Reestreia: Uma Carta Perdida


 

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Por Renato Mello.

Uma boa notícia recebida durante a semana foi a reestreia de “Uma Carta Perdida”, comédia de costumes com tons políticos do autor romeno Ion Luca Caragiale, dirigida por Daniel Belmonte a partir de uma adaptação do próprio diretor em parceria com Adriano Martins.

O espetáculo será apresentado no Teatro Ipanema, Rua Prudente de Moras 824, numa temporada que irá do dia 10 até 26 de abril.

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Uma Carta Perdida” foi uma das mais agradáveis surpresas que tive no ano passado, inclusive acabou sendo indicada ao Prêmio Botequim Cultural na categoria de Melhor Autor.

Trata-se uma peça inédita no Brasil e foi montada pelo esforço pessoal de ex-alunos do Tablado, que utilizaram-se do expediente do financiamento coletivo para levantar a verba necessária e colocar de pé o espetáculo. Os atores tomaram conhecimento do texto através do acervo de livros doados aos alunos do Tablado após a morte do professor de teatro Bernardo Jablonski. Alguns atores desse elenco tive a oportunidade de assistir posteriormente em outros bons trabalhos, o que só aumentou minha admiração por esses artistas, como foi o caso de João Sant’Anna numa atuação excelente no infantil “A Bruxinha que Era Boa“, além de Adriano Martins e André Dale em “Peça Ruim“, também dirigida por Daniel Belmonte.

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Reproduzo abaixo trechos da crítica que fiz sobre o espetáculo quando tive a oportunidade de assisti-lo em sua primeira temporada(o texto na íntegra pode ser lido AQUI):

Embora a peça tenha sido escrita em 1884 e se ambientar na Romênia dessa época, encanta por sua atemporalidade, pois é possível se identificar de imediato com o teatro que assistimos diariamente nos bastidores de qualquer prefeitura ou assembleia por esse Brasil afora. O texto de Caragiale(adaptado por Daniel Belmonte e Adriano Martins) alcança com maestria a síntese e a crítica abrangente aos costumes políticos e familiares. Situou sua trama na eleição da câmara romena de 1883, que tinha como finalidade emendar a Constituição e a Lei Eleitoral, numa luta pelo poder em que as partes antagônicas usavam todo e qualquer tipo de arsenal à disposição para manter a “ordem pública”. Todo esse jogo ocorre em 4 atos a partir de uma carta de amor extraviada, tomando proporções desastrosas para a reputação de figuras importantes daquela sociedade.

O trabalho de encenação de Daniel Belmonte merece ser destacado. Além da ótima direção de atores e da construção de belas cenas, agradou-me em especial o ritmo impresso à montagem e a maneira como tirou proveito de todos os cantos do Teatro Café Pequeno, criando uma movimentação para o elenco que deixava o público em permanente atenção. Utilizou de maneira interessante em determinados momentos o recurso dos atores se misturarem em meio à plateia, fazendo o espectador se sentir como um membro da Assembleia Legislativa e das suas discussões.

Adriano Martins é sem dúvida o que mais chama a atenção como o Prefeito Tipanesco, numa atuação que leva o público às gargalhadas com o seu tipo burlesco e patético. Adriano em cena é garantia de belas risadas permanentemente. Num registro diferente, André Dale também se destaca como Nae Catzavenco, o advogado e jornalista de grande habilidade demagógica, criativo, mestre da arrogância e das intrigas, não medindo esforços para chantagear e falsificar sob a pele de um idealista honesto. André Pellegrino tem uma composição muito bem conduzida, inclinando-se entre uma fragilidade do medo que paralisa e a necessidade de achar forças para encontrar uma saída sensata para o furacão que o ameaça.  Mesmo os papeis não protagônicos apresentam boas atuações, fundamentais para que o trio de atores citados(Martins,Dale e Pellegrino) consigam render de maneira tão satisfatória. O figurino de Anouk van der Zee, Raquel Dimantas e Marianna Pastori é um belo achado, que ajudam não só na distinção da personalidade de cada personagem, como são responsáveis, nos pequenos detalhes, por realçar algumas características de composição e ainda consegue brincar ironicamente com os contrastes, como os tipos vividos por João Sant’Anna e Daniel Zumbrinsky. Outro acerto, que não pode ser omitido é a minuciosa pesquisa musical feita por Rodrigo Miravalles.

Uma Carta Perdida” é um caso de que o sincero amor ao teatro pode perfeitamente andar junto com a qualidade e sem ser usado como desculpas por eventuais falhas. Trouxe um grande autor desconhecido dos palcos brasileiros, numa bela montagem conduzida com competência.

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Uma Carta Perdida
Texto de Ion Luca Caragiale adaptado por Daniel Belmonte e Adriano Martins
Direção: Daniel Belmonte
Teatro Ipanema – Rua Prudente de Moraes, nº 824. Ipanema.
Sextas, Sábados e Domingos- 20h
Temporada- De 10/04/2015 a 26/04/2015
Duração:1h10
Preço: Inteira 40,00/Meia 20,00
Classificação: 12 anos

Ficha Técnica:
Texto: Ion Luca Caragiale
Adaptação: Adriano Martins e Daniel Belmonte
Direção: Daniel Belmonte
Elenco: Adriano Martins, Alexandre Duvivier, André Dale, André Pellegrino, Érida Castello Branco, Rodrigo Miranda, João Sant’Anna, Pedro Tomé e Rodrigo Arruda.
Iluminação: Felipe Lourenço
Figurino: Anouk Van Der Zee
Assistente de figurino: Marianna Pastori e Raquel Dimantas
Cenografia: Julia Marina
Ass. de cenografia: Julia Schnitman
Cenotécnica: Uelington Duque e Fabiano Nunes
Diretor de arte: Colmar Diniz
Visagismo: Marianna Pastori
Trilha Sonora: Daniel Belmonte
Chapeleira: Lund chapéus
Operador de Som: Tiago Chaloub
Operador de luz: Pedro Cadore
Supervisão de Produção: Marcela Casarin
Produção Local: Kamilla Barcellos
Produção: Mãe Joana Filmes e Produções
Design gráfico: Victoria Scholte


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