Crítica: O Silêncio Contra Muamar Kadafi


 

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Um tema que tem sido bastante abordado no Botequim Cultural é o papel desempenhado pelo jornalismo dentro da literatura e do mercado editorial nacional, debate que procuramos amplificar com a série de entrevistas recentemente realizadas aqui. Ainda dentro desse universo, na passagem de 2012 para 2013, mais um importante trabalho foi lançado pela Companhia das Letras, o livro “O Silêncio Contra Muamar Kadafi”, escrito pelo correspondente do “Estado de São Paulo” em Paris, Andrei Netto.

Andrei ganhou as manchetes dos principais jornais brasileiros em 2011 ao desaparecer em território Líbio e acabou por ter sua libertação intermediada pelo Itamaraty. Após entrar clandestinamente em território líbio, acabou capturado por forças leais a Kadafi, aonde ficou 8 dias em cativeiro, sofrendo agressões físicas e psicológicas.

O episódio de sua prisão é apenas mais um dos elementos que fazem desse livro um trabalho que deveria servir de referência para qualquer um que queira abraçar a carreira jornalística. Andrei descreve todo seu processo de atuação numa área de conflito, aonde tem que driblar imposições governamentais para poder buscar a informação. Mas não basta receber a informação, é preciso o discernimento para processá-la e analisá-la em meio à guerra da informação. Andrei acaba por mostrar que na verdade, o jornalista tem que ser um eterno cético, curioso e inconformista, mantendo permanentemente as antenas ligadas para captar tudo o que estiver passando no ar.

As imagens de um Kadafi visivelmente ferido, trôpego, completamente grogue e com o olhar perdido em meio a uma multidão feroz correram o mundo, em que nada fazia lembrar o todo poderoso senhor da Líbia, escondido como um rato numa rede de esgoto. Depois disso só aparece a imagem do líder líbio morto. Logo no primeiro capítulo Andrei Netto procura reconstituir com riqueza de detalhes o que ocorreu entre essas 2 imagens. Em busca dessa história e através de sua perseverança, acabou inclusive sendo um dos primeiros jornalistas a ter acesso ao corpo de Kadafi.

A revolta Líbia que culminou com a morte do ditador ganha contornos mais abrangentes em “O Silêncio Contra Muamar Kadafi”, dando ao leitor todas as informações necessárias para o perfeito entendimento do processo Líbio, suas diferenças e similitudes com os eventos da chamada “Primavera Árabe” em países próximos como Tunísia e Egito. Descreve a formação político-histórico-geográfica do Estado Líbio, sua divisão étnica, a maneira como Kadafi chegou ao poder e o método de governo que manteve esse poder durante mais de 40 anos.

Analisando o passado e o presente do país, Andrei Netto tenta colocar uma luz no futuro do país pós-revolucionário para que o leitor análise o processo Líbio, em meio aos grupos que hoje disputam o controle de um país que os viveu últimos 42 anos debaixo de uma feroz ditadura e num total isolamento do mundo. Quais os desafios daqui para frente? Como reconstruir um país que precisa renovar sua infraestrutura, seu sistema político e educacional?

Lógico que para o público, de um modo geral, a prisão do jornalista e a morte do ditador despertam maior curiosidade. Mas “O Silêncio Contra Muamar Kadafi” é um trabalho maior que isso, ajuda a entender de onde veio e para aonde ainda pode ir a Líbia.


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