Paris – A Festa Continuou


 

ocupação nazista

Cotação: Muito Bom.

Poucos momentos foram tão sombrios e traumáticos para uma nação quanto a ocupação nazista na França, entre 1940 e 1944. É justamente esse momento histórico que Alan Riding focaliza no seu livro abordando a maneira como os parisienses conviveram com essa situação, numa relação tão complexa que se tornou um tema tabu para a sociedade francesa, causando ainda hoje desconforto, constrangimento e silêncio, mesmo depois passados mais de 70 anos do episódio. Seu foco principal se situa na vida cultural parisiense, tentando entender o que define o colaboracionismo e a resistência, mostrando que as verdades não são absolutas, existem nuances e que muitas vezes o mito de uma França resistente é mais forte do que os fatos reais.

A França pré-guerra vivia uma grave crise moral e uma enorme instabilidade política, desde que a Terceira República foi instituída em 1870 depois da derrota na Guerra Franco-Prussiana, com décadas sucessivas de enormes dificuldades, com a necessidade da reconstrução do país após a 1ª Guerra Mundial, passando pela depressão dos anos 20. Entre novembro de 1918 e junho de 1940 a França teve nada menos que 34 governos. Aliado a isso, o forte sentimento antissemista impregnado em parte da sociedade francesa também servia de pretexto para o desencadeamento de graves crises políticas, com seu ápice no caso Dreyfus(sobre o qual já escrevi aqui nesse botequim) e também com a subida de Léon Blum, judeu, a chefia de governo. Os judeus eram vistos por parte dessa sociedade como responsáveis pela degradação moral do país.

Uma boa parte da intelectualidade francesa viu na ocupação nazista quase uma salvação do país e não hesitaram em apoiar publicamente a nova ordem, confraternizar com o poder e pior, denunciar judeus. Paris estava ocupada, isso era um fato, a vida devia seguir, as pessoas trabalharem, nisso se incluía a classe artística e portanto os Cabarés, teatros e cinemas continuaram lotados. A partir desse cenário Alan Riding começa a questionar: Seria colaboração se apresentar à platéias aonde havia alemães? Seria traição comparecer a recepções e eventos promovidos pelos ocupantes? Qual é a linha divisória entre colaborar e trabalhar?

Quando o pêndulo se inverteu e começou a caça as bruxas essas questões, que durante a ocupação pareciam simples, ganharam uma enorme complexidade. Artistas como Maurice Chevalier, Tino Rossi, Charles Trenet e Édith Piaf foram denunciados por terem viajado a Alemanha para realizarem espetáculos. Alegaram em sua defesa que foram se apresentar a prisioneiros de guerra e a trabalhadores franceses. Foram absolvidos, com excessão de Chevalier, que exagerou em suas confraternizações com os alemães.

No cinema a confusão foi um pouco maior para se separar o joio do trigo, já que a indústria inteira trabalhou durante a ocupação com filmes subsidiados e financiados pela Alemanha, mesmo assim alguns não conseguiram escapar do julgamento moral, como Henri-Georges Clouzot e principalmente Arletty, que dividia sua cama com um oficial da SS.

Porém no campo da literatura era um pouco mais fácil definir quem era quem, sem contar que a classe foi a mais organizada e radical na apuração dos pecados de guerra, mesmo assim polêmicas ocorreram. Se não havia dúvidas da postura moral de Albert Camus, Aragón, Valery, Éluard, Malraux, as palavras impressas durante os anos de domínio não deixavam dúvidas à respeito da submissão, apoio, antissemitismo ou mesmo colaboração de Céline, Drieu La Rochelle, Brasillach, Montherlant, Jounhandeau e Claude Marras, entre outros. Assim mesmo alguns casos foram controversos, como o de Jean Giono que passou cinco meses preso por ter cedido artigos para publicações colaboracionistas e escrever(como sempre fez) sobre a vida rural de uma maneira que aparentava “pétainiste”. No fim, nunca formalizaram tais acusações, uma vez que nunca defendeu nazistas e teria inclusive protegido refugiados e judeus. Riding também aponta controvérsias do outro lado, como o de Sartre, transformado em um dos heróis da resistência intelectual, tendo passado toda ocupação levando uma pacata vida de professor, com peças de sua autoria montadas com aprovação da censura nazista e tendo oficiais alemães na platéia, mas no momento da vitória final posava de resistente, mito que se mantém até hoje.

A complexa temática não é uma novidade de Riding, outras obras importantes já se debruçaram sobre o tema, como no livro “Vichy France: Old Guard and New Order, 1940-1944”, de Robert O. Paxton, em filmes como “Tristeza e Piedade”, de Marcel Ophüls ou “Lacombe Lucien”, de Louis Malle, trazendo a baila a discussão sobre se a colaboração e o instinto de autopreservação seriam mais fortes que a resistência.

Paris a Festa Continua” é uma pesquisa volumosa, minuciosa e profunda aonde Riding procura entrar em todas as formas de arte e cultura, seja na literatura, no teatro, cinema, artes plásticas, música, ballet ou ópera, tentando definir quem perseguiu, foi perseguido, se omitiu, se promoveu(por necessidade, falta de caráter, convicção ou por pura vaidade) ou simplesmente levou sua vida. Atitudes de figuras importantes e complexas são analisadas com lupa, como Jean Cocteau, Sacha Guitry, Gastón Gallimard, Albert Camus, Danielle Darrieux, Jean Marais, Pablo Picasso, André Gide, Saint Exupéry, entre inúmeras outras personalidades das mais diversas artes. Por ter se aprofundado tanto, há um momento que se o leitor não for atento pode ficar confuso diante a profusão de nomes e de situações que vão sendo apresentados. Um dos grandes méritos de Riding é o seu equilíbrio entre a contundência em algumas situações e a abertura que dá ao leitor para fazer seu próprio julgamento em outras.


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