“O Jantar Errado”, Novo Livro de Ismail Kadaré


 

 

O Jantar Errado”, novo livro do escritor albanês Ismail Kadaré, um dos meus escritores favoritos, será lançado no final de fevereiro pela editora Companhia das Letras. Um lançamento de um livro de Ismail Kadaré é algo que sempre deve ser observado com lupa, pois trata-se de um dos melhores e mais interessantes escritores do atual cenário da literatura mundial. Fortíssimo candidato a ganhar nos próximos anos o Prêmio Nobel de Literatura, autor de livros importantíssimos e fundamentais para compreendermos todo o cenário que se desenhou nos Balcãs ao longo dos últimos séculos, para entendermos a formação da região e porque recentes acontecimentos acabaram por serem desencadeados. Em livros como “O General do Exército Morto”, “Três Cantos Fúnebres pelo Kosovo”, “A Ponte dos Três Arcos“,  “Abril Despedaçado”, Kadaré nos abre um amplo painel, buscando referências na antiguidade e na tragédia para nos levar a um entendimento que os noticiários diários e as agências de notícias foram incapazes de fazer.

Podemos escavar com facilidade o seu solo, mas penetrar sua alma, isso jamais“, esta frase dita por um padre italiano em “O General do Exército Morto” talvez seja uma das melhores maneiras não só de definir a personalidade do povo albanês, mas principalmente do próprio Ismail Kadaré. Tímido, discreto, por vezes na defensiva, talvez um reflexo de um filho dos Balcãs, região varrido há milênios pelos ventos da invasão e da barbárie, desde épocas tão remotas, desde a ocupação pelos romanos, passando pelas invasões dos visigodos e dos hunos que arrasaram tudo o que havia na sua frente, mas, sobretudo os otomanos que ocuparam a região por séculos com perversa atrocidade.

Nascido em 1936, Kadaré foi profundamente marcado pela ocupação da Albânia na 2ª Guerra Mundial, tema sempre presente tanto na sua obra como um todo, como nesse seu último romance, assim como vivenciou o totalitarismo do regime do ditador Enver Hoxha. Seria Kadaré um dissidente ou um conformista? Tal controvérsia cria uma certa áurea de fascinação sobre sua enigmática personalidade. Era um dos poucos autores que tinha suas obras liberadas pelo governo e em determinado período chegou mesmo a ser deputado, mas contraditoriamente alguns de seus trabalhos, como “O Palácio dos Sonhos”, são profundamente anti-totalitários e poderíamos mesmo dizer, libertários. Exilou-se na França em 1990, após sofrer ameaças na Albânia. Hoje divide seu tempo entre seu apartamento no Quartier Latin e Tirana. Para tentarmos decifrar um pouco o homem por trás da esfinge, devemos sublinhar recente declaração a revista “L’Express”: “a literatura e a vida são dois mundos em luta”.

Kadaré é um homem que apesar de suas sátiras do totalitarismo, ainda tenta dissipar os rumores de comprometimentos do passado. Mas acima de tudo, é o homem que melhor soube desenhar um afresco tão revelador para o mundo sobre esse lugar, que mesmo estando no coração da Europa, ainda parece tão obscuro.

Apenas por se tratar de um livro de Ismail Kadaré, já chamaria minha atenção. Depois de ler o press release  da Companhia das Letras fico contando os dias para mergulhar em seu mais novo livro, “O Jantar Errado”, que tem previsão de lançamento para o dia 27 de fevereiro . Abaixo, o material divulgado pela editora:

“Setembro de 1943: as tropas do Terceiro Reich invadem a Albânia. A primeira cidade ocupada é Girokastra, 20 mil habitantes, dividida entre comunistas, nacionalistas e monarquistas. Mas o comandante alemão, coronel Fritz von Schwabe, só pensa em encontrar um certo morador local, seu ex-colega de faculdade, o doutor Gurameto Grande.

Na primeira noite da ocupação, os nazistas arrebanham oitenta reféns, destinados ao fuzilamento sumário. Enquanto isso, a cidade assombrada vê Gurameto oferecer um jantar ao coronel.

Em meio a lembranças juvenis e proclamações de fascínio pelo antigo código de honra albanês, o convidado cede aos apelos de Gurameto e liberta os reféns.

Parece um final feliz. Coisas esquisitas, porém, cercam aquele jantar. Será mesmo que todos perderam os sentidos, ali mesmo na sala, após o cálice final de aguardente? O que foi conversado ao pé do ouvido entre o médico e seu ex-colega? O coronel usava de fato uma máscara? Era mesmo o barãovon Schwabe, coronel do Reich?

A história mal contada passa a rondar a cidade como um fantasma, enquanto a ocupação alemã sucumbe e o regime comunista passa a prometer um “novo tempo”. A trama terá o seu desfecho uma década mais tarde, enquanto Stálin agoniza em Moscou.

No pano de fundo, as tortuosidades da política europeia se misturam a velhas histórias de assombração albanesas, e à original personalidade coletiva de Girokastra — onde até os telhados são de pedra, nas casas encarapitadas tendo como ponto mais alto uma fortaleza medieval e sua cadeia.”


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

junho 2017
D S T Q Q S S
« maio    
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930