Crítica: “O Castelo de Papel” – A Princesa Isabel e o Conde D’Eu sob a ótica de Mary del Priore


 

O lançamento de um livro de Mary del Priore é algo que sempre chama minha atenção e assim não poderia deixar de ser com seu último trabalho, “O Castelo de Papel”, editado pela Rocco, que tem seu foco na vida e na relação da Princesa Isabel com o Conde D’Eu.

Tenho uma relação ambígua com Mary Del Priore, gosto de ler seus livros, gosto do seu texto, que tem uma leitura fácil, direta e pouco acadêmica, coisa rara numa historiadora, tanto é que vários jornalistas vem ganhando amplo espaço no mercado editorial com livros sobre a história do Brasil, causando controvérsia nos meios acadêmicos. Mary tem seus méritos nessa recente popularização da história do Brasil, graças a escritores como Laurentino Gomes, Eduardo Bueno, Pedro Doria e a própria Mary. A diferença dessa relação é que ela é a única historiadora de ofício, enquanto os outros são jornalistas.

Mary consegue um êxito editorial superior a seus colegas de classe porque tem um boa comunicação e uma agradável linguagem escrita, o que pode ter-lhe encorajado para que recentemente disputasse uma cadeira na Academia Brasileira de Letras(que acabou perdendo para Rosiska Darcy de Oliveira). Mas ao mesmo tempo tenho um pé atrás, como já escrevi AQUI, com sua vastíssima produção literária, que consegue lançar livros em curto espaço de tempo. Por vezes acaba me parecendo um falta de rigor na pesquisa que um maior espaço temporal se requer necessário, mas creio que na verdade acaba compartindo seus estudos em diversos livros, o que acaba dando uma impressão de caça níquel. Lógico que, por exemplo, enorme parte dos estudos realizados para escrever “O Príncipe Maldito”, acabaram se desdobrando em material para “O Castelo de Papel”.

Alguns de seus livros nada acrescentaram, acabaram sendo meio que material requentado do que já era de amplo conhecimento, cito entre os exemplo de “Matar para não Morrer”, sobre a tragédia envolvendo o triângulo amoroso de Dilermando de Assis, Euclides da Cunha e Ana de Assis, ou ainda “A Carne e o Sangue”, sobre outro triângulo, a relação de D Pedro I com Leopoldina e a Marquesa de Santos. Mas tem livros históricos com interessantes estudos sobre costumes, como “Histórias Íntimas. Sexualidade e Erotismo na História do Brasil”, “História do Amor no Brasil” e “História das mulheres no Brasil”. Mas sem dúvida, seu grande trabalho e contribuição para a história do Brasil foi trazer à luz um obscuro e perdido personagem, completamente desconhecido da grande maioria, o príncipe Pedro Augusto, neto de D Pedro II, que ambicionava tirar a Princesa Isabel da linha de sucessão e ele mesmo se tornar Pedro III, seu livro “Príncipe Maldito” é um grande achado e uma das melhores obras de conteúdo histórico editada recentemente no Brasil.

“O Castelo de Papel” também é oportuno para conhecermos melhor uma figura da história, não tão popular, e que na verdade pouco conhecemos de suas ações, seu pensamento e sua história pessoal, o Conde D’Eu, o príncipe consorte da herdeira do trono, a Princesa Isabel, oriundo de uma das mais nobres linhagens da nobreza europeias, a casa de Orleans, neto do rei deposto da França Luis Felipe I. Sua formação, seu real papel na guerra do Paraguai, na política de estado, sua atuação nos bastidores da cena nacional, a relação com o então Imperador Pedro II e principalmente, sua relação conjugal com a Princesa Isabel estão nesse trabalho.

Logicamente o livro trata da vida da Princesa Isabel, mas digamos que o interesse despertado pela sucessora de D Pedro é muito pequeno, apesar da sua nobre formação, não passa, na descrição de Mary del Priore, de uma benevolente e medíocre dona de casa, que passava a maior parte do seu tempo preocupada com jardinagem e música, embutida num universo de extrema carolice, tendo pouca disposição pensar e viver os rumos da política nacional. Deu no que deu em 1889.

O momento que eu mais ansiava era a atuação de D’Eu na Guerra do Paraguai. Recordo-me de alguns dos meus professores de história dos tempos de colégio falando cobras e lagartos sobre a atuação do “francês”. A Guerra do Paraguai é sem dúvida um dos episódios mais controversos de nossa história, assim como a própria atuação do Conde também o é. É um tema que precisamos sempre analisar com muita atenção e cuidado, até porque há visões historiográficas totalmente diferentes, um recente revisionismo e até disputas ideológicas sobre o tema.

Sobre a atuação do Conde D’Eu na Guerra, Mary escreve:

“Despediu-se como “antigo general e constante amigo”. E foi, de fato, amigo de seus irmãos de armas. Nunca deixou de receber quem o procurasse, instituíra audiências semanais, impediu penas de morte. Sua polidez para com os oficiais e praças, e sua piedade para com prisioneiros e multidões famintas eram conhecidas”.

Não há dúvida entre os diversos historiadores sobre atos de coragem e arrojo de D’Eu durante o conflito, colocando-se em várias cenários de guerra na linha de frente, mas em diversas ocasiões do livro, como nessa, fico com a impressão que Mary acabou sublimando demais a sua atuação, justificando seus atos, omitindo determinadas situações, praticamente defendendo seu personagem, o que não deveria ser seu papel.

Já o historiador Julio José Chiavenatto tem uma visão completamente diferente do Conde D’Eu na Guerra do Paraguai, como escreveu em seu livro “Genocídio Americano – A Guerra do Paraguai”, um livro adorado pela esquerda:

…o Conde D’Eu entrou para a história como o grande assassino dessa guerra. Ele assumiu o comando das tropas em 1869. Além de jogar cadáveres com cólera no Paraná, o conde atacou o Exército do Paraguai com outra arma invisível: a bactéria da varíola. Quando algum prisioneiro paraguaio era contaminado, D’Eu mandava soltá-lo para que contagiasse o inimigo. Em muitas ocasiões, o comandante permitiu que Solano Lopez capturasse soldados brasileiros, todos contaminados. Na batalha de Acosta Ñu, o conde dizimou um ‘exército’ formado por crianças de 6 a 14 anos. Quando as mães saíram do mato para recolher os corpos, D’Eu mandou incendiar a área…

.. acusa o conde d´Eu, após a vitória brasileira em Campo Grande, ou Acosta-Ñu, de ter ordenado que se ateasse fogo ao capim seco com o objetivo de assassinar os soldados paraguaios feridos que ainda estavam no local carbonizando-os…

Confesso que não dou muito crédito a visão de Chiavenatto, que escreveu seu livro num período, 1979, em que havia uma certa repugnância por qualquer ato que louvasse alguma atuação do exército nacional, já que estávamos em plena ditadura militar. Entre a visão romanceada de Mary e o radicalismo esquerdista de Chiavenatto, prefiro uma visão no meio termo, como a do historiador Francisco Doratioto em seu brilhante livro “Maldita Guerra”, que considero a obra definitiva sobre o conflito. Abaixo, alguns trechos do livro de Doratioto sobre a atuação do Conde D’Eu no episódio:

…Há, porém, outra versão, mais cruel, para a morte do coronel Caballero. Este fora, por ordem do conde d’Eu, atado de pés e mãos às rodas de dois canhões, em frente à igreja e diante de sua esposa, também prisioneira, e esticado até ficar no ar. Nessa postura, foi intimado a declarar-se rendido e, ao não aceitar, foi açoitado e logo degolado…

…O secretário particular do conde D’Eu, o visconde de Taunay, confirma a responsabilidade do chefe nos degolamentos. Estes teriam terminado graças à exortação nesse sentido do general Mallet junto a d’Eu. Parece não ser verídica, porém, a informação, feita por diferentes autores de que o príncipe mandara incendiar o hospital, no qual morreram carbonizados mais de cem feridos. Provavelmente o incêndio foi consequência do bombardeio da vila pelos canhões brasileiros no início do ataque…

…D’Eu se tornou uma figura patética…

…É justo concluir que o príncipe consorte não queria enfrentar as durezas da guerra, para a qual não tinha competência…

O Castelo de Papel” é um livro é interessante, tem entre suas principais fontes as longas e detalhadas correspondências do Conde D’Eu, assim como a Princesa Isabel. As cartas de D’Eu com seu pai, o Duque de Némours, são bastante esclarecedoras e são documentos valiosíssimos para entendermos com maior precisão a turbulência dos acontecimentos que acabaram por expelir toda a família imperial brasileira da vida nacional. Na vida familiar e conjugal, o casal D’Eu e Isabel, descrita por Mary leva uma vida pacata, que preferia passar seu tempo na calmaria bucólica de Petrópolis ao tumulto a ao jogo político da côrte no Rio de Janeiro, alheios ao que se passa em torno, numa vida ociosa, preocupados com pequenas festas, saraus, viagens para a Europa e a educação dos filhos, apesar de massacrados pela opinião pública da época.

 

Detalha a alienação da Princesa Isabel sobre os assuntos pungentes do país, colocando o Conde D’Eu como a “eminência parda” por trás da Princesa que a insuflou no momento chave da Abolição da Escravatura, apesar de constantemente serem colocados pelo Imperador a margem dos acontecimentos políticos.

Mary talvez tenha cometido o pecado de se encantar em demasiado por seus biografados, romanceando defeitos e imperfeições, mas o faz com um livro muito gostoso e agradável de ler, como costumam ser os livros de Mary del Priore.


Palpites para este texto:

  1. Gostei muito deste livro. Meus sentimentos, observações , como se eu estivesse presente em cada sala, jardim, rua, vendo as reações das pessoas, suas conversas e todo o carinho da princesa com seu esposo. uma surpresa para mim. De linguagem simples, mas detalhada, aprendi um pouco mais sobre nossa história. Parabéns. Rosana M

    • Essa é uma grande virtude de Mary del Priori, Rosana. Ela possui uma linguagem mais direta e menos acadêmica que encanta quem lê seus livros. Também fiquei com esse sentimento de ser transportado para aquele ambiente descrito no livro. Seja bem vinda por aqui. beijos.

  2. Marco Aurélio Valente -

    Reconheço a competência da Sr.ª Mary, mas devo fazer críticas ao seu livro por ser tendencioso. Del Priori ignorou toda a participação de D. Izabel no movimento abolicionista. Ela foi regente provisória por 3 vezes, assinando leis importantes para o Brasil. Sua Majestade D. Pedro II a preparou muito bem para ser uma Imperatriz. De maneira singela e religiosa e, ao mesmo tempo firme, ela seria uma grande representante do povo brasileiro, isso se não fosse os traidores golpistas. Um momento do livro de Del Priori que mostra a evidência do achincalhamento foi no momento em que D. Izabel saiu as ruas para recolher doações para o movimento abolicionista e caiu um temporal, voltando ela para o passo com o vestido desbotado. Esse comentário me sugeriu deboche pela maneira que se fez. Qual princesa no mundo se prestaria a situação se não fosse por seus próprios ideais? Quanto ao Conde D’Eu e sua crueldade na guerra, pergunto: Quem de nós teria atos de bondade na maior guerra da história da América do Sul? Guerra é Guerra, e toda a guerra é imbecil. Mas quando se está nela é matar ou morrer. Por isso que achei o livro tendencioso e com disposições demagogicas.

    • Olá Marco Aurélio. Seus comentários são pertinentes e interessantes, suscitam um interessante debate. A questão é um tanto complexa e existem na nossa literatura visões, por vezes tendenciosas de ambos os lados. Quanto a questão do Conde D’Eu, existe uma corrente que o acusa de crimes de guerra gravíssimos, mas eu confesso que vejo com ressalvas essa corrente, que foi muito valorizada na década de 70 até mesmo por questões ideológicas. Acho que a visão mais equilibrada está no trabalho do Doratioto. Mas enfim, numa Guerra a única coisa que não vamos encontrar são os santos.

      • Mary Del Priori aparentemente é mais uma historiadora de esquerda tentando desconstruir personagens históricos que não representem a luta de classes. Ela é muito inteligente, pois encontrou nisso um filão para vender muitos livros. Historiadores e Historiadores, há os que prezam pelo rigor metodológico (como Francisco Doratioto) e há os que escrevem best-sellers. O leitor não irá ao arquivo do Museu Imperial conferir se todas as cartas foram lidas, mas outros historiadores irão. Porém, o mal já estará feito… Como será que a autora explica o abolicionismo dos dos três pequenos filhos da Princesa, cada um editando seu jornalzinho abolicionista? Ela acredita que a Princesa não foi educada por seu pai, abolicionista desde os 14 anos de idade? Como ela atribui a filantropia da Princesa a um modismo importado da Europa, se a sua mãe, a Imperatriz Teresa Cristina, era considerada a Mãe dos Pobres, a Caridade sentada no trono? Acho que há muitas cartas que a autora não leu ou esqueceu que leu. O Visconde de Santa Victória que o diga.

  3. Harlei Cursino Vieira -

    Este livro deve ser muito bom! Conta a história do Brasil apartir da Guerra do Paraguai,a Abolição da Escravatura até o exílio da Família Imperial! Deveriam fazer um filme do mesmo!

  4. Ana Maria G. F. de Mello -

    Gostei de alguns livros de Mary del Priory mas no ” O castelo de Papel” achei que foi extremamente tendenciosa. Vejo-a ridicularizando a familia real por não ser afrancesada o bastante, por exemplo. Entendo que aquela época assim pensassem as decadentes familias aristocratas européias, mas que ela assim o entenda hoje em dia é francamente espantoso para alguém que se entende historiadora. Também a vi tramando para que avaliassemos o longo reinado de D. Pedro II com base nos seus ultimos e cansados anos. É um livro que não merece ser guardado

  5. Essa é louca sem sentido algum o que e o escreve deveriam caçar seu diploma isso se própria não comprou

  6. MARBIL RODRIGUES -

    sINCERAMENTE, os livros de MARY DEL PRIORE despertam curiosidade porque o marketing da editora é bem feito e ela já se tornou uma referência como historiadora. No entanto, quem gosta da História de nossa pátria não se limita a esse ou aquele autor. Busca sempre mais conhecimento e aí mora o problema porque o leitor passa a ser um crítico veemente e não aceita as discrepâncias. Já li alguns livros dela e vi uma entrevista que ela fez na TV fazendo críticas a princesa Isabel, condessa D’Eu como alguns dizem porque preferia assim ser chamada após a expulsão feita pelos republicanos. Achei-a mordaz e muito rude ao se referir a D. Isabel. Parece-me que deveria pesquisar mais, ler outros autores e não sofismar, muito menos dar a sua opinião sobre as ações da libertadora. Por certo virão outros livros porque é um filão de ouro essa abordagem sobre a família imperial.

  7. São episódios distintos de um mesmo período, mas, vale lembrar também as atrocidades cometidas por paraguaios durante a retirada de Laguna. Sejamos partidários de uma história imparcial…

  8. Errata. Refiro-me ao episódios sobre as possíveis atrocidades cometidas pelo Conde, enquanto em batalha…

  9. Transcrito do blog Marco Negro:

    terça-feira, maio 09, 2006

    A polêmica Carta da Princesa Isabel

    Acho oportuno oferecer a todos a polêmica carta da Princesa Isabel ao Visconde de Santa Rita, onde pede Reforma Agrária para as pessoas negras recém libertas:

    11 de agosto de 1889 – Paço Isabel
    Corte midi
    Caro Senhor Visconde de Santa Victória
    Fui informada por papai que me colocou a par da intenção e do envio dos fundos de seu Banco em forma de doação como indenização aos ex-escravos libertos em 13 de Maio do ano passado, e o sigilo que o Senhor pediu ao presidente do gabinete para não provocar maior reação violenta dos escravocratas. Deus nos proteja dos escravocratas e os militares saibam deste nosso negócio, pois seria o fim do atual governo e mesmo do Império e da Casa de Bragança no Brasil. Nosso amigo Nabuco, além dos Srs. Rebouças, Patrocínio e Dantas, poderem dar auxílio a partir do dia 20 de Novembro quando as Câmaras se reunirem para a posse da nova Legislatura. Com o apoio dos novos deputados e os amigos fiéis de papai no Senado será possível realizar as mudanças que sonho para o Brasil!
    Com os fundos doados pelo Senhor teremos oportunidade de colocar estes ex-escravos, agora livres, em terras suas próprias trabalhando na agricultura e na pecuária e delas tirando seus próprios proventos. Fiquei mais sentida ao saber por papai que esta doação significou mais de 2/3 da venda dos seus bens, o que demonstra o amor devotado do Senhor pelo Brasil. Deus proteja o Senhor e todo a sua família para sempre!
    Foi comovente a queda do Banco Mauá em 1878 e a forma honrada e proba, porém infeliz, que o Senhor e seu estimado sócio, o grande Visconde de Mauá aceitaram a derrocada, segundo papai tecida pelos ingleses de forma desonesta e corrupta. A queda do Sr. Mauá significou uma grande derrota para o nosso Brasil!
    Mas não fiquemos mais no passado, pois o futuro nos será promissor, se os republicanos e escravocratas nos permitirem sonhar mais um pouco. Pois as mudanças que tenho em mente como o senhor já sabe, vão além da liberação dos cativos. Quero agora me dedicar a libertar as mulheres dos grilhões do cativeiro domestico, e isto será possível através do Sufrágio Feminino! Si a mulher pode reinar também pode votar!
    Agradeço vossa ajuda de todo meu coração e que Deus o abençoe!
    Mando minhas saudações a Madame la Vicomtesse de Santa Vitória e toda a família.
    Muito de coração
    ISABEL

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