O Ilustrador na Literatura Infantil, Por Thiago Lopes


 

 

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Por Thiago Lopes.

Ser ilustrador não é uma tarefa fácil. Somos movidos pela paixão no que fazemos, necessitamos de muitos anos de prática para conseguir fazer algo razoável e por muitas vezes dedicamos horas do nosso dia para, ao final, olhar e nos decepcionar com o resultado do que produzimos. No entanto, tudo é válido na atividade do ilustrador. Tudo é uma experiência, tudo é repertório, até quando sai errado.

 Mesmo com todos os tropeços que temos no caminho, é gratificante quando temos qualquer tipo de reconhecimento. Seja de alguém admirando aquilo que você produziu ou de quando recebemos um prêmio de reconhecimento. Assim foi quando recebi a notícia de que o livro “Menina de papel”, feito em parceria com o autor Julian Fuks e ilustrado por mim (Thiago Lopes), estava na final do Prêmio Botequim Cultural, dependendo apenas do voto popular. A felicidade foi grande, mesmo que de início meu nome não aparecesse como autor do livro. Este é um fato constante, que me deixa sempre com a pulga atrás da orelha. Em tantos prêmios que temos pelo país, o ilustrador aparece como coadjuvante, como se apenas quem possuísse o domínio das palavras fosse o dono das grandes ideias do livro, como se as imagens fossem iluminuras sem muita influência na narrativa da estória.

 Pesquisei sobre o prêmio, vi que era a primeira vez que o livro infantil era premiado e me arrisquei ao defender a importância do papel do ilustrador escrevendo diretamente para Renato Mello, o organizador do prêmio. Feliz fui em saber que o organizador também tinha essa mesma pulga atrás da orelha e que, devido ao meu posicionamento, me presenteou com esta linda estatueta, além de oferecer um espaço tratar do papel do ilustrador no livro infantil.

 Falar que um livro infantil necessita de muitas “figuras”, é um posicionamento cliché e superficial sobre esse objeto tão maravilhoso. Acredito que a denominação “infantil” também seja. Para mim livro é livro e cabe ao autor (ou autores) decidir quais linguagens serão exploradas neste objeto, mas isso já é outra discussão.

 O livro infantil, apesar da pequena quantidade de texto, ao ser comparado a livros “adultos”, pode parecer inferior, de menor valor e simples quando olhamos apenas para o número de caracteres que nele foram impressos. Ao contrário disso, o livro infantil é um diálogo entre linguagens: a palavra, a imagem e o suporte. Como em uma linda apresentação de dança em que cada elemento aparece no momento certo: o cavalheiro, a dama,  a música e o conjunto fazem o espetáculo.

 Todo livro nasce de alguma ideia e expressa-la é uma questão de como você irá compor, a partir das linguagens que ele nos possibilita. Se descontruirmos os elementos de um livro e analisarmos separadamente o texto, as imagens e o objeto, podemos ter interpretações distintas, mas quando analisados concomitantemente elas se complementam, criando um livro. O ilustrador tem a função de contar a estória através das imagens, pois é a linguagem que ele domina. Nas lacunas que o texto deixa, ele cria novas interpretações ou amplia suas perspectivas, deixando o livro ainda mais interessante. Não importa a relação quantitativa entre texto e imagem, ambas são complementares e de extrema importância para o livro.

 Proponho aqui um experimento. Observe a imagem abaixo, por cerca de 30 segundos, fazendo a leitura de todos os seus elementos. Tente entender o que está acontecendo e o porque dessa estranha situação.

 

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Ilustração de Thiago Lopes para o Livro Cultura de Arnaldo Antunes, ed. Iluminuras.

 

Agora leia a frase abaixo:

“Bactérias num meio é cultura.”

Muitas pessoas podem ver ou não uma relação entre a frase e a imagem. Não há nada que possa amarrar os dois conteúdos, a não ser o nosso desejo de criar relações entre as coisas, mas se apresentarmos a imagem desta maneira, fica impossível fazer a dissociação, pois nela somos apresentado às duas linguagens ao mesmo tempo, em uma composição onde o texto tem seu espaço reservado. Até a tipografia que foi escolhida tem uma relação formal com a ilustração.

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Este exemplo mostra o quão abertas são as interpretações das duas linguagens, por mais objetiva que uma palavra possa ser, quando ela se relaciona com uma imagem ela passa a ter outra abrangência. Assim como no exemplo da figura abaixo, todos nós sabemos o significado da palavra “casa”, .Ao fazer a leitura da linguagem escrita, buscamos em nosso repertório dar forma ao conceito “casa”, mas quando relacionamos a linguagem escrita com imagens, potencializamos o conceito da palavra.

casa

Portanto, o ilustrador não é somente um criador de figuras. Ilustrar é contar uma estória através de imagens, é manipular linhas, formas e cores para criar significados. O livro infantil, acima de tudo é uma relação de linguagens, Nele é impossível desassociar a palavra da imagem. Me impressiono ao ver prêmios de renome fazerem essa separação, creditando somente o texto como “obra”. Isto faria sentido somente no caso do avaliador receber um impresso em preto e banco apenas com o texto, sem imagens.

 O Prêmio Botequim Cultural, em sua primeira edição, já compreendeu o real papel do ilustrador. Espero que essa compreensão seja cada vez mais difundida, e que ilustrar seja uma atividade cada vez mais reconhecida e valorizada, que sejamos compreendidos como autores, e não apenas como criadores de imagem.


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