Revivendo Copacabana


 

Foram mais de 30 anos vivendo dentro dos limites daqueles 7 km2, me dando uma sensação de pertencimento, quase propriedade, sobre aquela geografia. Sentia-me íntimo de cada pedrinha portuguesa de suas calçadas, de cada galeria, cada loja e mesmo de algumas pessoas com quem nunca havia trocado uma única palavra. Três décadas de bairro faz a gente se sentir uma testemunha ocular da história, lembrando os detalhes de cada esquina, das transformações e das paisagens hoje já inexistentes.

Me sinto quase uma donzela falando isso, mas só saí de Copacabana para casar. Transferi o eixo de minha vida para o circuito Gávea-Leblon de maneira tão efetiva que além de residir, ali tenho meu trabalho, colégio de minha filha, cinemas e teatros que frequento, médicos, restaurantes e botequins. Raríssimas são as ocasiões que tenho algo para fazer fora dali. Adaptei-me bem, transformando Copacabana apenas em uma remota lembrança, só retornando para visitar minha mãe ou ao parar na emergência do Copa D’Or, na verdade, inconscientemente era como se estivesse negando minhas origens e meu passado. Copacabana não me pertencia mais.

Mês passado voltei a passear um pouco pelo bairro, meio que  na condição de um flâneur e foi como reviver todo meu passado, os cheiros, as pessoas, os tropeções no calçamento irregular, a multidão ensandecida, sua miséria, seu esplendor. Ia como um cicerone da Adriana, mostrando-lhe “minha cidade”, seus detalhes pitorescos e lembrando-me o quanto ali fui feliz, encanto caminhava pelas ruas do Bairro Peixoto.

Foi muito bom rever o velho Rian com seus antigos garçons, a mesma comida farta com os mesmos preços honestos. Lá estava o Braga, cearense, cabeça grande já inteiramente grisalha, garçon que me serve desde que sou criança. – E aí Braga, 50 anos de casa? – Não, não, só 40. Posso passar 10 anos sem ir ao Rian e mesmo assim nem preciso fazer o pedido, o Braga já sabe o que quero. Jantei como um rei.

Sigo pela Santa Clara e paro na The Bakers. O que impressionam são a qualidade e as fatias generosas de seus doces e pães. Enquanto o saboreava, me vinha à cabeça aquelas ridículas eleições feitas pela imprensa Zona Sul e artistinhas badaladinhos apontando e elegendo sempre os mesmos lugares como os melhores do Rio, sem nunca saírem mais do que 2 km do Leblon, tais como Talho Capixaba, Kurt e Chez Anne. A The Bakers coloca todos esses no chinelo.

Me dá um nó no peito a ver que a Suprema não mais existe. Quantas vezes saí de minhas aulas no IBEU para um pit stop obrigatório na Suprema aonde comprava 100 gramas de pasteizinhos de queijo e ia comendo pela rua à caminho de casa. Assim como a Casa Mattos, o Gordon(que saudades do Diabólico), a Colombo e nem os paqueras na porta da Barbosa Freitas mais existem, já morreram todos. A Modern Sound foi-se, assim como todas as lojas de discos, cassetes, CDs e afins. Mas dessa última não sinto lá muita falta, sempre achei seus preços um assalto.

Mas o Cirandinha felizmente ainda está firme e forte, com seus sanduíches deliciosos e lanches que eu devorava sentado no balcão. Às cinco horas chegavam as senhorinhas, sentavam nas mesas para apreciar chás servidos em lindos bules de prata, fartamente acompanhados de pães, torradas, geléias. Aonde ainda podemos encontrar isso?

A Galeria Menescal continua linda, mais de 60 anos com suas paredes revestidas de mármore, com relevo em estilo art-decó. Adriana parecia uma turista encantada olhando aquelas lojinhas de presentes, utilidades  e produtos chineses. Para mim a infância e adolescência reapareceu ao ver a Baalbeck com seu balcão apinhado de gente no final da tarde, há décadas a multidão segue se espremendo ali para comer as esfiras que acabaram de sair do forno.

O fraco de Adriana é definitivamente uma galeria, o mesmo deslumbramento aconteceu na Galeria Joia, com lojas do mesmo estilo da Menescal. Entramos no infindável e diminuto cine Joia para vermos um lindo filme iraniano, no mesmo lugar aonde minha mãe me levava para ver sessão passatempo(os mais novos não têm a mínima idéia do que estou falando) e filmes do Jacques Tati. O Joia resiste, assim como o Roxy, mas já se foram o Condor, Copacabana, Bruni, Ricamar, Rian, tantos.

Seus pequenos comerciantes ainda sobrevivem em meio as grandes lojas e as complexas relações comerciais dos tempos atuais. Me surpreendo que a Kayat ainda existe no mesmo ponto na Figueiredo Magalhães, mínima, com 2 irmãos turcos permanentemente atrás do balcão, aonde comprei todas minhas bolas de futebol. O mesmo para o Shopping dos Antiquários, aonde se é possível encontrar qualquer coisa que se possa imaginar, do prego a um quadro perdido num canto de Ismael Nery, sem contar que agora conta com um novíssimo Teatro Tereza Raquel,  depois de anos entregue à Igreja Universal, reformado, lindíssimo, um teatro de verdade, com uma programação intensa, dando um banho nesses teatrinhos que tenho frequentado na Gávea e no Leblon.

Na volta, com Adriana encantada com esse universo paralelo que é Copacabana, me soltou:  – Como é mesmo o nome daquela ruazinha da Galeria Joia? – Avenida Nossa Senhora de Copacabana, Adriana, Nossa Senhora de Copacabana!!!!

Definitivamente, Copacabana ainda me encanta.


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