O Honesto Exercício da Crítica


 

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A palavra “crítica” tem sua origem no grego, significa “separar”, “julgar”. Na nossa sociedade o exercício da crítica artística tem como função principal dar subsídios para pessoas que não possuem o mesmo conhecimento técnico  a escolher suas opções de que filme, peça de teatro assistir, julgar o valor de uma obra de arte ou de um texto literário, por exemplo.

Alvo da ira de artistas que se julgam perseguidos, acaba por se personificar num ser quase real, quando se brande contra “a crítica”, como se fosse um ser único e personificado, ignorando que ela pode ser múltipla e segmentada. Mas teria ela essa força que lhe é impingida? Como julgar e separar o que é bom do que é ruim? Como ter um pensamento crítico em relação à crítica?

Sou um leitor atento da crítica cinematográfica, mas como a sigo? Como ela me influência? Tenho em relação ao cinema algum conhecimento técnico, teórico, trabalhei no meio, fiz muitos cursos, conheço seus vários movimentos históricos e estéticos e já fiz loucuras para ver determinado filme, o que me permite ter esse pensamento mais crítico em relação à crítica cinematográfica. Não que seja um expert, mas tenho alguma bagagem para convergir ou discordar. Conhecimento que não tenho tão profundamente em relação, por exemplo, a arte teatral. Gosto de ir a teatro, vou com frequência, mas não tenho um embasamento teórico e orgânico mais profundo. Tenho alguma sensibilidade para julgar o que é bom ou o que é ruim dentro do meu conceito e padrão de qualidade, seja em um trabalho mais profundo de um Shakespeare ou de um Moliére, ou mesmo de uma comédia descompromissada e de um inofensivo vandeuville.

Em relação ao cinema tenho os críticos que sigo e respeito. Posso até discordar deles, mas respeito. Outros, até leio, mas ignoro o que dizem. No Globo, me identificava com o Jaime Biaggio, por exemplo. Não era uma questão de ser melhor ou pior, era uma questão de identificação mesmo. Gostava do sarcasmo e do senso de humor das suas críticas. Mas detestava no mesmo jornal o Luciano Trigo, de quem discordava permanentemente, mas isso não quer dizer que não o respeitasse como crítico, apenas achava sua visão de cinema incompatível com a minha. Era tudo uma mera questão de opinião. Com o tempo é possível até perceber suas paixões, pontos fracos e comprometimentos. Por exemplo, adoro Luís Carlos Merten do Estado de São Paulo, mas sei que não posso levar em consideração suas críticas quando escreve sobre um filme de Walter Salles ou Fernando Meirelles, cineastas que também admiro, mas Merten costuma superdimensionar o trabalho desses 2 cineastas. Não sei se por admiração ou amizade pessoal, mas isso sempre ocorre.

Amizade pessoal, esse é um ponto também a ser discutido. Com tantos anos metidos nesse métier, é natural que amizades surjam e relações. Como criticar com isenção um filme de alguém que é seu amigo?

Eu, por exemplo, não conseguiria fazer uma crítica negativa de um trabalho de quem possuo alguma relação, ficaria constrangido. O crítico deveria nesses casos fazer como juízes de direito(pelo menos os sérios), que se consideram impedidos de julgar determinado caso por algum tipo de relação com os envolvidos. O mesmo comportamento o crítico deveria ter, mas já vi casos que isso não aconteceu.

Muito recentemente estive na estreia de um espetáculo teatral cujo resultado achei muito fraco, vazio e inteiramente insignificante artisticamente, opinião compartilhada por várias pessoas que estavam ao meu redor. Ao final da peça, o público sequer se dignou a levantar para aplaudir os atores, limitando-se a burocráticos aplausos sem levantar da cadeira. Lógico que trata-se apenas de uma opinião pessoal minha e não uma sentença definitiva para o trabalho. Dias depois um dos mais conceituados profissionais da crítica teatral brasileira, conhecido pelo seu extremo rigor no julgamento e de ser acusado pelas vítimas de sua caneta de só elogiar textos de densidade dramática extrema e de grandes autores, profissional este de quem eu era grande admirador e fiel leitor, acabou por escrever uma crítica bastante elogiosa. Até aí, tudo bem, divergência de opinião minha com o profissional. Não teria problema se no próprio dia da estreia eu tivesse tido a informação que esse profissional iria fazer uma crítica elogiosa. Duvidei. Imagina se tal pessoa iria elogiar algo tão pobre e sem consistência. Colocando uma lupa na questão é impossível não perceber a longa relação profissional entre o profissional crítico com o autor da peça, sem contar a relação de amizade com a pessoa responsável pela mise en scène do espetáculo. Adjetivos vazios e insossos foram traduzidos nessa mesma crítica por outros adjetivos associados a despretensão.  Ou seja, antes mesmo de ver o trabalho este profissional parecia  já estar cooptado, a tal ponto que no dia da estreia eu já tinha essa informação. O profissional da crítica seria mais honesto e honraria a enorme respeitabilidade que possui nos meios intelectuais caso se abstivesse de realizar uma apreciação sobre a peça. Mesmo se tenha honestamente gostado, algo que duvido, sua crítica já está de antemão sob suspeita.

Lógico que no caso citado acima tenho convicção que não houve dinheiro em jogo, na minha opinião foi questão de relação pessoal, mas lembro-me de um episódio que testemunhei certa vez. Desta vez numa ópera, cuja produção acompanhei de perto. Recordo-me que no orçamento dessa Ópera havia um valor X estipulado que era para se pagar ao crítico de um importante jornal. Não tenho conhecimento técnico e teórico para afirmar se a ópera tinha qualidades ou não, mas 2 dias depois lá estava publicada a elogiosa crítica previamente acertada $$$$.

Mas afinal até que ponto o trabalho do crítico pode ser determinante para o êxito comercial de um trabalho artístico? É comum a classe artística desdenhar do seu poder. Então por que dão tanta importância ao que escrevem? Obviamente que a resposta é controversa. Creio que também depende do gênero. Em cinema, penso que ela tem um peso maior em filmes independentes e nacionais, fora do circuitão. Uma crítica elogiosa para, por exemplo, uma produção francesa ou argentina tem um peso muito maior que para um blockbuster. Lógico que como já falei antes, mesmo no cinema existe uma segmentação da crítica. Tem desde um Rubens Ewald Filho mais preocupado com os supérfluos até os críticos da Contra-Campo(nem sei se ainda existe). Confesso que me divertia lendo as críticas radicais da Contra-Campo. Certa vez conversando com um de seus críticos(na verdade era crítico por diletantismo e dentista no seu ganha pão) me olhou com severidade quando elogiei um filme do Zang Yimou num Festival do Rio e soltou: – Cara, Zang Yimou morreu artisticamente desde a “História de Quiu Ju”.  Eu adorava os caras da Contra-Campo! Pelo menos não tinham comprometimento com ninguém, eram extremamente democráticos pois falavam mal de todos.


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