Os 10 Melhores Livros Jornalísticos


 

o jornalismo na literatura10

Por Adriana Mello.

Quando tive a ideia de fazer esse post, parecia uma tarefa fácil. Logo percebi que escolher “meus” melhores livros jornalísticos seria uma dificílima tarefa. O fato de ser apaixonada por esse estilo de livro só dificultava as coisas. Sofria com cada corte que fazia e a lista nunca parecia completa. Para facilitar, decidi criar critérios, excluí biografias e livros de conteúdo histórico, privilegiando grandes reportagens ou livros memorialistas, mas mesmo assim tive sérias dificuldades para terminá-la. Bom, o resultado final é este aqui.

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record_abusadoO Abusado – O Dono do Morro (Caco Barcellos)

Nem sei quantas vezes li esse livro e cada vez que leio acho mais genial. Em “O Abusado”, Caco dá uma verdadeira aula de como funciona por dentro toda a engrenagem do tráfico carioca.  Caco acompanha de perto um famoso traficante carioca e conta toda a sua ascensão dentro do tráfico de drogas (desde sua infância até tornar-se o “dono” do Morro Dona Marta). No livro,  Caco apresenta o personagem como “Juliano VP”,  mas todo sempre soube tratar-se de Marcinho VP.

Muitos de vocês, vão estranhar a ausência de “Rota 66” na lista, mas confesso que não li (shame on me).

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noticias_do_planalto_medioNoticias do Planalto (Mario Sergio Conti)

Eu tenho a teoria que todos os estudantes de jornalismo do país, deviam ser obrigados por lei a ler esse brilhante livro de Mario Sergio Conti.

“Notícias do Planalto” retrata as relações entre a imprensa e o governo Fernando Collor de Mello, desde a sua candidatura até sua renúncia à Presidência da República. Conti, que na época era editor-chefe da Revista Veja, mostra com riqueza de detalhes como a grande imprensa se movimenta, como ela atua, como são tomadas as decisões nas redações, como surgem as grandes reportagens.

No livro, Conti, também conta os bastidores de toda a negociação da entrevista que realizou com Pedro Collor de Mello, irmão do Presidente, crucial para a queda de Collor.

Um livro para ser lido e relido.

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DIAS_DE_INFERNO_NA_SIRIA__1349471546PDias de Inferno na Síria (Klester Cavalcanti)

Em “Dias de Inferno na Síria”, o jornalista Klester Cavalcanti narra todo o horror que sofreu ao ser preso em maio de 2012 pelo exército do ditador Bashar al-Assad em pleno processo repressivo que se desenrola na Síria desde março de 2011.

Em maio 2012, Klester Cavalcanti partiu de São Paulo para Beirute, no Líbano, e de lá entrou em território sírio. O jornalista tinha o visto sírio e uma lista de equipamentos que poderia portar.  Apesar da exigência de se apresentar ao Ministério da Informação da Síria, além das inúmeras restrições e proibições à circulação de jornalistas pelo território Sírio, Klester foi o único jornalista brasileiro que conseguiu entrar na cidade de Homs, epicentro do conflito, aonde ocorriam os piores combates entre as forças leais ao regime e os rebeldes do Exército Livre da Síria, com o objetivo de registrar e apurar informações tanto sobre o conflito como fazer o registro da rotina das pessoas que convivem com tal grau de tensão por tão longo período. Em Homs acabou preso quando seguia num taxi ao encontro de um contato, ativista de direitos humanos. A partir daí seus dias foram uma sucessão de incertezas e total falta de comunicação com o mundo externo. Foi torturado e preso por 6 dias em uma cela mínima que dividia com mais de 20 homens. Na prisão, a tortura era psicológica aonde as informações que recebia eram mínimas, não sabia nem o motivo oficial de sua prisão e muito menos quando sairia de lá(e se sairia).

Klester narra todo o horror que sofreu durante os seis dias de cárcere num país estrangeiro, costumes diferentes e idioma que mal conhecia. O mais tocante do livro é ver o desenvolvimento de sua relação com seus “irmãos de cárcere”, aonde com extrema sensibilidade demonstra a comovente proximidade entre pessoas com origens, hábitos e culturas tão distantes, em situações desumanas e mesmo vivendo no limite do medo e da incerteza conseguem encontrar forças para ajudar uns aos outros.

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nome da morteO Nome da Morte (Klester Cavalcanti)

Mais um belíssimo trabalho de Klester Cavalcanti. Em o “O Nome da Morte”, o jornalista conta a história do matador de aluguel Julio Santana. Em 35 anos, Julio matou quase 500 pessoas (todas as mortes foram registradas em caderninho). Com 17 anos, ele matou sua primeira vítima e não parou mais. No livro, Julio conta com detalhes algumas dessas mortes. Após assassinar sua vítima, ele rezava 10 Ave Marias e 20 Pai Nossos para pedir perdão.

Por vezes a frieza como Julio fala de seus crimes, nos assusta.  A exemplo de “Dias de Inferno na Síria” é um livro para ser lido em uma tacada só. Impossível parar.

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capa_memorias_do_esquecimento.inddMemórias do Esquecimento: Os Segredos dos Porões da Ditadura

Em “Memórias do Esquecimento: Os Segredos dos Porões da Ditadura”, Flavio Tavares conta todo o horror que viveu durante a ditadura militar.  Flavio, um dos mais brilhantes jornalistas brasileiros relata com  seu já habitual maestria narrativa sua prisão, tortura e expulsão do país, mencionando ainda sua vida na condição de exilado político no México e na Argentina. “Memórias da Esquecimento” é um dos mais pungentes relatos do sofrimento e da sensação de impotência do preso diante da insanidade e sadismo de um torturador. Um importante relato e testemunho de um dos mais negros períodos da nossa hostória.

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mataMata! O Major Curió e As Guerrilhas do Araguaia (Leonencio Nossa)

“Mata! O Major Curió e a As Guerrilhas do Araguaia” é resultado de dez anos de pesquisa do Jornalista Leonencio Nossa.  O repórter fez inúmeras viagens a região do Bico do Papagaio (confluência dos Rios Araguaias e Tocatins) e ouviu depoimentos de mais de 150 pessoas.

Leonencio é o único jornalista ter acesso exclusivo ao arquivo do major Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, um dos principais e polêmicos personagens da repressão da ditadura militar a guerrilha.

O livro de Leonencio Nossa é uma obra definitiva sobra a Guerrilha do Araguaia. Um livro para ser lido e relido inúmeras vezes.

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muamar kadafiO Silencio contra Muamar Kadafi (Andrei Netto)

Andrei ganhou as manchetes dos principais jornais brasileiros em 2011 ao desaparecer em território Líbio e acabou por ter sua libertação intermediada pelo Itamaraty. Após entrar clandestinamente em território líbio, acabou capturado por forças leais a Kadafi, aonde ficou 8 dias em cativeiro, sofrendo agressões físicas e psicológicas.

O episódio de sua prisão é apenas mais um dos elementos que fazem desse livro um trabalho que deveria servir de referência para qualquer um que queira abraçar a carreira jornalística. Andrei descreve todo seu processo de atuação numa área de conflito, aonde tem que driblar imposições governamentais para poder buscar a informação. Mas não basta receber a informação, é preciso o discernimento para processá-la e analisá-la em meio à guerra da informação. Andrei acaba por mostrar que na verdade, o jornalista tem que ser um eterno cético, curioso e inconformista, mantendo permanentemente as antenas ligadas para captar tudo o que estiver passando no ar.

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vladoAs Duas Guerras de Vlado Herzog (Audalio Dantas)

Sem dúvida “As Duas Guerras de Vlado Herzog” é um dos livros mais relevantes do ano não só pela sua qualidade literária, mas principalmente pela seriedade e honestidade como aborda um tema tão importante e até hoje muito comentado.

O jornalista Audálio Dantas desenvolveu sua obra através de depoimentos, pesquisas em arquivos e principalmente se valendo de suas próprias memórias,Audálio reconstituiu os últimos momentos de vida de Vladimir Herzog nos porões do DOI-CODI, tentando levantar os bastidores de  sua prisão e o que aconteceu no interior daquele sombrio prédio aonde lhe era tirado a vida, assim como narra não só como testemunha ocular, mas como agente protagonista dos desdobramentos resultantes do seu assassinato, tudo do ponto de vista de dentro do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, do qual era presidente naqueles dias tenebrosos.

O título “As Duas Guerras de Vlado Herzog” faz referência, além do episódio óbvio da Ditadura, à perseguição Nazista e fuga para o Brasil do pequeno Vlado e como isso influenciou sua personalidade até a vida adulta, refletindo na 2ª guerra que travou.

O  livro tem fundamental importância, ainda mais nesse momento em que se tenta aprofundar o período através das diversas comissões da Verdade espalhadas pelo país, assim como entender e apurar a morte e desaparecimentos brutais de inúmeros perseguidos do período. Audálio faz da reconstituição em detalhes da prisão e suplício de Herzog o ápice do livro, assim como consegue envolver o leitor no seu relato dos turbulentos dias posteriores a sua morte.

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Série Ilusões Armadas – O Sacerdote e o Feiticeiro (Elio Gaspari)

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“A Ditadura Envergonhada” vai do golpe de 1964 até a edição do Ato Institucional nº 5, a “A Ditadura Escancarada” começa do AI 5 e termina no extermínio da Guerrilha do Araguaia em 1973. Os dois últimos, “A Ditadura Derrotada” e a “A Ditadura Encurralada” focam nas vidas de Geisel e Golbery, o retorno de ambos ao Planalto, os 4 primeiros anos do governo Geisel e terminando em outubro de 1977 no momento em que o general Sylvio Frota foi dormir, depois de ter visto um filme de James Bond, sem saber que Geisel o acordaria chamando-o ao Planalto para demiti-lo.

O grande diferencial da “saga” escrita pelo jornalista Elio Gaspari, ao contrário de quase a unanimidade dos livros que retrataram os anos de chumbo é que consegue fazê-lo por dentro do sistema, sob a ótica de quem estava no poder, como pensavam, porque faziam, quais os seus objetivos. Descreve com detalhes o funcionamento, a estrutura, a hierarquia e a mentalidade das forças Armadas e do sistema operante do período. Para isso teve como interlocutores duas centrais, figuras de todo o período: Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, o “Sacerdote” e o “Feiticeiro”. Seria impossível realizá-lo sem que Golbery entregasse a Gaspari seu arquivo e sem as demoradas conversas com Geisel a partir de 1979, que chegou a gravar depoimentos pessoais ao jornalista a partir de 1994.

A série é o mais completo e profundo painel da Ditadura Militar, um livro fundamental para as gerações futuras que se interessarem a lançar um olhar sobre esses anos. Descreve com riqueza de detalhes as últimas horas da presidência de João Goulart, a noite em que o exército “dormiu janguista” e “acordou revolucionário”, o endurecimento do regime, a resistência, a criação das guerrilhas, a caçada que foram  submetidas, sua extinção e as torturas que foram impostas a militantes e simpatizantes da resistência.

Um de seus maiores êxitos é trazer à luz toda a dificuldade para desmontar toda essa máquina assassina que atuava nos porões do regime.

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chegadesaudadeChega de Saudade(Ruy Castro)

“Chega de Saudade” é um daqueles livros que já podemos colocá-lo na categoria dos clássicos. Antes dele ninguém tinha realizado pesquisa tão aprofundada sobre um dos maiores movimentos musicais da história da música brasileira, quiçá da música mundial, do século XX. Ruy Castro mais do que reconstituir a história da Bossa Nova, reconstitui por tabela a história da boêmia carioca da década de 50, cada bar, cada boate de Copacabana ou Ipanema daqueles anos dourados da era JK, aonde o Brasil parecia ser um país predestinado a dar certo. Ruy investiga João Gilberto antes da fama, Vinícius de Moraes ainda um diplomata do Itamaraty e Tom Jobim um pianista da noite que corria atrás do dinheiro para pagar o aluguel, Um livro rico não só de conteúdo, mas também com uma enorme e bela pesquisa iconográfica com belas fotos que o ajudam(visualmente) o leitor a viver naquele “Rio de amor que se perdeu”.


Palpites para este texto:

  1. Klester cavalcanti? Em Belém, por exemplo, ele não é levado a sério, depois daquele livro absurdo chamado direto da selva, que mais parece livro dde comédia que jornalismo…

  2. Já li “Dias de Inferno na Síria” e de fato é um ótimo livro.

    O Rota 66 é ótimo também, e embora tenha sido escrito há vários anos, é tristemente atual.

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