Crítica: Olheiros do Tráfico


 

 Com uma proposta realista e de profunda visão social acaba de estrear na sala Chiquinho Brandão do Sesc Casa da Gávea o espetáculo “Olheiros do Tráfico”, que como o próprio título sugere, retrata o cotidiano do tráfico de drogas dos morros cariocas através da visão de 2 jovens integrantes de uma boca de fumo.

Com texto e direção de Moisés Bittencourt, supervisão de Domingos de Oliveira, a peça é centrada na complexa relação de dois olheiros do morro, Crika(Sandro Barçal) e Tavim(Bruno Suzano), que isolados num posto de vigilância vivem um clima de permanente tensão, criando um ambiente que dá ao expectador a sensação de que aqueles 2 jovens estão permanentemente sentados num barril de pólvoras que pode explodir a qualquer momento. De um lado estão em estado de total alerta diante de uma iminente invasão do morro pela polícia pacificadora, de outro lado há a vigilância constante do ameaçador chefe do tráfico, Sabuca. No fio da navalha em que se encontram, o vício das drogas e mesmo a diferente origem entre ambos(Crika nasceu no asfalto e por causa de um rabo de saia foi pro morro, já Tavim é originário da própria comunidade) ajudam a carregar o ambiente e a criar uma relação  por vezes ambíguas, aonde há espaço para a amizade e solidariedade simultaneamente com a intolerância e a desconfiança entre ambos.

Um dos grandes méritos da peça dirigida por Moisés Bittencourt, foi procurar compreender aqueles 2 jovens recrutados pelo tráfico de drogas, sem sociologismo barato, aonde o texto procura não passar a mão na cabeça deles colocando-os como vítimas da sociedade e nem como algozes, conseguindo desenvolver uma visão equilibrada fugindo de maniqueísmos, evitando deixar o público com sentimento de repulsa ou de paternalismo por aqueles 2 seres perdidos num mundo de ilusões, vícios e terror. Para que isso ocorresse foi fundamental o desempenho dos 2 atores, Barçal e Suzano, que conseguem passar humanismo e realismo aos seus personagens, aonde durante os 65 minutos do espetáculo realizam um dinâmico diálogo, sem que um se sobreponha sobre o outro, mantendo o equilíbrio fundamental para que o espetáculo flua, mesmo que seja no seu tom incômodo.

Incômodo esse que Moisés objetiva com seu texto, até porque tudo que não se queria com “Olheiros do Tráfico” é a indiferença. É uma peça que acredita que o teatro pode ser uma importante ferramenta de conscientização e de transformação política.

A temática abordada não é nova no meio cultural nacional, mas é sempre atual e necessária, sendo uma fonte inesgotável para importantes trabalhos para nos fazer entender a nossa sociedade e nosso cotidiano. Já rendeu algumas recentes obras de fundamental importância, podemos citar livros como “Cidade de Deus”, de Paulo Lins e “Abusado”, de Caco Barcellos, documentários geniais como “Notícias de uma Guerra Particular”, de João Moreira Salles e Kátia Lund, e filmes como o próprio “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles ou “O Primeiro Dia”, de Walter Salles e Daniela Thomas, isso só para citar alguns trabalhos que me vem agora a mente.

Olheiros do Tráfico” se junta a esse grupo de obras que melhor nos ajudam a tentar entender um mundo que está aparentemente tão longe, mas ao mesmo tempo tão perto de nós, mesmo que tentemos não enxergá-lo.

* O Botequim Cultural assistiu ao espetáculo à convite de sua assessoria de imprensa.

FICHA TÉCNICA
Texto e direção: Moisés Bittencourt
Elenco: Sandro Barçal (Crika) e Bruno Suzano (Tavim)
Trilha Sonora: Moisés Bittencourt
Local: Sesc Casa da Gávea
Temporada: 17 de janeiro a 23 de fevereiro de 2014
Endereço: Praça Santos Dumont, 116 – Gávea
Sexta e sábado às 21h / Domingo às 20h
Ingresso: R$ 50,00 (inteira)
Duração: 65 minutos


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