“Queremos peças que entendam a criança como ser pensante”: entrevista com Rafael Teixeira, curador de teatro infantil do Manouche


 

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Iniciando um novo desafio em sua carreira, o jornalista Rafael Teixeira assume a curadoria de artes cênicas do Clube Manouche, casa de shows localizada no Jardim Botânico. Entre os projetos se destaca a criação de uma programação de qualidade e contínua para o teatro infantil, ocupando o horário da tarde nos fins de semana. Sua meta é fazer do Manouche um espaço de referência, com produções que entendam a criança como ser pensante, dotada de senso estético e capacidade de reflexão.

A nova programação já começa no dia 11 de janeiro com a temporada de um dos melhores e mais premiados espetáculos do segmento infantil nos últimos anos, “Juvenal, Pita e o Velocípede”, com Eduardo Almeida, texto de Cleiton Echeveste e direção de Cadu Cinelli.

A programação infantil também recebera atenção da gestão de Rafael Teixeira, com projetos variados, que incluem leituras dramatizadas, bate-papos com artistas e performances.

Nesta entrevista concedida ao Botequim Cultural, Rafael Teixeira comenta e reflete sobre seus projetos para o Manouche.


Rafael Teixeira, novo curador de artes cênicas do Clube Manouche, com o filho Joaquim

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BC: – O Clube Manouche é conhecido como uma casa de shows. Quais motivos o levaram a se abrir para o teatro infantil?

RT: – Embora seja, de fato, mais conhecido pelos shows, que ocupam a maior parte da programação, o Manouche tem se notabilizado, desde a sua abertura, por um ecletismo interessantíssimo em suas atrações. Assim, as artes cênicas já marcaram presença na casa em seus quase dois anos de existência, mas de forma relativamente esporádica. No que diz respeito ao teatro infantil, o que aconteceu agora foi uma feliz confluência de interesses. De um lado, a Alessandra Debs, diretora artística do Manouche, animada com as ótimas experiências pontuais do Manouche com teatro infantil, vinha pensando em estabelecer uma programação mais regular. De outro, eu vinha observando de longe essas investidas do Manouche no teatro infantil, e achei que havia ali um campo fértil para desenvolver essa programação. Como se diz popularmente, juntou-se a fome com a vontade de comer.

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BC: – Justamente por ter sido concebido como casa de shows, existe no Manouche uma formatação diferente da que convencionalmente se utiliza para o teatro. Como você vislumbra essa acomodação dos espetáculos teatrais nesse espaço físico?

RT: – O Manouche é uma casa, digamos, minimalista: pequena, intimista, charmosa, sofisticada. No que diz respeito ao teatro, porém, a questão nem é o tamanho reduzido do palco, que em si não seria um problema, mas a inexistência de urdimento, de coxias. Enfim, não há aquele espaço típico de uma caixa teatral para além do que o público vê no palco e que também é normalmente utilizado nos espetáculos. O que poderia ser visto como uma limitação, porém, nós entendemos como uma característica da qual devemos tirar proveito. Como fazer isso? Buscando peças que prescindem desse aparato, que sejam minimalistas como o Manouche. Essas peças existem e não deixam nada a dever em relação a espetáculos grandiosos. Muitas delas, aliás, são ainda mais interessantes.

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BC: – Por vezes, pode levar tempo para um espaço começar a ser reconhecido como centro de um teatro infantil de qualidade e se tornar um polo natural de atração desse público. Como você está projetando essa sedimentação do Manouche nesse segmento e que estratégias pretende adotar para alavancar um reconhecimento da classe teatral e do público?

RT: – A estratégia, se é que essa palavra cabe, não poderia ser mais simples: entregar ao público o melhor do teatro infantil. Na minha primeira reunião com a Alessandra, diretora artística do Manouche, ela disse: “Eu gostaria que a gente trouxesse apenas peças que formassem cidadãos melhores.” Foi como música para os meus ouvidos. Parece um clichê, mas a ideia é realmente transformar o Manouche em espaço de referência no que há de melhor no teatro para a infância e a juventude no Rio de Janeiro. Você pergunta como eu projeto essa segmentação, e eu respondo com a maior sinceridade que eu não tenho uma projeção muito acurada. O Manouche tem, digamos, uma vantagem, que é a de nunca ter tido antes uma programação efetivamente regular de teatro infantil, o que nos permite formar um público do zero. É uma folha em branco. Quando tempo vai levar para sedimentar esse público? Não sabemos, mas estamos dispostos a trabalhar o quanto for preciso até que isso aconteça.

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BC: – Que experiências da sua passagem pela curadoria do Teatro Fashion Mall você pretende utilizar no Manouche?

RT: – Essa é uma pergunta curiosa, porque, embora o meu trabalho no Manouche tenha diversos pontos em comum com o que fazia no Teatro Fashion Mall, por outro lado eles não poderiam ser mais distintos, considerando o perfil de espetáculos de cada palco. Tive uma experiência curta, mas altamente enriquecedora no Teatro Fashion Mall. Ali aprendi como se dá esse flerte com as produções, esse processo de conquista para levar um espetáculo para o seu palco. Aprendi que para cada teatro há um certo perfil intrínseco, uma espécie de alma, de índole, que se estabelece de antemão em função de diversos fatores, mas que, com esforço e determinação, é possível moldar esse perfil de forma a oferecer o melhor para o público.

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BC: – Embora você ainda seja reconhecido como crítico daquilo que poderíamos denominar “teatro convencional”, você atuou durante muito tempo dentro do jornalismo com teatro infantil. O que significa para você esse retorno?

RT: – Fui responsável pela cobertura de teatro infantil durante alguns anos no caderno de programação do jornal O Globo. Ali eu fui fisgado, ao perceber que o teatro infantil de excelência era capaz de tocar o espectador da mesma forma que o teatro adulto de excelência. Às vezes, eu assistia espetáculos concebidos para crianças que eram tão sofisticados quanto peças adultas – ou até mais. O que acontece é que existe um oceano de montagens infantis horrorosas em cartaz, porque há um entendimento amplamente disseminado, embora distorcido, de que a criança aceita qualquer coisa. E, por uma série de fatores que não cabe aqui mencionar, essas peças têm público, e muito. Para mim, esse retorno é uma oportunidade de fazer algum peso no outro lado da balança, de despertar no público a mesma sensação que eu tive anos atrás, quando descobri a força do teatro infantil. E quando me refiro ao público, quero dizer não apenas as crianças, mas também – e especialmente – os adultos.

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BC: – Que critérios você pretende estabelecer na seleção dos espetáculos infantis?

RT: – Acho que, de alguma forma, já respondi a essa pergunta anteriormente. Se fosse para detalhar mais, diria que o critério é o seguinte: queremos peças que entendam a criança como ser pensante, dotado de capacidade reflexiva e senso estético. Ou, falando de um ponto de vista muito pessoal, olho para o Joaquim, meu filho de pouco mais de 1 ano, que entrou numa sala de teatro pela primeira vez com apenas 2 meses (na foto acima), e me pergunto: que peças eu gostaria que ele assistisse ao longo da sua infância?

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Eduardo Almeida em “Juvenal, Pita e o Velocípede”, foto Renato Mangolin

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BC: – Iniciar sua curadoria com um espetáculo já reconhecido e premiado como “Juvenal, Pita e o Velocípede” serve para estabelecer os parâmetros de qualidade que pretende utilizar?

RT: – Sim, estrear com uma peça tão incrível é um cartão de visitas da curadoria. É como dizer: é esse nível de qualidade que queremos. Cheguei a buscar um espetáculo inédito para esse pontapé inicial, o que acabou não sendo possível, mas não vejo isso como um revés justamente porque a excelência de “Juvenal, Pita e o Velocípede” ultrapassa qualquer vantagem que um ineditismo poderia trazer.

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BC: – Quais expectativas você espera para esse novo ciclo que se inicia, tanto para você, quanto para o próprio Manouche?

RT: – As melhores possíveis. Espero que seja uma parceria frutífera, que resulte não apenas em coisas boas para mim e para a casa, mas para a cena teatral carioca como um todo. Estamos começando esse trabalho com o teatro infantil, mas a ideia é ampliar o escopo com o tempo, investindo também em espetáculos adultos e em eventos variados relacionados às artes cênicas.

Juvenal, Pita e o Velocípede – Foto: Renato Mangolin

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