Crítica: Os Penetras


 

 

Andrucha Waddington é inegavelmente um dos mais talentosos cineastas do Brasileiros. Realizou filmes de ótimo apuro técnico, estético e dramático como em “Eu Tu Eles” e “Casa de Areia”, além de uma incursão pelo cinema espanhol com “Lope”. Nos dois primeiros filmes citados é possível notar uma pretensão artística maior, faltou-lhe apenas um algo mais para atingir plenamente seu objetivo, aquela linha divisória imaginária que divide os ótimos filmes dos filmes geniais. Isso se deve porque Andrucha, apesar do domínio pleno que possui da técnica cinematográfica se recinta de uma maior profundidade intelectual. Talvez por não ser um cineasta com ampla formação teórica, como um Ruy Guerra, um Paulo Cézar Saraceni e posso dizer que até mesmo um Walter Salles. Ele mesmo já admitiu que ao contrário dos citados, nunca foi um “rato de cinemateca”, o que não devemos tomar necessariamente por falta grave. Sua formação está mais próxima de um Fernando Meirelles. Não é preconceito por ter vindo da publicidade, Walter Salles, por exemplo, também veio e isso não é demérito.

Feito esse longo prêambulo, vamos a “Os Penetras”, seu mais recente filme. Nele Andrucha muda radicalmente seu foco e entra no terreno da comédia, retratando uma típica figura e memorável do cinema nacional, o malandro carioca. Um tipo já explorado em inúmeras e deliciosas comédias do passado através de nomes como Hugo Carvana e Reginaldo Farias. Dessa vez quem dá vida a esse tipo é Marcelo Adnet, certamente um dos humoristas mais interessantes que surgiram nos últimos anos no Brasil. Embora Andrucha alegue que sua maior inspiração foi Mario Monicelli, que para mim foi um dos maiores gênios da comédia da história do cinema.

É natural que um cineasta queira eventualmente se despir de pretensões e fazer algo descompromissado, sem preocupações intelectuais. Grandes cineastas fizeram de filmes aparentemente “menores”, pequenos clássicos. Vem-me à mente agora Martin Scorsese com “After Hours”. Mas infelizmente não foi o que ocorreu com Andrucha. “Os Penetras” é acima de tudo um filme muito ruim.

Marco Polo(Marcelo Adnet), um malandro manipulador e sedutor cruza com Beto(Eduardo Sterblitch), após este tentar se matar depois de levar um fora de sua amada Laura. Ao perceber a boa situação financeira de Eduardo e sua inocência interiorana, Marco Polo promete ajuda-lo a reaver Laura, enquanto tenta tirar vantagem tanto de Beto quanto de Laura, uma mulher tão astuta, sedutora e ambiciosa quanto Marco Polo.

Diria que chega a ser surpreendente que Andrucha, que sempre primou pelo apuro dos seus roteiros tenha levado a cabo algo tão bobo e banal. A sensação que deu é que queria fazer um filme com Adnet e mandou escrever um roteiro sob encomenda. As melhores cenas do filme vêm dos métodos utilizados por Marco Polo para penetrar nas festas da fina flor da sociedade carioca, que nos remete a um outro malandro que deixa nostálgicos os quarentões e cinquentões lembrando do inesquecível Beto Rockfeller, personagem magistralmente interpretado por Luís Gustavo(que faz uma participação em “Os Penetras”), um picareta que não tinha aonde cair morto e um verdadeiro mestre na arte de penetrar nos grandes salões do Grand Monde paulistano.

Além das tramas pouco criativas o roteiro tem outro problema gravíssimo: a má elaboração e desenvolvimento dos personagens. Andrea Beltrão entra em cena já na parte final com um personagem inconclusivo. Já Stepan vive um personagem de apoio para os trambiques de Adnet, porém tem seu enorme potencial cômico mal aproveitado, fato que vem acontecendo com ele nos últimos 30 anos pelo cinema nacional, que tem uma enorme dívida de gratidão com Stepan. Mas essa falha fica mais evidente no personagem da atriz russa Elena Sopova, importada pela produção para viver um personagem que é totalmente inócuo e irrelevante à história. Quanto a Adnet, olhava para a tela e via…Marcelo Adnet. Adnet é inegavelmente um ator engraçado, mas é muito difícil enxergarmos um personagem por trás de suas atuações. Por fim, Eduardo Sterblitch: me disseram que ele que faz aquele personagem chato do “Pânico”, o Freddie Mercury Prateado. Só posso dizer que em cena Sterblitch interpreta um personagem tão chato quanto seu Freddie Mercury Prateado. Quem sabe se interpretar personagens chatos seja apenas uma questão de estilo pessoal.Por fim, em meio a tantos equívocos, Mariana Ximenes não compromete. Mas vale a pena ressaltar a rápida e agradável partipação de Eduardo Dusek como um socialite afetado.

Mesmo a trilha sonora que a princípio parecia ser bem original indo de Serge Gainsbourg até a Ultraje a Rigor, no final começa a ficar previsível e até repetitiva com “Nós vamos Invadir sua Praia”.

É inacreditável como um bom cineasta como Andrucha possa ter errado tanto nesse filme. “Os Penetras” é até o momento o pior filme que vi este ano e o pior da carreira de Andrucha Waddington. Mas isso não será impeditivo para o diretor aumentar consideravelmente sua conta bancária.


Palpites para este texto:

  1. é horrivel, não tem “roteiro”, sem duvida é o pior filme que já vi na vida , só fui assitir por causa do Edu e fiquei decepicionado com a sua má atuação….ruim é pouco!

  2. hehehe Sim, o filme é muito ruim e concordo que o roteiro inexiste. Inacreditável, vindo de um cineasta como o Andrucha.

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