto que sempre esteve no código genético do espetáculo. Existe confiança e admiração por todos os lados…e isso nos fortalece bastante.

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jv5BC: – Por falar em “Meia Noite Cinderela”, trata-se do seu novo projeto no teatro, que apesar da sugestão do título, não é um infantil. Gostaria que você falasse um pouco desse seu novo projeto.

JV: – Interessante que nessa pergunta reside uma questão que é fato. Trazer “Cinderela” no título, inevitavelmente, remete ao infantil apesar da origem desse folclore universal não ser infantil. Cinderela não é uma obra da Disney…nem dos irmãos Grimm…nem mesmo do Perrault como muitos imaginam… Eles publicaram versões. Muuuuito antes, já existia Yeh-Shen na China ou mesmo Rhodopis na Grécia. O que fazemos aqui é pegar esse conto que funciona como coluna vertebral para desenvolver um corpo que vai além. Pensei em chamar esse musical de “CINZA”. Tem relação com a etimologia mesmo. Cinder é a cinza, o borralho (hmm..a Gata Borralheira.rs).. e Cinza como cor também funciona para descrever aspectos da protagonista desse espetáculo. Mas patrocinadores imaginam que “Cinderela” seja o único “brand” que pode ser trabalhado, uma vez que não é um musical da Broadway, não tem o Al Pacino no elenco e nem é uma peça repleta de canções do repertório consagrado de algum grande artista de nossa música. Fiz essa concessão e nem doeu. A dor seria ver um espetáculo bacana como esse sem chance de acontecer por falta de grana. Chamem de “Whatever Cinderela”. Tudo bem pra mim. rsrs.. Quem for ate lá, vai descobrir um espetáculo muito bem realizado. Muita gente talentosa quebrando tudo! Dentro e fora do palco.

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BC: – “Meia Noite Cinderela estreia agora em fevereiro, mas no finalzinho de 2013 vocês fizeram uma série de ensaios abertos. Qual o objetivo? Foi uma experiência válida?

JV: – Nossa estreia ainda não foi marcada. Na semana que vem, espero ter essa data. Mas estamos pensando em abril. Vamos retomar ensaios depois do carnaval. A experiência foi luxuosa. Pudemos constatar na prática tudo que ainda não estava funcionando. Texto, músicas, arranjos, marcações, coreografias, figurinos, desenho de luz… e de lá pra cá, fomos trabalhando nesses ajustes. Ainda estou trabalhando. Tínhamos que fazer as apresentações para pegar o dinheiro da montagem. Ou rolava em 2013 ou a verba não poderia sair mais…. Então, os ensaios abertos foram a solução..e soubemos tirar proveito disso.

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Jay Vaquer e Rodrigo Pitta, autor e diretor de "Meia Noite Cinderela"

Jay Vaquer e Rodrigo Pitta, autor e diretor de “Meia Noite Cinderela”

BC: – Como se dá sua relação como autor em relação ao diretor do espetáculo, Rodrigo Pitta, na criação do espetáculo? É muito difícil definir a linha divisória de onde termina seu trabalho como autor e começa a do diretor na concepção do espetáculo? Ou existe uma troca constante de opiniões entre vocês?

JV: – Na verdade, pra mim é bem fácil: Comigo não tem linha divisória. Me meto em absolutamente tudo que eu achar que tenho que me meter. E se alguém não gostar disso, tchau..rsrs… Ainda bem que costumam gostar..rsrs… Convidei Rodrigo Pitta. Trabalhamos juntos pela primeira vez em “Cazas de Cazuza”e desde então, detectei uma grande afinidade, uma sintonia artística. Mas escolhi por exemplo quem faria cenário, luz, figurino… “Me meto” mesmo…rsrs.. especialmente quando sei que posso e devo contribuir. Sou assim e não consigo e nem quero ser diferente.

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BC: – Para finalizar, gostaria que você falasse do trabalho que você realizou recentemente com músicas do Guilherme Arantes, um ícone dos anos 70 e 80 e desconhecido das novas gerações, por sinal um especialista em trilhas(só que para televisão). Por que esse desejo de mergulhar no universo de Guilherme Arantes?

JV: – Foi meu sétimo cd.”Antes da chuva chegar”. Resolvi iniciar uma série que chamo de “Transversões”. Consiste em me apropriar de canções de determinado compositor, tentando imprimir as características, a identidade de meu trabalho que é autoral. Seja pelas harmonias, pelos timbres e até mesmo pelos caminhos melódicos. É um exercício gostoso. O objetivo é que cada faixa do cd soe como se fosse uma música própria… e comecei pelo Guilherme justamente por ele ser pouco conhecido pelas novas gerações, o que é lastimável especialmente quando sabemos da grandeza e do talento desse artista, dono de um repertório sensacional.


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