Premiação Final do Jabuti 2012…e o Famigerado Jurado C


 

Depois de muita controvérsia, na noite de ontem foi dado o ponto final no Jabuti 2012, aonde foram anunciados os 2 principais prêmios que ainda faltavam, as categorias de Melhor Livro de Ficção e Melhor Livro Não Ficção.

Na categoria Melhor Livro de Ficção o prêmio foi concedido para Stella Maris Rezende por “A Mocinha do Mercado Central”, que já havia sido anteriormente anunciado como Melhor Livro Juvenil.

Já na categoria Não-Ficção o prêmio ficou com a jornalista Miriam Leitão por seu livro-reportagem “Saga Brasileira: A Longa Luta de um Povo por sua Moeda”, que já havia sido anunciado como o vencedor na categoria Reportagem, livro que teve ótima repercussão e vendagem relatando toda a longa batalha feita pelos diversos governos pós-ditadura em busca as estabilidade monetária, passando pelos fracassados Planos Cruzado, Bresser e  o confisco da poupança no governo Collor.

Mas o que mais se ansiava com  a entrega dos prêmios é que finalmente o famigerado Jurado C, do qual tanto falamos aqui no Botequim, finalmente estaria livre contratualmente para se pronunciar em relação às polêmicas notas dadas na Categoria Romance, a máxima para “Ninhojin” e zero para Ana Maria Machado. Em depoimento publicado na Folha de São Paulo de hoje, o  Jurado C, cuja identidade secreta é Rodrigo Gurgel(identidade que esse Botequim foi um dos primeiros veículos a levar à público) dá sua explicação para sua nota zero para Ana Maria Machado.

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Depoimento de Rodrigo Gurgel à Folha de São Paulo:

 

A polêmica criada em torno de minhas notas no Prêmio Jabuti deste ano surge de um fato simples: as opiniões nascem de ânimos exaltados -e não da leitura fria e imparcial dos romances.

“Nihonjin”, de Oscar Nakasato, que mereceu nota dez, é narrativa voltada à imigração japonesa no Brasil, sem a pretensão de recuperar o tema com minúcias históricas, mas preferindo transformar dramas individuais ou familiares em sínteses dos conflitos humanos.

O narrador nos leva do que ele diz ser real ao que afirma ser sonho -e, no entanto, confiamos nele; passamos a ver seu sonho como verdade. Isso se deve à forma sutil com que articula e contextualiza diferentes pontos de vista, quebras de continuidade e distintos eixos de tempo.

Em sua busca pelos vestígios da memória, o Japão passa de um esboço desenhado na terra batida, metáfora do que restou aos imigrantes, à certeza, duramente construída, de que jamais se deve beber do Lete, o rio do esquecimento.

Assim, injustiças, inadaptações e preconceitos irrompem de forma aberta ou por meio de inocentes referências, mas sem descair em panfletarismo.

Merecem atenção as personagens femininas: a frágil Kimie, cuja morte desabrocha no transcorrer do Capítulo 1, gradativamente transformado numa elegia. Ou Sumie, mãe ensombrecida. E Shizue, submetida pela tradição, mas capaz de revelar inusitada sabedoria.

O livro encontra sua síntese na afirmação, próxima de uma sentença zen, de que “as palavras não foram inventadas para serem desperdiçadas”. Lição que Nakasato mostrou conhecer.

ANA MARIA MACHADO

Tais faces da persuasão inexistem no romance “Infâmia”, de Ana Maria Machado, no qual cansativas referências -literárias, históricas e bíblicas- surgem não para dar sustentação à trama, mas para referendar teses que se espraiam pelo romance: há uma desprezível “marca brasileira de fazer política”; a mídia age de maneira irresponsável ao denunciar casos de corrupção; o desprezo pela verdade permeia tudo.

Teses que devem ser comprovadas a qualquer preço, ainda que isso signifique tornar o enredo esquemático. Faltam dúvidas às personagens, que emitem julgamentos repetitivos, numa evidente pretensão moralizadora.

E quando percebemos que as possíveis oposições surgem de forma débil e impessoal, então a narrativa se esfacela num didatismo escancarado, nos comportamentos sempre politicamente corretos e no discurso indireto livre que não consegue dar invisibilidade à autora.

NOTA ZERO

Derrotado pelos estereótipos, o romance tem cenas inverossímeis, como a de Agenor afundando-se dias seguidos no lixo da repartição, só para garantir uma coleta seletiva perfeita.

E o tema mais importante, o sentimento de culpa do embaixador Vilhena por não ter compreendido sua filha, transforma-se numa questão secundária.

Ao desprezar a narração de uma história e preferir comprovar suas teses, a autora produziu um romance proselitista. Livro que só poderia merecer nota zero.


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