Crítica: “O Voo” de Denzel, o Voo de Garcez


 

 

Um avião que devido a um problema técnico está malfadado a se espatifar no chão, mas graças à perícia do seu comandante, pousa a aeronave de forma que consegue salvar quase todas as vidas que ali se encontravam, minimizando o máximo possível o número de vítimas fatais. Porém, o comandante que a princípio ganha o status de herói aos poucos o curso das investigações acabam por rebaixá-lo para a categoria de vilão.

Quem ler inadvertidamente esse texto acima e tiver mais de 35 anos vai achar que estou me referindo ao voo da Varig que caiu na Amazônia em 1989. Não é o caso, o “Voo” a que me refiro é o título do novo filme do diretor Robert Zemeckis, protagonizado por Denzel Washington. Mas para mim foi impossível não assistir o filme e não me lembrar da tragédia do avião comandado em pelo Comandante Garcez.

Mas vamos primeiramente nos ater ao “Voo” de Denzel Washington:

 

Nele, por trás do “super-homem” se esconde um homem amargurado, mergulhado no vício das drogas e do álcool, incapaz de conduzir sua própria vida. A repentina fama e aclamação nacional só ajudam a aprofundar o tamanho do abismo em que está afundado, dimensionando suas fragilidades e aumentando a amargura desse homem que já havia perdido para seus vícios o que de mais importante ele tinha, a mulher e o filho.

Para poder interpretar ser com tal complexidade Zemeckis precisava contar com um grande ator e achou em Denzel Washington um protagonista adequado para tal tarefa. Sua atuação é precisa e necessária, com seu personagem transformando-se quase que num zumbi consumido pelo álcool. Sua atuação ganha importância devido a alguns problemas de roteiro que o filme possui. Há personagens importantes que pouco acrescentam ou que não são críveis, o caso mais notório é do co-piloto. Seus 30 minutos iniciais até passam a impressão que vamos ver um grande filme, aonde Zemeckis filma com maestria toda a sequência aérea que desemboca na tragédia.  Porém, depois da tragédia, o filme perde altitude e seu ritmo fica um pouco arrastado, sendo que seu tempo superior a 2 horas acaba por ser um exagerado. Não havia história para tanto. O desenvolvimento do personagem de Denzel é até feito corretamente sem condescendência, mas percebe-se uma tentativa de levar o filme numa direção que irá desaguar num final edificante. Na verdade sua sequência final praticamente joga por terra o filme, optando por um final moralista.

O Voo de Garcez:

Como já disse, me foi impossível assistir ao “Voo” sem me lembrar do Boeing da Varig que caiu na Floresta Amazônica em 1989. As lembranças que ainda guardo do voo 254 da Varig são dos passageiros resgatados dando entrevistas para a Tv Globo falando do heroísmo do comandante do voo, César Garcez. Com o passar dos dias e das investigações a história acabou não tendo um herói, como parecia, mas um vilão.

O voo 254 saiu de Marabá, sul do Pará e tinha como destino Belém, última etapa daqueles típicos voos paradores que passou o dia catando e despejando passageiros em cidades como Uberlândia, Uberaba, Goiânia, Brasília e Imperatriz. De Marabá à Belém é um trajeto curto, 40 minutos sobre a densa cobertura amazônica, com poucas cidades no trajeto e nenhum campo de pouso. Mas para os passageiros do voo 254 aquele trajeto durou mais de 3 horas e terminaria com um violento mergulho na escuridão da floresta. Na decolagem em Marabá, o comandante César Garcez cometeu um grotesco erro no plano de navegação. Ao invés de comandar seu Boeing para uma rota de 27º em direção ao norte de Marabá, rumou 270 º na direção oeste, entrando cada vez mais dentro da floresta, num caminho que se fosse mais além iria para a direção da Cordilheira dos Andes. Após mais de 40 minutos de viagem chegou a anunciar aos passageiros a aproximação da cidade de Belém, mas depois de algum tempo procurando o aeroporto da cidade, chegaram a uma trágica conclusão: estavam perdidos, isso numa época e num lugar que a cobertura de radares era precária, muitos anos antes do SIVAN sequer ser licitado. Depois de mais de 3 horas sobrevoando a Amazônia não restava mais uma gota de combustível no reservatório, e no interior do avião crescia cada vez mais a tensão entre seus 54 passageiros, percebendo que o avião por vezes parecia “voar em círculos”. Ao perceber que não tinha mais  combustível para chegar a nenhum lugar, o comandante Garcez informou aos passageiros, pelo alto-falante, que todos se encontravam numa viagem sem esperança. “As coisas não estão acontecendo porque eu quero”, disse ele. “Vamos pedir a Deus para que tudo dê certo. Boa sorte para todos.” O Boeing iniciaria seu pouso sobre as árvores, envolvido no breu absoluto, nas mãos de um comandante que não sabia onde se encontrava, que não tinha a menor ideia do que esperava o avião em terra firme – podiam ser floresta cerradas, fazendas com pastos para gado, comuns na região, ou até mesmo rochedos. Afundou então numa profunda escuridão e quase que por milagre não colidiu com nenhuma das gigantescas árvores amazônicas de mais de 30 metros de altura. O avião ficou em ruínas, com as asas e a cauda arrancadas, a cabine esmagada e o corpo do avião partido. As mais de 100 cadeiras do avião se soltaram, esmagando os passageiros.

A desorientação em pleno ar e o mergulho na floresta foram somente parte do drama vivido pelos passageiros, que ainda passariam por mais agonias. Além de onze passageiros mortos, outros tantos gravemente feridos, agora estavam perdidos em plena selva amazônica, enquanto equipes de resgate se mobilizavam para encontrar o avião em lugares distantes de sua real localização, já que estava inteiramente fora da rota prevista. Os sobreviventes passaram 2 dias perdidos na mata, abandonados a própria sorte, com comida e água racionadas, sem remédios e as graves feridas eram tratadas e limpadas a base de uísque e vodka, até o resgate final.

No voo de Garcez, o comandante foi extremamente hábil no seu pouso, aterrissagem de perito. Foi um pouso bem-feito, no qual ele permitiu que o Boeing perdesse velocidade até chegar aos 210 quilômetros horários e, através de uma manobra com os freios aerodinâmicos – os chamados flaps -, caísse primeiro com a cauda e depois com o resto do corpo do avião, amenizando o impacto gigantesco do choque com a selva.

Um pouso de perito que permitiu, como no caso de Denzel, minimizar o número de mortos dentro do possível num caso como esse, a ponto que foi num primeiro momento tratado como herói. Mas o perito do pouso é o mesmo piloto que cometeu um erro absurdo de rota.

Fonte: Revista Veja

Abaixo, encontrei no Youtube uma reconstituição, dividida em 5 partes, do acidente da Varig, produzida pelo Discovery Channel e dirigido pelo Artur Fontes.

Parte 1
 


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Parte 2
 


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Parte 3
 


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Parte 4
 


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Parte 5
 


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