Para Entender Roberto Carlos, com Paulo César de Araújo


 

No último dia 13 de janeiro Paulo César de Araújo realizou uma palestra na Casa do Saber, no Rio de Janeiro. “Para Entender Roberto Carlos” tinha como proposta abordar a construção do mito Roberto Carlos, desde sua infância no Espírito Santo, buscando suas influências, seus primeiros passos no Rio, os primeiros discos, até o surgimento da figura do Rei e a correlação entre sua obra e sua vida. O Botequim Cultural teve o privilégio de estar na platéia, aonde eu e Adriana assistimos a palestra ministrada por Paulo César.

Para quem não sabe, Paulo César de Araújo é autor da biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, que se encontra até o presente momento proibida de circular nas livrarias por ação judicial imposta pelo próprio Roberto Carlos, livro do qual falaremos mais profundamente aqui no Botequim Cultural nos próximos dias. Além da biografia de Roberto Carlos, Paulo César é autor também do livro “Eu Não Sou Cachorro Não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar”, além de ser também historiador, jornalista e professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio.

Logo no início da palestra, falando sobre seu livro censurado, Paulo César afirmou: “Não fiz um livro de má fé, mas fiz um livro favorável a Roberto Carlos”. Mas Roberto Carlos não gostou muito, pois além da ação contra a circulação do livro, ainda entrou com uma ação criminal contra o autor. “Dizem que a justiça no Brasil é lenta, mas comigo ela foi bem rápida. Em menos de 2 meses eu estava numa audiência sentado em frente de Roberto Carlos”. “- Não gostei! Você sabia que ia me magoar, Paulo César. Minha vida é um patrimônio meu e você invadiu minha privacidade”, disse-lhe Roberto durante a audiência.

E de repente Roberto Carlos se torna o “paladino da privacidade”, nas palavras irônicas de Paulo César, lembrando de alguns termos escritos no processo pelos advogados de Roberto, como “esse autor invade o leito conjugal do artista”. Ao longo da noite, Paulo César demonstrou como é impossível desassociar a vida de Roberto Carlos e sua obra, levantando inúmeras músicas com cunho autobiográfico, aonde o próprio Roberto narra momentos e dramas pessoais, como a infância, as paixões o próprio acidente, crises conjugais, amores, a mãe e até a tia. “As fontes foram produzida pelo próprio artista”, diz Paulo César. Colocou então para ouvirmos “O Divã”, aonde ali está sua infância, sua casa, sua família e principalmente…seu acidente:

O Divã

Ninguém enfrentou tantas dificuldades como Roberto Carlos, tantas portas fechadas e ouviu tantos não. Roberto jamais encontrou alguém que disse: – esse cara vai ser o grande sucesso da música brasileira”, disse Paulo. A partir daí passou então a traçar um retrato da música  brasileira e seu mercado em fins dos anos 50 e início dos 60 e das tentativas frustradas de Roberto em seu início de carreira.

A partir de 1958 o padrão local se modifica influenciado por João Gilberto” Sob essa influência, lança em 1959 seu primeiro compacto, um 78 rotações pela polidor. Paulo então colocou para escutarmos a gravação original de “João e Maria”, um retumbante fracasso, em todos os sentidos, aonde pudemos notar um Roberto numa quase que imitação barata de João Gilberto, um cantor ainda sem personalidade e sem a voz que hoje temos registrada, como podemos ver abaixo. É bom que esse diga que esse registro é proibido de ser relançado pelo próprio Roberto.

Roberto Carlos cantando “João e Maria”

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Brotinho Sem Juízo”, seu segundo disco, já pela Columbia, composição de Carlos Imperial, num estilo bem bossa nova e já podemos notar alguns registros vocais do que viria a ser Roberto Carlos.  Porém, outro fracasso.

Roberto Carlos cantando “Brotinho Sem Juízo”

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lançou ainda “Não é para Mim”, tremendo bolerão de 1961  e “Chorei”, um sambão com a ginga de gafieira, meio ao estilo de Miltinho. No geral, um disco bem eclético, mas um fiasco, aonde inclusive foi acusado de desafinar no bolero.

Roberto Carlos cantando “Chorei”

Com as mudanças administrativas na Columbia e a dispensa da grande estrela da companhia por questões de incompatibilidades, Sérgio Murilo(de “Broto Legal”), Roberto Carlos atinge seu primeiro êxito, ainda que relativo, “Malena”, uma imitação barata de “Diana”, de Paul Anka.

Roberto Carlos canta “Malena”.

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Mas mesmo na gravação de “Malena”, a gravação foi feita por músicos dos estúdios, acostumados a tocar de tudo, de rock, passando por boleros, tcha-tcha-tchas, rumbas e qualquer coisa que lhes aparecesse pela frente. Roberto então pega a turma do rock pra valer, seus amigos dos Renato e seus Blue Claps, aonde surge seu primeiro grande sucesso, “Splish Splash” e igualmente sua primeira parceria com Erasmo Carlos. Ouvindo a sonoridade do registro original de “Splish Splash”, comparado com “Malena” já é possível perceber o futuro ídolo.

Roberto Carlos em “Splish Splash”

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O Mito nasce definitivamente em 1965 com “Quero que Vá Tudo Pro Inferno”, aonde juntamente com “Jovens Tardes” na TV Record, Roberto passa a se tornar o maior vendedor de discos do país. Paulo César conta ter entrevistado Paulo Machado de Carvalho, diretor da Record naqueles tempos, aonde ele lhe declarou: “Eu não queria o Roberto Carlos. Achava ele chato, pedia sempre para cantar, mas tinha ouvido ‘Festa de Arromba’ e chamei o Erasmo. O Erasmo então que chamou o Roberto…quando a câmera apontou em direção ao rosto do Roberto, vi que ali estava o homem que precisávamos”.

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Quero Que Vá Tudo para o Inferno”, com um arranjo bem ao estilo da época, órgãos, bateria, é um disco que todas as 12 faixas fazem sucesso ao longo do ano. Paulo César colocou trechos de quase todas as 12 faixas e realmente o público pôde constatar que TODAS elas estavam dentro do nosso imaginário. Pela primeira vez é chamado de Rei e a partir dos anos 80, “ironicamente, no período da abertura política no Brasil, Roberto passa a censurar algumas de suas obras do passado e se recusa a cantar uma canção que tenha a palavra ‘inferno’ na sua letra”.

A partir daí, já com uma participação mais efetiva da platéia, a discussão e a conversa girou em torno da proibição do livro escrito por Paulo César. Você tem esperanças de relançar o livro, perguntou alguém. “Lógico”, respondeu enfaticamente Paulo César, que aproveitou então a fazer uma análise da famigerada associação “Procure Saber”, responsável por tentar manter a atual restrição ás biografias. “Quando soube que o Roberto estava participando de reuniões com artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, pensei como isso iria ser bom para o Roberto, como isso poderia abrir sua cabeça com seres tão iluminados da cultura nacional e o quanto eles poderiam influenciar Roberto. Mas para minha surpresa aconteceu o contrário”.

Paulo César também falou do susto que levou quando Chico Buarque afirmou jamais lhe ter dado entrevista e de como provou o contrário, fazendo Chico se desculpar. Houve até por parte do mediador da palestra, uma insinuação de má fé do Globo, que ao publicar a acusação de Chico, não procurou imediatamente Paulo César para que pudesse se posicionar sobre o assunto.

 

Paulo César de Araújo entrevista Chico Buarque

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No final, após 3 horas de um encontro agradabilíssimo, Paulo César, de maneira extremamente simpática, autografou livros(inclusive o nosso), enquanto aguardamos a liberação definitiva de “Roberto Carlos em Detalhes” e do livro que prometeu escrever sobre seu imbróglio com Roberto: “O Rei e o Réu”.

Paulo César de Araújo autografa para Adriana nossos exemplares de "Roberto Carlos em Detalhes" e "Eu Não Sou Cachorro Não"


Palpites para este texto:

  1. A palestra do Paulo Cesar foi sensacional! Apesar de ter durado quase 3 horas (a previsão era de 2), nem senti o tempo passar. Ele é simpático, fala bem e contou histórias ótimas! Uma das melhores palestras que assisti recentemente. E o melhor foi sair com os autógrafos nos meus livros.

  2. Roberto Carlos devia louvar a Deus ter um representante da alta cultura interessado em suas musiquinhas,e sua vidinha medíocre de eterno emergente.

  3. É ADEMAR AMANCIO. Rico é você rapaz. Parabéns! agora quem é mesmo Ademar Amancio

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