O Reencontro, por Luiz Schwarcz


 

 

Esta crônica foi escrita por Luiz Schwarcz para o blog da Companhia das Letras.

Achei o texto belíssimo, ainda mais por revelar um pouco de  um escritor que tanto admiro como Raduan Nassar e de quem tão pouco conhecemos devido a sua personalidade introvertida. O blog da Companhia das Letras gentilmente me autorizou a reproduzi-lo. O link do original está aqui: http://www.blogdacompanhia.com.br/2013/01/o-reencontro/

Luis Schwarcz é editor da Companhia das Letras.

 Segue a crônica:

 

O Reencontro

 

“Conheci Raduan Nassar enquanto ainda estava na Editora Brasiliense. Em 1984 contrabandeei sua novela Um copo de cólera para dentro da coleção Cantadas Literárias. O livro não tinha muito a ver com a literatura publicada nesta coleção, que apresentava o mundo da literatura aos jovens. A escolha dessa obra, dois anos antes da criação da Companhia das Letras, revela um pouco do que eu já almejava fazer, e testemunha o conflito editorial imanente entre o Caio Graco e eu.

Apresentado à literatura de Raduan, provavelmente por Modesto Carone ou Davi Arrigucci, consegui convencer o Caio de que o livro, pela sua radicalidade, podia ser publicado naquela coleção, que começava a fazer tanto sucesso. Assim, a escrita erudita de Raduan passou a conviver com obras muito boas, mas de outro tipo, como as de Caio Fernando Abreu, Paulo Leminski e Ana Cristina Cesar, e também com os depoimentos geracionais de Marcelo Rubens Paiva, em Feliz ano velho, e de Marco L. Radice e Lidia Ravera, em Porcos com asas. Caio Graco se mostrou generoso neste episódio, ao aceitar o esfarrapado argumento editorial do qual me utilizei naquela ocasião, mais uma vez para fugir de uma direção excessivamente jovial nas coleções da sua editora.

A Cantadas Literárias, que começara com Porcos com Asas — um livro essencialmente geracional — mais preocupada em conquistar jovens para o gosto pela literatura, foi se abrindo, cada vez mais, para obras de diferentes níveis. O mais erudito podia entrar na minha conta. O lado mais existencial da coleção, na de Caio. Na verdade, estávamos neste momento contrapondo vontades literárias bem diferentes, e eu buscava me aproveitar dos bons ares da “contestação jovem”, que era uma das bandeiras da casa, para editar os livros que mais falavam ao meu coração — fossem eles adequados ou não ao público alvo demarcado pela nova linha editorial da Brasiliense.

Quando comecei a editar ficção brasileira na Companhia das Letras procurei Raduan, que se lembrava de mim e surpreendentemente me era grato por eu ter editado Um copo de cólera num momento em que ele se julgava esquecido pelo mercado editorial.

Já na Companhia da Letras editei Lavoura arcaica, em 1989, e Um copo de cólera alguns anos depois. Em 1994, na comemoração da publicação do livro de número 500 da editora, Raduan cedeu a meus incessantes pedidos por algo novo e permitiu a publicação de Menina a caminho, a primeira novela que escrevera. Mais tarde essa novela seria publicada em edição normal, acompanhada dos contos “Hoje de madrugada”, “O ventre seco”, “Aí pelas três da tarde” e “Mãozinhas de seda”.

Meses atrás, lendo uma reportagem da Revista Piauí, soube que Raduan Nassar doara sua fazenda para a Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) e para os trabalhadores que estavam com ele há muitos anos. Fiquei emocionado e orgulhoso do amigo, que já não via há muito tempo. Pensei no erro que fiz nesses últimos anos, ao ter permitido que a vida atribulada me afastasse de um contato tão importante para mim, como o que estabeleci com um de meus escritores prediletos, entre todos os publicados na minha vida de editor. Sofri por semanas, por culpa e vergonha, procurando a forma certa de tentar me reaproximar de Raduan. Não era muito difícil, bastava procurá-lo, pedir desculpas e ponto final. Foi o que fiz.

Raduan recebeu meu telefonema sem mágoa, com alegria até. Disse coisas bonitas, que me deixaram ao mesmo tempo muito feliz e mais culpado ainda. Marcamos um almoço que acabou virando um café num fim de tarde em seu apartamento na Vila Madalena. E, num dia chuvoso, lá fui eu, levando as edições de Carlos Drummond de Andrade pela Companhia das Letras para presenteá-lo.

Raduan tem um jeito que é só seu, uma mistura de solidão e tristeza, com um sorriso que começa silencioso no canto dos lábios e depois vai se escancarando e ficando sonoro, principalmente se a conversa é mais longa e pessoal. Embora traga consigo uma mágoa da vida literária, que o fez abandonar a profissão e se voltar integralmente à vida rural, seus livros são o maior testemunho de um coração ultra generoso. Para escrever dessa maneira, tratar seus personagens com tamanha compreensão e riqueza, é preciso ter um conhecimento do mundo tão aberto como profundo e singular.

Quando nos encontramos, ainda no final do ano passado, depois de muitos anos, seus olhos baixos, a barba por fazer e as queixas com a saúde difícil acabaram se misturando com sua hospitalidade sem limites, e com a alegria que acabava transbordando em sorrisos e poucas gargalhadas. Esses gestos, que denotam, passado tanto tempo, um incólume afeto mútuo, recompensaram um pouco o meu distanciamento, um lapso que me privou de tantas lições e alegrias, que me esforçarei em recuperar.

Reencontrar Raduan Nassar talvez tenha sido o melhor que me aconteceu no ano passado. Conto em detalhes a minha visita — acho que vocês entenderão o porquê — e mais histórias com Raduan no meu próximo post.

* * * * *

P.S.: Telefonei para Raduan Nassar contando que eu fazia crônicas neste espaço, dizendo que escrevi sobre nosso encontro no ano passado, e perguntando se ele se chatearia se eu colocasse um link para que o leitor visse a reportagem feita para a TV Globo sobre a doação de sua fazenda. A resposta veio na forma da nota que se segue, e o link é: http://g1.globo.com/economia/agronegocios/vida-rural/noticia/2013/01/universidade-em-sp-ganha-fazenda-para-instalar-um-novo-campus.html

Luiz, tentei impedir a matéria da Piauí, não consegui, não queria passar a imagem de bom samaritano. Já que a coisa acabou rolando, não seria o caso de impedir que a pauta aparecesse agora no teu blog, pois não esqueço teu apoio desde sempre. Com afeto, Raduan”.


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