O Rebu


 

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Existe um hábito na crônica televisiva brasileira, se é que ela existe, de se fazer crítica de novela no dia seguinte ao primeiro capítulo. Nunca entendi muito bem a lógica. Como é possível fazer uma análise de uma obra artística sem ver o seu todo? Sem poder avaliar atuações quando muitos atores ainda estão tateando o tom dos seus personagens; quando os autores ainda estão em fase quase embrionária de criação, antes de se perderem na imensidão de uma obra com quase 200 capítulos, cercada de dezenas de personagens, que somem e voltam ao bel prazer das mais inusitadas situações, podendo sua qualidade e fôlego cair no meio do percurso; sem podermos julgar a adequação e a utilização da trilha sonora ao longo do processo. Já imaginaram um crítico teatral ou de cinema escrever uma análise definitiva tendo assistido apenas 10 minutos de uma obra?

Pode-se argumentar a urgência midiática para tão precoce avaliação, tendo em vista inclusive que uma crítica feita após o fim de uma telenovela pode se perder na sua irrelevância, pois novela finda não tem mais serventia. É passado. Os interesses se voltam integralmente para sua sucessora.

Este texto não é uma crítica, é apenas um olhar, talvez prematuro, de 3 capítulos vistos de um total de 36 de “O Rebu”. Na verdade, não passa de minha impressão inicial. Mesmo nos casos de séries televisivas, aqui no Botequim Cultural só costumamos fazer crítica, com direto à cotação, após termos visto toda uma temporada.

A Globo apresenta “O Rebu” como sua nova novela das 11. Mas confesso que tenho acompanhado como uma série. Para mim ela tem todas as características, não só de duração, mas de estética e de acabamento de uma série, não de uma novela. Mas se a Globo quer vende-la como tal, ok, problema dela.

O Rebu” é uma nova adaptação da telenovela exibida na década de 70 na TV Globo, com 112 capítulos, escrita por Bráulio Pedroso, que teve na época um título provisório de “A Festa”, que para a atual versão pareceria um título mais adequado. Eu que tenho boa memória e recordação para as telenovelas da década de 70, confesso que no meu inconsciente não guardo a mais remota recordação desse trabalho, como eu guardo de sua antecessora(“O Espigão”)e sua sucessora(“Gabriela”).

Para começo de conversa, a ideia básica é muito instigante. Uma festa no palacete de uma das mais aristocráticas famílias do país. Em meio a um ambiente luxuoso desse grand monde, elementos como vingança, assassinato, ganância, luxúria, paixão, corrupção inveja e amor se fazem presentes permanentemente, num jogo de idas e vindas, com tudo retornando sempre ao ponto inicial: a grande festa. A ideia básica é ousada, mas de difícil transposição para as telas, ainda mais em 36 capítulos. Mas “O Rebu” tem no seu alicerce o elemento fundamental para um bom desenvolvimento: Um roteiro assinado por 2 ótimos profissionais do ramo, George Moura e Sérgio Goldenberg. São 2 roteiristas mais que acostumados a transitar com eficiência tanto no cinema quanto na televisão. O texto desenvolvido pela dupla demonstra ter capacidade para segurar o fôlego para uma temática tão complexa, conseguindo deixar ganchos interessantíssimos, não só de capítulo para capítulo, mas também de cena para cena, num desencadeamento de conflitos, jogando permanentemente novos elementos, repleto de não ditos e enigmas.

Seguindo a linha básica do início desse texto, é muito cedo e até injusto fazer julgamentos mais profundos sobre atuações individuais. Mas alguns personagens já forneceram uma interessante impressão. Olhando superficialmente, sentimos a mesma irregularidade e desnível na escolha inicial do elenco, tão típico dos grandes castings da Rede Globo(nas outras emissoras esse desnível costuma ser muito pior). Porém, com um trabalho feito com cuidado, tempo e acabamento, como parece ser o caso de “O Rebu”, já é possível notar um melhor nivelamento nas atuações, não sendo possível identificar nenhum constrangimento maior, com os atores encontrando um tom similar. Méritos da direção de atores de José Luiz Villamarim. Patrícia Pillar, vivendo a magnata Angela Mahler, me impressionou muitíssimo. E olha que é raro um ator/atriz me impressionar em atuação televisiva. Seu amadurecimento como atriz nesses últimos anos salta os olhos. Patrícia não é criança, não chegou ontem e possui vastíssimo currículo em televisão e cinema, mas nunca me chamou maiores atenções, algo que tem mudado em seus últimos trabalhos. “O Rebu” pode ser o divisor de águas para coloca-la numa outra categoria. Dura, fria, implacável, com uma relação complexa com sua filha Duda(Sophie Charlotte) plena de mistério, com a novela prometendo algo estarrecedor pela frente. Sophie Charlotte, atriz por quem nunca dei nada e Cássia Kiss, por quem nunca nutri grandes simpatias também tem atuação destacada, em meio a uma teia de paixões desenfreadas, traições, sexo. Uma das primeiras cenas, Sophie, maquiagem borrada, olhar dilacerado pelo amor, cantando “Sua Estupidez”, foi um momento superior da teledramaturgia brasileira em tempos recentes. É necessário destacar também a interessante composição física de seu personagem. De Daniel de Oliveira, ainda não sei o que esperar. Seu personagem aparece enigmático, aonde tentamos ler aonde quer chegar. Não é possível ainda chegar a uma conclusão até onde Daniel o levará. É o caso mais latente de receio em fazer julgamento prematuro. Há que se aguardar os desdobramentos de Bruno(personagem de Daniel). Quais sãos seus objetivos? O que o move? São perguntas que a trama irá nos desvendar aos poucos, para podermos saber como Daniel desenvolverá esse personagem enigmático. Há ainda Tony Ramos, ator subestimado e que a cada dia que passa me dá mais prazer vê-lo em cena. Já falei diversas vezes que acho Tony Ramos um baita ator. No restante, prefiro aguardar mais, com uma ponta de atenção em Mariana Lima, que promete.

Um dos pontos altos, talvez o que mais salte aos meus olhos, seja a direção de fotografia de Walter Carvalho. Falar do talento e da genialidade de Walter Carvalho não é nada original. Trata-se de um dos mais premiados diretores de fotografia do mundo, homem que sabe como poucos iluminar uma cena. A fotografia de “O Rebu” é absolutamente deslumbrante, utilizando equipamento 4K, que imprime um resultado estético de encher os olhos, câmera na mão, nervosa, com uma tomada subjetiva que nos leva a esbarrar nos personagens, aproximando-nos do ambiente faustoso e nos sentido convidados(ou penetras) daquela festa. Walter imprime uma tonalidade esmaecida, utilizando-se de tons ligeiramente azulados. Comecei a assistir ao 1º capítulo sem saber quem assinava a fotografia, mas fiquei tão encantado que ao pesquisar vi que fazia todo o sentido pertencer a um craque como Walter Carvalho.

Cenários e figurinos igualmente deslumbrantes. Imaginei se tratar de alguma grande mansão situada em Petrópolis e arredores, embora na trama a localização não esteja clara e nem seja relevante para o desenvolvimento e ambientação, pude reconhecer trechos da Rio-Petrópolis no caminho de Daniel de Oliveira rumo à festa. Mas na verdade trata-se do Palácio Sans Souci, localizado nos arredores de Buenos Aires. A conjunção dos elementos de ambientação em determinados momentos me remeteu à “A Regra do Jogo” de Jean Renoir e em outros a um filme nacional, “Festa”, do Ugo Giorgetti.

Não é possível omitir a beleza que a trilha sonora vem mostrando até agora, aonde prevalece um Chico Buarque romântico, com canções como “Eu te Amo”(uma das mais lindas da MPB), “Atrás da Porta” e “Tatuagem”, além de Jorge Benjor, Luiz Melodia, Chico Science, Nina Simone e Amy Winehouse. As cenas de Sophie Charlotte ao som do piano introdutório de “Eu te Amo” da gravação original de Chico Buarque e Telma Costa são de uma beleza arrebatadora.

Para finalizar, com tantos acertos nos mais diferentes departamentos, temos que destacar aquele que é o responsável por unir todos esses elementos, o diretor José Luiz Villamarim. Direção em altíssimo nível, sabendo tirar dos seus atores belas atuações nesses primeiros capítulos e soube criar uma atmosfera envolvente que mesmo eu, que detesto novelas, fico aguardando ansiosamente os próximos capítulos.


Palpites para este texto:

  1. Você escreveu com tanto entusiasmo,pra dizer no final que detesta novela.Ficou estranho.

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