O Prêmio Jabuti e o Jurado C


 

Mais uma vez o Prêmio Jabuti, o mais tradicional e importante da literatura nacional se vê envolvido em uma polêmica. Em 2010 houve num imbróglio desencadeado por Edney Silvestre, que havia vencido o prêmio na categoria Melhor Romance, mas perdeu o prêmio principal de Melhor Livro de Ficção para “Leite Derramado”, de Chico Buarque, polêmica esta que me rendeu alguns posts no meu antigo blog. A editora Record resolveu comprar o choro dos derrotados de Edney e ameaçou não inscrever mais nenhum livro seu ao prêmio. O Jabuti, na ocasião, resolveu contemporizar e num gesto político resolveu mudar as regras para as edições seguintes, para aplacar a ira da Record e a histeria de Edney.

Dessa vez a questão foi levada a público pelo próprio curador do prêmio José Luiz Goldfarb, que na semana passada declarou seu inconformismo com o aproveitamento da média matemática por um jurado, fazendo na prática com que determinados trabalhos  ficassem impossibilitados de levar a premiação principal da sua categoria.

O jurado em questão, conhecido agora nacionalmente como “Jurado C” e famoso nas redes sociais do momento, cuja verdadeira identidade só será divulgada no dia da premiação(que ocorrerá em novembro), deu notas entre 0 e 1,5 a cinco finalistas(aonde poderia dar notas de 0 a 10), tornando com isso impossível a vitória para qualquer um deles. Mas o caso que ganhou maior notoriedade foi  o romance “Infâmia”, de Ana Maria Machado,ao dar notas muito baixas para esta, tecnicamente a elimimou da premiação. O júri é composto por apenas 3 pessoas(o Jurado A, Jurado B e Jurado C), quem tivesse a média mais alta seria o vencedor. Na prática, utilizou-se do regulamento para manipular o resultado.


“O voto dele foi ou muito positivo ou muito negativo nos autores que tinham notas médias dos outros jurados. Nesse caso, ele acabou definindo a votação e a gente teve um Jabuti que beneficiou estreantes. Mas ele está na lei, assim como uma eleição política”,

Disse Goldfarb. Um dos estreantes beneficiados foi o vencedor Oscar Nakasato, autor de “Nihonjin” e vencedor na categoria Romance.

Visivelmente descontente com o Jurado C, Goldfarb afirma que o processo de escolha da banca é baseada em formadores de opinião e jornalistas literários de “alto nível”:

“Atualmente temos na Câmara uma comissão que ajuda a avaliar quem serão os jurados, que às vezes se indicam para avaliar as obras”, explica. “Não acho que tenha nenhum problema com esse jurado. Ele já participou de outras edições. Não fiquei satisfeito mesmo porque ele abusou dessa possibilidade matemática. E sou transparente quanto a isso. Mas são votos de qualquer forma e ele não foi o único a usar essa tática”.

 

A jornalista da Folha de São Paulo, Raquel Cozer, fez uma interessante consideração à cerca da polêmica:

“O que não ficou claro para mim foi se o jurado C desclassificou favoritos para dar vez aos que na teoria tinham menos chance, se achou os livros umas porcarias indignas de serem chamadas de romances ou se foi espírito de porco mesmo. A primeira opção me parece mais simpática, embora eu tema que na verdade tenha sido a alternativa três.”

 

Oscar Nakasato foi o vencedor da categoria justamente em seu livro de estréia. O Jurado C acabou com seu ato por levar Nakasato ao centro de um furacão que ele nada tem a ver, acabando por expô-lo de maneira desnecessária. Se estava entre os finalistas, certamente tem méritos para isso e acaba tal fato desmerecendo sua premiação, de maneira injusta com ele. Quanto a Ana Maria Machado, cabe ressaltar a postura elegante e discreta que tem tido até o momento.

Hoje, dia 22/10, a editora de Ana Maria Machado, a Objetiva através do seu diretor Roberto Feith publicou nota cobrando explicações:

“A Editora Objetiva vem expressar sua perplexidade diante das informações divulgadas pela Câmara Brasileira do Livro a respeito da apuração do resultado do Prêmio Jabuti de 2012, categoria literatura.

Ao se confirmarem estas informações, fica evidente uma manipulação do resultado por parte de um dos jurados. Seu voto, em vez de refletir uma avaliação qualificada de cada uma das obras finalistas, pode evidenciar a determinação de eleger uma obra vencedora a qualquer custo, ainda que para isto fosse necessário apelar a uma série de notas zero para os demais finalistas.

Como editores do romance INFÂMIA de Ana Maria Machado, não podemos deixar de expressar nosso desconforto diante da informação de que no escrutínio final para a escolha do romance vencedor, INFÂMIA recebeu uma nota dez, uma nota nove e meio, e do jurado em questão, um zero.

Diante deste fato sem precedente nos 54 anos de existência do Jabuti, nos parece necessário esclarecer dois pontos:

1. quando o jurado em questão definiu o seu voto no último escrutínio, ele tinha conhecimento dos votos dos demais jurados para cada finalista nos escrutínios anteriores?

2. o jurado em questão atribuiu nota zero ao romance INFÂMIA em todas as rodadas de votação, ou apenas na última, para alcançar uma improvável e distorcida média matemática?

Esperamos que, no espírito de transparência que deve nortear o Prêmio, os organizadores esclareçam estas questões, o que permitiria um melhor entendimento sobre o resultado final.

E uma vez que o próprio curador do Prêmio afirmou que o jurado em questão “não era adequado ao prêmio”, esperamos também que doravante a seleção de jurados seja mais criteriosa, reduzindo o risco de posturas oportunistas.

No mesmo dia 22/10 à noite, o curador do Jabuti José Luiz Goldfarb, através da assessoria de imprensa da CBL respondeu aos questionamentos de Feith:

“Informamos que:

1. Tanto na primeira quanto na segunda fase do prêmio, todas as notas são entregues em envelopes lacrados ao Conselho Curador, sendo somente abertos durante a sessão de apuração, diante dos presentes e dos auditores responsáveis pela validação do resultado. Levando-se em consideração que os nomes dos jurados não são revelados até a cerimônia de premiação, não há, portanto, qualquer possibilidade de que um jurado tome conhecimento das notas dos demais.

2. Na primeira fase do prêmio, quando os jurados têm a prerrogativa de escolher as dez obras que figurarão entre os finalistas, o jurado “C” não atribuiu notas ao romance “Infâmia”, tendo votado na obra em questão apenas na segunda fase da apuração.”.

Agora só nos resta esperar pela divulgação do nome do Jurado C no dia da premiação, ou que ele venha a público se defender antes do evento, ou ainda: que a imprensa consiga descobrir o mistério em torno da identidade do Jurado C e venha a lançar o que viria a ser o furo do ano nos cadernos culturais


Palpites para este texto:

  1. Tanta polemica para um premio tão sem importancia. Sincedramente, o Jabuti é uma piada mesmo. Premio feio, insípido, criado para premiar as panelinhas literarias. Talvez esse ano eles tenham acertado na premiação, graças ao surto do jurado Ç. Se eu fosse um grande escritor eu teria vergonha de receber esse premio.

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