Nos Bastidores do Teatro Infantil – Série de Entrevistas: 6.Domingos Santana


 

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Nosso 6º entrevistado da série “Nos Bastidores do Teatro Infantil” é o ator Domingos Santana, o grande vencedor da categoria Melhor Ator de Teatro Infantil na eleição que realizamos no Botequim Cultural pelo seu desempenho na peça “A Princesa e o Sapo“.

Domingos, um dos atores mais carismáticos do teatro infantil carioca, teve um ano de 2013, aonde encenou êxitos como”O Rapto do Papai Noel” e a própria “A Princesa e o Sapo“. No ano de 2014 se prepara para a estreia do que promete ser um dos mais ambiciosos e interessantes projetos de teatro infantil no Brasil, o espetáculo “Os Músicos de Bremen“.

Nessa entrevista, Domingos nos revela sua paixão pelo teatro infantil, sua formação como ator, seu projetos e de sua parceria com o diretor teatral Anderson Oliveira.

 

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Domingos Santana recebendo o Prêmio Botequim Cultural.

 

BC: – Em que aspecto o trabalho dentro do teatro infantil te ajudou no seu desenvolvimento como ator?

DS: – Há uma grande lacuna na formação do ator de teatro infantil. Os meus colegas de ofício tendem a encarar o trabalho na área como um prólogo para o “teatro de verdade”, um estágio, um primeiro passo para se iniciar a carreira que só será legitimada (e celebrada) quando finalmente se “migrar’ para o teatro adulto. Isso se reflete inclusive nos cursos de formação de atores: nenhum curso de formação no país possui qualquer tipo de disciplina (nem como eletiva), pesquisa ou núcleos de estudo voltados para o teatro e a dramaturgia infantis. Claro que essa visão é completamente equivocada, embora recorrente. inclusive com o público: “Mas, você não faz teatro adulto?” é das perguntas que  mais escuto na vida geralmente seguidas de uma expressão de pena no rosto do interlocutor quando respondo “nesse momento não”. A rigor não faz diferença nenhuma: há os mesmos tipos de demanda pro ator que ele teria no teatro adulto. Mas, pra não fugir da pergunta, diria que talvez, pela sua característica onírica e lúdica (interpretamos muitas vezes animais, seres imaginários e personagens sem qualquer compromisso com o real) ,o ator de teatro infantil seja mais exigido do ponto de vista de preparação corporal, gestual e vocal. Tive que exercitar mais o farsesco, o clown, o físico, sair do meus eixos, jogar mais não só com meus companheiros de cena mas com a minha pequena plateia, interagir com ela, “brigar” por sua atenção. Claro que essa experiência acrescenta, solidifica, sedimenta minhas ferramentas de atuação. Stanislavsky dizia que: “O teatro para crianças tem de ser igual ao teatro para adultos, só que melhor” Eu acredito nisso (e quem sou eu pra discutir com o mestre Stanilavsky, não é?)

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BC: – Ao contrário do que se pensa, teatro infantil não tem nada de amador. Existe um mercado, atores que se dedicam ao gênero, criadores, técnicos. Mas você não acha que esse mercado tem um enorme potencial que ainda não foi atingido?

DS: – Vou começar a responder essa pergunta fazendo uma confissão: Eu tinha muito preconceito com Teatro Infantil. Em primeiro lugar, por um total desconhecimento de causa: nunca tinha feito e nem convivido no meio. Em segundo lugar, pela qualidade (ou falta dela): as poucas coisas que vi eram, em sua grande maioria, pastiches de qualidade duvidosa de desenhos da Disney ou da última nova atração televisiva para crianças. Com cenários toscos, figurinos equivocados , dramaturgia pífia e atores e direção sofríveis se configuravam verdadeiras sessões de tortura. O que é quase um crime num país que tem a tradição de encenadores como Maria Clara Machado, Ilo Krugli,Waldemar de Oliveira e escritores como Monteiro Lobato, Ziraldo e até Erico Veríssimo, Jorge Amado e Ariano Suassuna escrevendo obras voltadas para o público infantil. Material não nos falta e nunca nos faltou. O que falta é uma nova visão sobre o teatro infantil: deixar de encará-lo como um subproduto, de subestimá-lo (e ao seu pequeno público) e repensar o senso comum de que ele tem como primeira função: “ensinar”, “educar”. A arte não foi feita pra ensinar Uma peça infantil é uma expressão artística igual a qualquer outra. Sua única peculiaridade é que ela é voltada para o um público específico: o infantil. Nós fazemos nossa parte encarando com muita seriedade o nosso trabalho e o nosso espectador. Quando montamos uma peça estamos plenos de ambições artísticas. Isso pra mim é fundamental!

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BC: – Você tem praticamente uma parceria com a companhia do Anderson Oliveira, a R & A Produções, aonde além de atuar em quase todas as suas peças, você é um dos responsáveis pelo desenvolvimento de vários trabalhos da companhia. Como se dá essa parceria? Como vocês trabalham em conjunto a concepção e o conceito dos espetáculos?

DS: – Retomando o que eu comecei a esboçar na outra pergunta, conhecer o Anderson Oliveira foi fundamental para mudar minha forma de encarar o teatro infantil e de perceber que não só é  possível se expressar artisticamente através dele como que essa experiência pode ser ainda mais rica. Portanto, se quiserem culpar alguém, a culpa é toda dele! A gente se conhece há mais de 10 anos, o Anderson tem uma vida inteira dedicada ao teatro (na qual o teatro infantil especificamente tem uma expressiva fatia) Pouco depois que a gente se conheceu, ele começou a produzir suas próprias peças (junto com a Ronize Carrilho, sua sócia e minha companheira de cena em A Princesa e o Sapo)  no que seria o embrião da R&A Produções. Conversávamos muito  e ele começou a tentar me convencer a atuar em algum espetáculo, eu rechaçava, receoso… Continuamos conversando, (aliás, como conversamos…Até hoje! Haja assunto) ele  me pediu ajuda com a trilha sonora dos espetáculos (fiz várias), isso foi evoluindo pra outras áreas: cenário, figurino. concepção, direção de arte e a partir daí ele criou um monstro (minha atividade preferida no universo é dar pitaco) e culminou com a minha estréia como ator na adaptção que fizemos de Pinocchio em 2008.

Nosso processo começa com a escolha de uma obra (no caso de adaptações) ou temática  (no caso de textos originais). A gente senta e discute, discute, discute (em boa parte das vezes num bar rodeados de cerveja…) briga, discorda, discute mais um pouco, toma mais um gole de cerveja e depois disso cada um vai pra casa: O Anderson pra começar a desenvolver o roteiro e eu pra mergulhar em pesquisa baseado no que a gente conversou. Com todo o  material de pesquisa e referência desenhamos um sketch book, um leque de influências e idéias  e traçamos um norte em que vão ser baseadas a direção,a trilha, os figurinos a linguagem, a direção de arte.

Nunca começamos uma peça pensando em “direcioná-la” para o público infantil, isso vem bem depois. A gente, primeiro, monta o arcabouço todo e leva ele muito a sério e enche de referências e costura o pano de fundo bem costurado. Primeiro porque a gente, repito, nunca subestima o nosso público: as crianças, claro, não vão chegar em todos os meandros da encenação mas elas captam bem mais do que a gente poderia achar. E segundo porque os adultos estão juntos e a gente quer que a peça sirva pro pai e pra mãe e pra vó e pro tio também e que eles se divirtam e que eles possam compartilhar da nossa visão e que a partir da experiência que eles vivenciaram juntos venham a discutir uma série de coisas com os pequenos. A gente vai embrulhar essa mensagem com o visual e com a música e com a dança (carregadas das referências que a gente colheu e costurou) e com um texto condutor que em sua essência qualquer um possa acompanhar (sem tati-bi-ta-ti) mas que vai vir cheio de camadas pra todo mundo degustar! É ambicioso, eu sei, mas é só assim que nós sabemos fazer

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BC: – Você está em cartaz com “A Princesa e o Sapo” e há pouco tempo encenava “O Rapto do Papai Noel”. Dois trabalhos que tinham uma empatia e uma integração total com o público. O que tinham esses 2 espetáculos de especial para conseguirem tamanha comunicação com a plateia?

DS: – É o que eu falei antes: para nós, o público vivenciar a experiência junto é um objetivo artístico. O público dialoga com o que toca ele de algum modo! A gente tá sempre buscando a interação. A necessidade de falar e contar, de se expressar é toda nossa como artistas! E acredite a gente tá doido pra falar! Mas também tá doido pra ouvir, dialogar, jogar  (sem pudores de quebrar a chamada quarta parede se necessário) Acho que nos dois espetáculos conseguimos acertar nesses alvos propondo discussões relevantes de algum modo. Além disso, parte de nós tem um background grande de comédia e acredito que isso ajude: o viés do riso facilita e é quase sempre empático!

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   Os Músicos de Bremen

BC: – Você agora está em pleno processo de preparação de mais um espetáculo, “Os Músicos de Bremen”, fale um pouco sobre esse projeto, a concepção, seu papel, suas expectativas.

DS: -Músicos de Bremen é um projeto que a gente tá gestando há quase um ano! Mais uma incursão nossa no universo dos Irmãos Grimm! Seguimos com a nossa marca de contextualizar e situar esses clássicos universais no Brasil como fizemos em A Princesa e o Sapo utilizando uma época/região e seus costumes, sua cultura e sua música pra conversar com as ideias do texto original, expandi-las e nos ajudar a contar a nossa história. Voltando a falar em referências e nos motes pros espetáculos, em A Princesa e o Sapo o nosso tema era Aparência: Todos os personagens, a começar pelo mais óbvio, o sapo, pareciam ser uma coisa e na verdade eram outras é só quando se descobriam, revelavam suas essências, se transformavam e podiam ser felizes; em Os Músicos de Bremen nosso mote é a Liberdade e a União: de como somente um homem verdadeiramente livre pode descobrir e desenvolver suas potencialidades que a opressão a que ele é submetido diminui e suprime e como o, à primeira vista, fraco e pequeno quando se une consegue ser grande e vencer seus desafios, sendo o maior e mais fundamental deles: o próprio medo. Trouxemos a história pra Minas Gerais cerca 1920, final do ciclo do café em uma das grandes fazendas que existiam aos montes naquela época. Eu sou o vilão da história, o Barão, dono da fazenda, que oprime seus empregados e até mesmo sua filha única que superprotege. Não aguentando mais, eles resolvem tomar uma atitude e fugir, deixando o barão sozinho. A história tem toques de realismo fantástico (meu personagem por exemplo é dado a crises de ira, sempre irritado, e literalmente pega fogo à medida que sua irritação e raiva vão aumentando – Sim, sai fumaça do meu corpo e eu vou incendiar em cena) Estamos usando músicas de Chico Buarque ( e da sua adaptação da história: Os Saltimbancos) e de Milton Nascimento e Clube da Esquina (Como falar de Minas sem eles?) Eu sou suspeito pra falar mas estou muito orgulhoso do trabalho e apostando que teremos muito sucesso. Talvez seja nosso projeto mais ambicioso em todos os sentidos. A estreia é dia 8 de março no Teatro das Artes e convido todos a conferir.

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BC: – Um dos aspectos que mais chamam atenção em cena é seu talento como cantor. Você tem alguma formação musical? Como você se desenvolveu como cantor?

DS: – Então… Vocês acreditam que descobrir que eu podia cantar foi um acidente? Era algo que eu nunca imaginei fazer. Atuar era o que eu sempre quis fazer e me limitava a isso. Quando vim morar no Rio de Janeiro (Nasci no Recife e sou filho de militar, então mudava bastante de cidade até me fixar aqui) eu tinha abandonado a carreira e estava me dedicando full time à Informática que é uma das minhas áreas de formação (a outra é Comunicação Social) Estiudava e morava na UFRJ (ali na Ilha do Fundão) e um belo dia num intervalo das aulas havia um coral ensaiando. Resolvi ir até a sala de curiosidade e saí de lá membro do coro. Cerca de um mês depois estavam acontecendo audições para um mega espetáculo de ballet chamado Sete Danças para Villa Lobos que iria acontecer no Theatro Municipal. Fiz o teste e para minha surpresa fui aprovado e a minha estreia nos palcos cariocas se deu através da música. A partir daí eu passei a fazer parte do Coro da Escola de Música da UFRJ e se seguiram uma série de espetáculos como cantor: Óperas em super produções -Turandot na Apoteose, Carmem no antigo Metropolitan, A Flauta Mágica com direção do Dudu Sandroni e do Aderbal Freire Filho e Ballets – trabalhei até com o American Ballet Theatre nas últimas incursões que fizeram aqui. E foi assim que a música me fez renascer como artista. Hoje tenho um coaching musical e nos últimos trabalhos temos contado com a preparação vocal da Juliana Veronese (que também está no elenco de Os Músicos de Bremen).

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BC: – Como ator, que papel você sonha um dia representar no teatro?

DS: – Não projeto muito minha carreira com relação a personagens… Gosto de viver e contar histórias interessantes e quando resolvo aceitar um convite ou me candidatar para um papel é porque a personagem e/ou o projeto já me fisgou. Tem algumas pessoas que eu gostaria de trabalhar um dia: o Möeller e o Botelho, por exemplo, porque me identifico muito com tudo que eles fazem! O João Falcão também… 

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BC: – Com a experiência adquirida em tantos anos, inclusive na criação e concepção de peças de teatro, quando veremos uma pela dirigida por Domingos Santana? Você tem algum projeto nesse aspecto?

DS: – Eu ainda não me sinto maduro o suficiente para tocar a direção de um projeto sozinho. São muitos detalhes envolvidos e é muito difícil. Me sinto realizado podendo fazer o que faço junto com o Anderson Oliveira. Eu prefiro fazer esse trabalho de concepção, me divirto mais, tenho mais tesão do que propriamente dirigir. Até porque ele já faz isso tão bem. Me contento em ser sua sombra e ajudá-lo no que puder. Acho que o nosso time está bem escalado do jeito que está (embora ele também viva me provocando e insistindo para que eu assuma as rédeas de uma produção. Não sou de dizer nunca mas, por enquanto, não está nos meus planos…)

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BC: – No teatro infantil, como e aonde costumam se dá os ensaios? Existem lugares específicos para vocês desenvolverem seus trabalhos? Ou é tudo feito com a cara e a coragem?

DS: – No nosso caso, a companhia também trabalha em shoppings do Rio de Janeiro e nossa sede fica em um desses shoppings. Temos um espaço bem amplo que é escritório, depósito/fábrica de cenários, figurinos e adereços, camarim e espaço para ensaios. Ainda este ano pretendemos aumentar as atividades e a sede construindo um estúdio para fotos e vídeos e iniciando nossos cursos de formação de atores. Fazemos as leituras, discussões e os primeiros ensaios lá e posteriormente com a peça já marcada e mais madura ensaiamos no próprio palco/teatro em que vai ocorrer a temporada. Às vezes também estabelecemos parcerias com alguns espaços. Mas ó: sem cara e coragem a gente nem começa a fazer teatro no Brasil…

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BC: – É possível viver de teatro infantil no Brasil?

DS: – Poderia ser mais fácil se encarássemos teatro – entretenimento em geral – como um negócio (como por exemplo é nos EUA) com investidores, planejamento, gerenciamento, taxa de retorno, compromisso com bilheteria. A estrutura governamental criada para que se consiga financiar cultura no país apesar de necessária se tornou viciada: o que deveria ser um facilitador e um financiador prioritário para quem quer experimentar linguagens e caminhos na cultura foi apossada pelo mainstream e por uma meia dúzia de produtores e acaba realmente funcionando somente para quem teoricamente não precisaria dela. Gente que conseguiria levantar capital (ou usar o seu próprio) e ter lucros e girar o mercado sem precisar recorrer a incentivos. Tem muita gente ganhando dinheiro, fato, a reboque de uma grande maioria que ganha nada ou muito pouco! No caso do teatro infantil, tudo se agrava pelas questões que eu já tinha colocado anteriormente: de ser visto como menor, um subproduto. Faço teatro porque preciso fazer, é vital pra mim e faria mesmo que não ganhasse nada com isso, mas como em toda profissão temos que ser remunerados e ter garantias. Acho que falta (de novo cito o exemplo dos EUA) ainda, por parte dos atores e técnicos uma maior organização e representatividade sindical para reinvindicação de pautas com relação à remuneração mínima, condições de trabalho, de contratação e garantias e coberturas básicas  entre outras coisas que são direitos para qualquer trabalhador brasileiro (voltamos à questão do teatro enquanto negócio e do ator como um empregado de uma empresa – no caso uma produtora) A saída pra mim passa pela profissionalização e pela regulamentação. Não dá para posar de vítima…


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