Nos Bastidores do Teatro Infantil – Série de Entrevistas: 7.Marco dos Anjos


 

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O ator, diretor, produtor, autor e professor Marco dos Anjos é o 7º entrevistado da nossa série “Nos Bastidores do Teatro Infantil“. Marco dirigiu “O Reino da Gataria“, uma das melhores montagens do teatro infantil em 2013, espetáculo do qual falamos AQUI. Nessa entrevista Marco nos fala de sua experiência na montagem de espetáculos, na formação de atores, do novo projeto “No Embalo das Cores” e seu trabalho junto da Trupe de Experimento.

Marco é fundador da Trupe do Experimento, uma companhia que se dedica a pesquisar, pensar e investigar linguagens para o teatro infanto-juvenil, cujo trabalho pode ser conhecido mais detalhadamente  neste link: Trupe do Experimento.

o REINO

O Reino da Gataria

BC: – Em “O Reino da Gataria” existe uma estrutura com 20 atores em cena, cenário bem elaborado, maquiagem e figurinos caprichados. Essa não é a realidade da maioria absoluta dos espetáculos infantis. Como foi possível viabilizar uma produção desse porte para o teatro infantil?
MA: – O Reino é um projeto independente, sem vínculo com a Trupe do Experimento, e foi um desafio. Na época, eu ministrava aulas de teatro em uma escola da Barra da Tijuca. Surgiu a possibilidade de uma oficina de teatro musical que resultasse em um produto que pudesse entrar no mercado e lançar novos atores. Eu já havia feito uma livre adaptação do clássico “Aristogatas” e também as músicas. O projeto foi crescendo. A primeira temporada rolou bem e cumprimos o objetivo. O diretor da escola assumiu a produção e o espetáculo teve desdobramentos. Quanto à estrutura, é praticamente impossível manter um espetáculo deste porte, com músicos ao vivo e numeroso elenco, por dois motivos: logística e patrocínio. Os teatros não estão preparados para receber “tamanha produção” em um infantil. Infelizmente, ainda há a regra de que o horário infantil tem que se adaptar ao espaço que resiste ao cenário do espetáculo adulto. E sem patrocínio ficou inviável manter os músicos. Em dois anos, já houve cinco mudanças de elenco devido à falta de patrocínio e ao cachê, que é proporcionado unicamente pela bilheteria e, infelizmente, é baixo. Cada apresentação ou temporada é um ato de coragem e garra de todos os envolvidos. E assim seguimos: na garra.

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BC: – Por trás do seus projetos em teatro infantil parece existir uma boa estrutura, com a “Trupe do Experimento”, que te permite elaborar vários espetáculos em curto espaço de tempo entre elas. Qual a importância de uma sólida estrutura de uma companhia para que você consiga desenvolver seus projetos?
MA: – A Trupe do Experimento completa oito anos em junho. Acredito que o ponto crucial ocorreu dois anos atrás, quando decidimos dar um passo importante formalizando a Trupe como uma empresa. Assim, eu (ator, diretor e jornalista), Daniel Carneiro (ator, músico de publicitário) e Fabrício Ligiero (ator e coreógrafo) criamos a Trupe Produções, para podermos pleitear editais culturais, leis de incentivo, apoios, patrocínios e, assim, buscar a viabilização dos projetos. Desde então, temos encontros diários, divididos em ensaios, reuniões de produção e encontros artísticos. Desses encontros, surgiu a necessidade de criarmos uma incubadora para que todos os integrantes pudessem sugerir textos e projetos. Assim, novos autores estão surgindo. Como consequência, este ano vamos estrear “No Embalo das Cores” (de Tathiana Loyola) e “O Pequeno Autor” (de Nathalia Colón). Temos uma equipe sólida e optamos por um teatro autoral, sempre focado no trabalho do ator, exercitando a tríade: texto, corpo e música. Além das estreias deste ano, seguimos com circulação dos espetáculos do repertório da Trupe: “O que Podemos Contar” e “Sonho de uma Noite de Verão” – a magia de Shakespeare para todas as idades.
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BC: – Na entrevista que nos deu para essa nossa série “Nos Bastidores do Teatro Infantil”, o músico Jay Vaquer nos declarou sobre o teatro infantil: “Você ainda encontra focos de uma “mambembice” que não deveria caber mais. Tudo meio sucateado, uma indigência sob vários aspectos. Está errado. Mas os pais não reclamam, acham que é isso mesmo…. “Aaa…é só pra criança! Dane-se o ator interpretando pessimamente, desafinando uma música chata, com uma fantasia já puída, num cenário caindo aos pedaços.””Só pra criança”??Oi? … Pagam uma porcentagem irrisória da bilheteria para os atores…que por sua vez, acabam aceitando quase pagar para trabalhar se você considerar o que gastam com transporte e alimentação”.

O que falta para o teatro infantil alcançar um potencial que possui que ainda não foi alcançado, principalmente por donos de teatros, investidores, técnicos e atores?
MA: – Eu simplesmente não entendo esta separação quanto a estrutura. Fazemos teatro e ponto. Precisamos dos mesmos recursos.  O que falta é a percepção de que cada produção tem sua necessidade, independente do horário ou segmento de público. O público do horário infantil é tão ou mais exigente. As boas produções assumem a responsabilidade de cativar não só a criançada, mas, sim, toda a família que acompanha.  Criança não vai ao teatro sozinha. O horário infantil deve ser encarado como teatro para toda a família. Além de ter a clara função de formação de plateia.Atualmente, percebo uma mudança nesse cenário, ainda que sutil. Espetáculos autorais estão ganhando força, surgiram prêmios específicos para o segmento e cada vez mais os editais de patrocínio garantem a parcela do teatro infantil. É o inicio. Continuemos a batalha! (rs)
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BC: – “O Reino da Gataria” foi um espetáculo que conquistou vários elogios (inclusive no nosso blog), foi um sucesso de público e ganhou prêmios. No seu ponto de vista, por que esse espetáculo alcançou tamanha empatia e sucesso?
MA: – Acredito que a estrutura já surpreenda no primeiro momento. Além disso, temos em cena animais domésticos (cães e gatos) já empáticos à criançada e um elenco, sempre, com uma garra invejável.  Não há como prever uma fórmula nem presumir o que a plateia vai achar. Busco me divertir nos ensaios e proponho o mesmo para o elenco.

.No embalo das cores 01 (foto ernane pinho) corte

No Embalo das Cores

BC: – Gostaria que você falasse um pouco desse novo projeto da “No Embalo das Cores”. Do que se trata? Vai estrear quando e aonde?
MA: – É o novo espetáculo da Trupe, com estreia marcada para 5 de abril no Centro Cultural Justiça Federal (Av. Rio Branco, 241) às 16h. Conta a história do Artista (Raphael Uchôa) que está sem inspiração e não consegue pintar nada há dias. O problema é que ele tem que entregar a tela encomendada para o casamento do Rei, senão corre sério risco de ser preso ou de lhe cortarem a cabeça. Compadecidas, as cores primárias resolvem “se derramar” para ajudar seu amigo. Mas não será tão fácil assim, o Artista não os reconhece. Está cego de saudade de sua amada e só enxerga em preto e branco. As cores, sem alternativas, resolvem ir à última consequência: misturar-se. Em cena, Tathiana Loyola (amarela), Paula Barbosa (vermelha) e Stain Canidi (azul) dão vida a cores bem temperamentais. Na tentativa de ajudar o artista, criam muita confusão.O espetáculo conta com músicas originais de Daniel Carneiro, executadas ao vivo, que prometem embalar esta aventura, que narra a  busca pela inspiração para criar.
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BC: – Em que aspecto seu trabalho com teatro infantil ajudou a desenvolver algumas qualidades suas como diretor?
MA: – Em todos os aspectos. Acredito ter ficado mais atento aos detalhes. Nossos processos são sempre bem intensos. Discutimos propostas e escolhas. A dramaturgia surge com e pela interferência de toda a equipe. Muitas vezes me pego na função de organizador de ideias. (rs) E são muitas em cada processo. Gosto de ficar atento ao que cada ator doa ao seu personagem. Curto muito quando eles começam a tomar forma e se apossam do espetáculo, me fazendo rever marcas, momentos, reunir novamente a equipe e tornar a pesquisar.O teatro infantil nos permite brincar com a deformação, com o corpo expressionista, com o cenário surrealista, com a imaginação e a fantasia. Isso amplia a busca e a pesquisa. É um teatro sério. Tão sério como brincadeira de criança.
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BC: – Você costuma fazer cursos e oficinas voltados para crianças e jovens. Como você vê a formação dos jovens atores de teatro no Brasil?
MA: – Não posso falar sobre a formação em nível Nacional. Aqui no Rio, percebo muita pressa. Todos estão afoitos. O tempo de pesquisa acaba diluído na “quantidade de espetáculos que é necessária para tirar o DRT”. Ah! Existe também a procura pelos famosos em suas incansáveis workshops. Hoje em dia existem cursos e oficinas para todos os gostos e bolsos. Não há desculpas para não se preparar. Particularmente, acredito que os artistas devem surgir da formação de grupos, da pesquisa continuada e, como consequência, alcançar o mercado.
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BC: – Baseado em recentes declarações de um “ator”, faço uma pequena provocação: Você acha que para os jovens o teatro é algo chato?
MA: – Não. Acho que há um desafio: Temos que conseguir chegar ao jovem. O que ele quer discutir? O que gostaria de assistir no teatro? Qual temática provoca identificação? Estou falando especificamente do pré-adolescente. É uma faixa etária que está na ebulição dos hormônios. Não são mais crianças e também não são adultos. Estão em busca de referências e em choque com encontros que a vida começa a propor. Em sala de aula, percebo o quanto querem ser ouvidos. São antenados e querem espaço para discutir suas questões. É uma fatia do mercado a ser explorada. São raras as produções direcionadas aos jovens.
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BC: – É possível viver de teatro infantil no Brasil?
MA: – É possível viver de teatro. A questão é que o ator tem se perceber artista e produtor. Dono do seu trabalho. Estudar os mecanismos disponíveis para viabilização do mesmo. Não digo que é fácil, mas, sim, é possível. Eu vivo.


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