Nos Bastidores do Teatro Infantil – Série de Entrevistas: 8.Rodrigo Rosado


 

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Rodrigo Rosado dirigiu um dos melhores espetáculos infantis de 2013, uma nova montagem de “Flicts”, o clássico de Ziraldo. A peça inclusive foi uma das indicadas na 2ª edição do nosso Prêmio Botequim Cultural, como Melhor Peça Infantil e Melhor Diretor, que promovemos neste espaço.

flicts6A boa notícia é que “Flicts” voltará em cartaz no dia 9 de março, sendo encenada dessa vez no Imperator. Mais um bela oportunidade de se assistir essa ótima montagem de um grande texto.

Rodrigo Rosado é o nosso 8º entrevistado da série “Nos Bastidores do Teatro Infantil“, aonde nos fala do seu trabalho em “Flicts”, seus planos e seu pensamento sobre o teatro infantil.

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BC: – “Flicts” foi sua primeira experiência como diretor de teatro infantil. Como você avalia essa experiência?

RR: –  “Flicts” é um renascimento pra mim, é um grito de liberdade enquanto fazer artístico, é um aviso de alguém que também se sente Flicts,  é um pouquinho de tudo que já fiz na vida, é um experimento do meu fazer teatral junto ao talento de todos da equipe. Sou muito coruja, estou sempre nas apresentações e sempre quero mudar algo, mas acho que esta inquietude faz parte de minha personalidade e não de algo que eu não goste. Avalio a experiência com um misto de sensação, a de que estou no caminho certo enquanto teatro voltado para crianças e ao mesmo tempo acho que está tudo errado, e aí tento abstrair e pensar: é só o começo, ainda tens muito que aprender… E me motivo com isso,
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BC: – De que maneira sua experiência anterior no universo infantil, como ator, foi útil para a criação e concepção de “Flicts”?
RR: – Em “Flicts” está tudo aquilo que me fez ser quem sou. Viver como artista neste pais é ser um Flicts. Já passei por animações de festa infantil, teatro infantil de qualidade e de gosto duvidoso também, mas sempre coloquei minha alma em todo trabalho que executei como ator. Esta é uma profissão sagrada e devemos executá-la com o respeito devido. O teatro infantil sempre me ensinou que para adultos se mente fácil, mas pra crianças não, ou ela compra a ideia ou muda seu foco de interesse, e esse foi o pensamento norteador durante o processo de montagem. Na época eu trabalhava com crianças de 2 a 7 anos em escola de educação infantil, e a maior parte do que está em cena hoje, foram construídas partir de ideias do que eu vivia no dia a dia com aquela molecada. Um ator nunca pode deixar morrer sua criança e o teatro infantil, seja atuando ou dirigindo me ajuda a manter pelo menos os olhos inocentes de criança.

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BC: – Um dos aspectos mais interessantes em “Flicts” é a maneira como você incorporou e colocou em cena seus atores, cada um com seu instrumento musical, inclusive como um interessante elemento sonoplástico. Como foi o processo de montagem desse elenco? Existem muitos atores no mercado que tenham esse tipo de formação para essa necessidade dramatúrgica criada por você?
RR: – O meu primeiro quesito para o elenco é que ele fosse misto, diversificado enquanto perfis, ou seja, queria pessoas que fossem Flicts, ou que de alguma forma fugissem dos padrões. Foi uma escolha difícil, não por falta de mão de obra, hoje temos uma nova geração de atores extremamente aplicados que tocam até mais de um instrumento, mas quando vão pra cena mantém uma energia cotidiana, que não era a energia que buscávamos. Após escolhido o elenco foi o momento de transformação, vivemos um momento intenso de entrega de cada ator que aos poucos foram colocando suas habilidades para fora das mangas e eu fui colando tudo. Só consigo trabalhar a partir do ator, preciso que o ator me dê o material, afinal teatro não é arte do ator?
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BC: – Outro dia vi um anúncio em que você procurava atores que tocassem violino e percussão. Perdoe-me a curiosidade, mas o que vem por aí? Em que projeto você está trabalhando?
RR: –  Novidades vem muitas, estava buscando novos atores para uma substituição no “Flicts”, pois faremos uma temporada de 9 a 30 de março no Imperator e teremos um elenco com algumas alterações, vale a pena conferir quem não viu e quem viu vá de novo… Em abril estreio como ator uma peça adulta “Uma pilha de pratos na cozinha” de Mario Bortolotto com direção de Alexandre Borges, e ainda este semestre lanço o primeiro espetáculo infantil da minha cia., a Cia três pontinhos de teatro(…) que nasceu da parceria entre eu, Fernanda Alencar e Tauã Delmiro na montagem do “Flicts”, na verdade já nos conhecemos nos palcos da vida e entre conversas de bastidores vimos que tínhamos algo em comum. Estamos em produção com “O canto de Iara” um musical infantil que também explora temas controversos para crianças.
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BC: – Em que aspecto o teatro infantil ajudou no seu desenvolvimento, seja como ator ou diretor?
RR: – Em tudo, a criança é sincera, a criança não leva as coisas tão sério e criança se permite imaginar, todo este exercício para falar para crianças me disciplina seja como ator ou diretor
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BC: – Você não acredita que no teatro infantil existe um enorme mercado em potencial que ainda não foi corretamente explorado?
RR: – Acredito que há sim um enorme mercado, porém temos de ter a responsabilidade de estar sempre em mente que o teatro infantil é um formador de público e se você crescer vendo coisas ruins, você não será um adulto que frequentará teatro. Não é porque é para criança que é algo menor, reforço, crianças não aceitam mentiras. Podemos e devemos falar tudo para criança, a democracia nas mídias sociais está aí pra isso, devemos nos preocupar em “como” falar. 
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BC: – Qual a grande dificuldade técnica em montar um espetáculo infantil? Existe, por exemplo, limitações impostas para criação dos cenários para que não atrapalhe o espetáculo principal do teatro? Como se dá esse tipo de embate nos bastidores?
RR: – A grande dificuldade técnica acredito ser a falta de espaços adequados, estamos sempre limitados ao espetáculo do horário nobre, o que resta do palco e dos equipamentos é o que temos de usar. Não existe limitações, mas existem “Realidades” e as produções vão se entendendo com o uso deste espaço!
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BC: – Você acabou de dirigir “Flicts”, que é baseado em um clássico de Ziraldo. Em 2012 você atuou numa montagem de “Pinocchio”, dirigida por Anderson Oliveira. É mais fácil viabilizar no teatro infantil um texto clássico em detrimento de um roteiro original? Ou é indiferente, o que vale é a qualidade do projeto?
RR: – Acredito que vale é a qualidade artística daquele projeto, claro que aí estamos falando do tal “teatro comercial”. Penso que todo teatro deva ser comercial a partir do momento que você viva. Existem tantas estórias, contos, livros infantis e ainda vivemos agarrado ao que a Disney produz para crianças, isto tem um apelo comercial maior, porque vem de fora, porque todo mundo conhece… Em “Pinóquio”, Anderson fez uma super adaptação, criou músicas próprias, deu uma cara nova ao que todos conhecem. Acho que a pesquisa de “como falar” e que deve estar latente na cabeça de todos que trabalham com crianças. Tem espaço para todo mundo, e como diz Flicts:”-o que seria do azul se todos gostassem do amarelo?”.
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BC: – Você atuou no filme “Gonzaga” e protagonizou um média-metragem: “Saccharum”. Fale-nos um pouco de sua experiência no cinema. Pretende investir mais nesse meio?
RR: – O cinema é uma paixão, poder dar vida a um personagem no cinema é algo incrível, minimalista, desafiador, o cinema a avesso a mentira na atuação. Atualmente estou fazendo direção em cinema na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, e pretendo  trazer o audiovisual pro teatro infantil e o teatro infantil pro cinema brasileiro. Produzimos muito pouco pra criança em matéria de cinema e estamos recheados de boas estórias, lendas, consequentemente maravilhosos argumentos para roteiros…
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BC: – Para finalizar, é possível se viver de teatro infantil no Brasil?
RR: – É difícil, mas é possível! Sou a resistência disto! 


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