Os Jovens na Produção Literária Nacional, por Thayane Gaspar


 

Thayane Gaspar, autora do livro “Princesa de Gelo”, lançado pela Editora Modo, escreve texto para o Botequim Cultural sobre as dificuldades dos jovens em alcançar credibilidade no mercado editorial brasileiro. Em um texto escrito na primeira pessoa, Thayane relata sua experiência para conquistar seu espaço e lançar sua obra. Uma situação que é repartida por muitos jovens escritores contemporâneos.

Abaixo, deixo com vocês o texto de Thayane Gaspar:


Aos 14 anos, meus amigos se preparavam para entrar no ensino médio e eu para um mundo literário.

Não dá para separar a escrita de mim, por isso me esquivo da pergunta “Quando você começou a escrever?”. Eu comecei assim que me apresentaram as letras, o papel e caneta. Escrevia contos, cartas, poemas e músicas. Eu escrevia tudo que palavras podiam construir.

Mas ressalto os meus 14 anos, pois foi quando escrevi meu primeiro romance. E não foi este que foi publicado, foi um antes. Eu estava de férias no colégio e nenhum livro conseguia saciar minha a minha vontade de literatura. Era como se minha alma estivesse faminta por comida e eu a alimentasse apenas com água. Eu tinha fome de escrever.

Conheci através de redes sociais, espaços onde as pessoas escreviam sem pudor. Era um espaço tão livre de censura, tão livre, que eu soube que era hora de eu aprisionar minhas ideias num papel. As histórias eram contadas como novelas, escrevíamos todos os dias capítulos e por isso eram conhecidas como “webnovelas”. As pessoas comentavam e liam com fidelidade todos os dias. Em meses terminei uma história prematura, daquelas que nãos e acerta de primeira. E não deu para esperar muito e a Princesa de Gelo já estava lá, pronta na minha mente. Eu não tive uma grande ideia, não tive um insight. Eu não precisei. A adolescência já é muito inspiradora com os seus dramas cômicos e seu universo caótico.

Eu sempre fui muito intensa, e queria uma personagem que fosse mais do que eu. Que conseguisse amplificar todos os seus sentimentos e não beirar a insanidade. Queria alguém que representasse a oscilações de ser adolescente, alguém que tivesse medo de ser para sempre o que foi naquela época.

.
Eu achava que escrever era a parte mais difícil na vida de um autor, mas publicar sem dúvida foi a pior. Sem muito capital para investir, e sem muitas editoras que quisessem arriscar um investimentos  em um jovem, publiquei por sites de autores independentes. Duas pessoas da minha família investiram em mim, Paula e Márcio. E foi pelo investimento que eu nunca desisti em meio as dificuldaded, pois eu sabia que agora meu sonho ia fazer mais duas pessoas felizes. E isso me deu forças.

Mas aquele não era o meu sonho. Meu sonho não era vender 1 livro a cada três meses. Meu sonho era estar numa livraria, com pessoas que queriam conhecer  a minha trajetória, ouvindo sobre o meu livro e brigando por um exemplar.

E enquanto isso, eu fazia parte de muitos clubes de autores que sonhavam o mesmo sonho que eu. E como num conto de fadas, eu tive uma fada madrinha: Adriana Vargas. Adriana é autora e trabalha na Modo Editora, e foi assim que fiz contato com a editora. Eles não se importaram com a minha pouca idade, muito pelo contrário, incentivaram mais jovens, e hoje temos até escritores de 15 anos em nosso grupo.

Com a obra publicada, eu vivi meu sonho de sentar numa livraria e dar autógrafos. Mas ser escritor é bem mais que isso. É encarar a venda de livros, é buscar seu espaço nos meios de divulgação para atingir o maior número de pessoas. E eu adoro correr atrás de tudo isso, porque o livro é meu – e por mais que eu tenha tido ajuda de muitas pessoas –  quando eu dou uma palestra, quando eu recebo uma crítica negativa, ou quando eu luto para fazer parte de eventos – eu sei que estou sozinha, que eu escrevi o livro sozinha, sei que o meu livro é a melhor coisa que eu já fiz na minha vida e o lugar mais longe que eu cheguei.

.
Ainda sofro com algumas críticas pela minha idade. Dizem que minha voz infantil faz com que o meu livro perca a credibilidade, e acabo sendo excluída de eventos. Como se fosse uma vergonha ser autora aos 20 anos. Como se dom fosse uma questão de tempo.

Hoje eu sou a prova de que os jovens produzem literatura e não apenas a consomem. Eu sou a prova de que o mundo não te ouve porque você tem uma voz infantil. Mas eu sou a prova também, que a minha idade não fez ninguém deixar de ler o que eu escrevi, porque algumas pessoas nasceram para serem ouvidas, e eu, para ser lida.


Palpites para este texto:

  1. Muito obrigada pelo espaço para divulgar esse fato! É muito bom saber que o Botequim Cultural apoia os jovens autores nacionais. Talento não tem idade, e nós iremos provar.
    Um grande abraço!
    Thayane Gaspar
    Autora de Princesa de Gelo
    Editora Modo

  2. Olá Thayane.
    Queremos sempre abrir nosso espaço para quem queira expor seu trabalho. Tentaremos, na medida do possível, ser ecléticos e abertos para todos.
    Grande abraço

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

maio 2017
D S T Q Q S S
« abr    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031