Pequenas Considerações Sobre os Vencedores do Oscar 2013


 

Demorei quase 10 dias para escrever sobre o resultado do Oscar. Precisei de um certo tempo para refletir, para compreender um pouco melhor e tirar algumas conclusões pessoais antes de escrever. Podem ser reflexões equivocadas, mas fazem parte de sentimento pessoal. Não que tenha sido surpreendido por algo, tudo se passou dentro do que se esperava e não me vem à mente nenhum resultado fruto de alguma surpresa.

Gostei da dispersão de prêmios entre todos os principais filmes indicados, sem que houvesse um grande vencedor da noite. Mesmo “Argo” que levou o prêmio principal não foi esse grande vencedor, levando-se em conta que saiu com “apenas” 3 estatuetas, enquanto todos os outros também levaram números similares de prêmios.

Não tenho nada contra “Argo”, acho até um bom filme, nada mais do que isso. Se fosse um ano fraco, como ocorreu em anos recentes, sua vitória seria até justificada, acho que é um filme que tem alguns méritos e gosto muito da sua direção de fotografia, criando todo um clima e atmosfera que me fez realmente reviver todo aquele clima anos 70. Mas essa safra foi uma das melhores que tivemos nos últimos anos. Foram pelo menos 3 filmes que considero ótimos, dignos de um grande vencedor: “Amor”, “Os Miseráveis” e “A Hora Mais Escura”; além de outros bons filmes de níveis similares a “Argo”, como “Lincoln”;  “O Lado Bom da Vida”, “Django” e “A Vida de Pi”.

O que teria levado a Academia a eleger “Argo” o filme do ano? Não só a Academia, mas a comunidade cinematográfica, de um modo geral, já que nas premiações pré-Oscar também consagraram o filme de Ben Affleck.  É interessante quando usamos expressões tipo: a Academia escolheu, a Academia quer, a Academia é conservadora, a Academia é assim, a Academia é assado, falamos como se fosse um ente monolítico, uma pessoa física, quando é um grupo espaçado e heterogêneo de pessoas que juntas formam esse ser chamado Academia.

Vi críticas entusiasmadas a “Argo” e até críticos que respeito, alguns meus amigos pessoais, consideraram seu final algo de tirar o fôlego, enquanto eu me incomodei com seu desfecho, que para mim foi inteiramente previsível e nada mais que uma sucessão de clichês. O pior é que me sentia solitário em minhas opiniões sobre “Argo” e não conseguia encontrar ninguém que repartisse meu ponto-de-vista.  Comecei a pensar se eu não estaria equivocado e implicando gratuitamente com o filme. Mas descobri esta semana com certa alegria e alivio que o jornalista Sérgio Augusto, cinéfilo de grande estirpe, tem semelhante opinião, como expressou na sua coluna no “Estado de São Paulo”:

Acompanhamos a crise exclusivamente da perspectiva americana, o que não seria de todo reprovável se os iranianos (“dublados” por turcos) não fossem retratados de forma tão maniqueísta, como uma horda de gente feia, pobre, ruidosa, fanaticamente religiosa e ignorante.

Como os seis diplomatas resgatados pelo agente Tony Mendez na verdade passaram na flauta pela vigilância do aeroporto de Teerã, todo aquele frisson no final foi inventado para criar suspense (de resto inútil para quem sabe como se deu o desfecho) e pôr em cena mais iranianos de má catadura, truculentos e falsamente ladinos

Não é porque sabemos como vai terminar que “Argo” me entediou, até porque um outro filme concorrente, “A Hora Mais Escura” ,também tinha um final de conhecimento pra lá de público e de conhecimento geral, mas em  compensação me deixou ofegante e excitado.

A vitória de “Argo” acaba servindo como uma espécie de reconciliação do cidadão americano essa instituição mítica no seu imaginário, a CIA, que nos últimos anos caiu em certo descrédito e estava com sua imagem desgastada. Isso num ano que tínhamos outro filme que abordava condutas e ações da CIA, o já citado “A Hora Mais Escura”, que começou lá bem no iniciozinho da corrida com uma certa aura de favorito e foi lentamente perdendo fôlego. “A Hora Mais Escura”, embora seja muito mais filme que “Argo”, possuidor principalmente de um roteiro e uma montagem excepcionais e com uma bela atuação da sua protagonista, Jessica Chastain, se desgastou com a série de polêmicas que se viu envolvido. Seu roteirista, Mark Boal, fez uma via sacra por inúmeros programas jornalísticos americanos para defender o ponto de vista do filme das acusações de que defendia a tortura e que teria uma mensagem subliminar de que Bin Laden só foi localizado graças a utilização desse abominável recurso. Tentando entrar no raciocínio dessa “pessoa física” chamada Academia, não era o filme ideal para uma reconciliação com a famosa Agência.

Já “Argo” expressa toda essa virtude e “pureza”, que se fortaleceram com o recibo passado pelo governo iraniano de reprovação ao filme de Affleck. Na verdade, tal reprovação virou quase uma chancela, um inesperado e bem-vindo(para Affleck) selo de qualidade para “Argo”.


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