Palestra de Lira Neto: “Getúlio Vargas, a Crônica de Uma Morte Anunciada”


 

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No último dia 05 de junho o escritor e jornalista Lira Neto esteve presente na Casa do Saber no Rio de Janeiro para realizar uma palestra abordando o trabalho que vem se debruçando nos últimos 6 anos, a árdua tarefa de realizar a mais completa biografia já feita sobre o mais importante presidente da história brasileira, Getúlio Vargas. O Botequim Cultural teve o privilégio de estar presente.

Para resumir 6 a anos de trabalho em 2 horas de conversa foi preciso um recorte e a palestra foi centralizada na abordagem “Getúlio Vargas, a Crônica de uma morte anunciada”.

Como o título demonstra, Lira centrou sua explanação no ato supremo que o ex-presidente realizou em agosto de 1954, demonstrando, como o escritor já havia feito nos 2 primeiros volumes de seu livro, que tal gesto não foi algo impensado ou mesmo imprevisível. O fatalismo era um traço forte de sua personalidade. Se o seu suicídio foi recebido com assombro pela população, que desceu às ruas para defender seu legado e por consequência, impediu um golpe de estado(adiado por 10 anos), Lira apresentou uma série de bilhetes, mensagens e anotações que Getúlio deixou registrado em momentos extremos e capitais de sua vida, tais como a Revolução de 30 ou a Revolução Constitucionalista de 32. Para um estudioso dos documentos de Getúlio, seu suicídio não foi algo tão improvável.

Um aspecto interessante levantado durante a palestra é em relação ao fato de sua carta testamento ter sido datilografada, sendo que Getúlio não sabia bater à máquina. “– Como o sujeito que datilografou esse documento não alardeou para todos essa intenção de Getúlio”, questionou um participante. Lira, com a carta impressa num telão observou: “- Se você olhar essa carta antes do suicídio, você não diz que é uma carta de despedida, mas uma carta de resistência. Como se ele dissesse que para tira-lo da presidência, só matando-o. Depois do fato consumado essa interpretação parece óbvia, mas no calor dos acontecimentos, não necessariamente

A carta testamento no seu trecho final diz:

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

A riqueza do personagem é tanta que obviamente a palestra e o bate-papo que se seguiu foi mais além do tema proposto, graças a uma plateia atenta e participativa, com a presença não só de historiadores e jornalistas, mas também com familiares e descendentes de personagens fundamentais desse momento da vida nacional, sejam getulistas ou antigetulistas, inclusive com a presença da neta do próprio Getúlio Vargas.

O ex-presidente da ANP, David Zylbersztajn, perguntou para Lira: “-Depois de 6 anos debruçado dia e noite na vida de Getúlio Vargas, como você se sente ao começar a deixar de lado o personagem?”. Lira Neto suspirou e confessou que ainda não “caiu a ficha”, contando como o personagem tomou conta de todos os aspectos de sua vida, de seus sonhos e mesmo de sua família. Ao preparar o material para essa palestra, sua filha Alice ao se deparar com as imagens de Getúlio morto exclamou: “-papai, Getúlio morreu!”.

Um dos aspectos mais interessantes foi quando Lira Neto pôde explanar um pouco sobre seus critérios na construção desse e de outros trabalhos anteriores, aonde apesar de ter uma convicção pessoal sobre diversos aspectos não se sentiu no direito de colocá-lo no livro pela falta de provas concretas, não se sentindo no direito de cair no campo das especulações ou das conjecturas. Mas para o público presente, se sentiu à vontade para revelar alguns posicionamentos pessoais em diferentes assuntos, como por exemplo, no famoso atentado a Carlos Lacerda, que resultou na morte do Major Rubens Vaz.

Contou alguns casos interessantes, como quando escreveu a biografia do ex-presidente Castello Branco em que recebeu elogios entusiasmados de um militar por finalmente colocar a figura do ex presidente no seu “merecido lugar”, fato que o deixou várias noites sem dormir por ter chegado à conclusão que havia escrito um livro chapa branca, até o momento que foi saudado por um ex-líder estudantil por ter demonstrado o “filho da p…” que foi Castello Branco. Ilustrou esse tipo de situação com outro exemplo, quando um determinado site o acusou de fazer da vida de Getúlio Vargas uma biografia “Petista” e depois Paulo Henrique Amorim em seu blog afirmou que a biografia é “udenista tucana”. Concluiu Lira Neto sobre esse tipo de situação: “- Cada um lê o livro que quer”.

Foi uma noite agradabilíssima, ao final fez-se a tradicional fila para autógrafos e lógico, o Botequim Cultural tratou de garantir o seu.

Lira Neto autografando meu exemplar de "Getúlio"

Lira Neto autografando meu exemplar de “Getúlio”


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