Série de Entrevistas: O Jornalismo na Literatura Nacional – 1.Mário Magalhães


 

 

O Botequim Cultural inicia hoje a uma série de 4 entrevistas com alguns dos mais notáveis jornalistas brasileiros e responsáveis por exitosos trabalhos editados em 2012. Hoje, o jornalista Mário Magalhães abre a série nos falando do seu livro “Marighella, O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo“, biografia o mítico líder guerrilheiro Carlos Marighella,  lançado pela Companhia das Letras,  que alcançou grande repercussão em 2012, ocupando seu espaço na lista dos mais vendidos e premiado pela APCA.

A série continuará nos próximos dias com Klester Cavalcanti, Leonencio Nossa e Mauro Ventura.

 

   BC:   Analisando o mercado editorial brasileiro em 2012, um fato chama a   atenção: Raros autores nacionais de ficção tiveram repercussão e nenhum teve êxito comercial. Em compensação foi um ano em que tivemos importantes trabalhos feitos por jornalistas, como Flavio Tavares, Laurentino Gomes, Lira Neto, Mauro Ventura, Leonêncio Nossa, Klester Cavalcanti, o seu livro, entre outros.  O escritor Bernardo Carvalho disse em recente entrevista que “a ficção está em baixa”. Estaria o público brasileiro procurando à realidade em detrimento da ficção?

MM: Será mesmo que nenhum ficcionista nacional teve “êxito comercial”? Livros de qualidade de ficção foram lançados, sem dúvida, como os de Fernando Molica (“O inventário de Julio Reis”) e Xico Sá (“Big Jato”). As pessoas gostam de boas histórias, bons personagens e boas narrativas, sejam ficcionais ou não. Há numerosas histórias de não ficção que, de tão espetaculares, parecem ter sido inventadas. Na biografia “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo”, foram publicadas 2.580 notas sobre fontes, creditando a origem das informações importantes e interessantes. Um dos motivos foi evidenciar que, por mais incríveis que sejam os fatos contados, o relato é escrupulosamente baseado na realidade, e não na imaginação. A realidade é tão fascinante que às vezes parece mesmo ficção e não fica nada a dever a esta.

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BC: Entre os trabalhos citados, podemos subdividi-los em biografias, livros de história, trabalhos feitos através de experiências pessoais, vastas pesquisas e livros de memórias. O que leva um jornalista utilizar seu tempo para publicar um livro? Certamente não é financeiro. Vaidade ou Idealismo?

MM: No meu caso, foi um suicídio financeiro, do qual não me arrependo. O que me motivou a investir nove anos no livro, dos quais cinco anos e nove meses em dedicação exclusiva, foi a paixão pelo jornalismo, sobretudo pelo gênero jornalístico da reportagem. Ao contrário da literatura, em cujas técnicas se inspira para construir narrativas mais sedutoras, o jornalismo é na essência um serviço público. Eu queria contar uma história cativante e relevante, e ao mesmo tempo contribuir para que nós brasileiros conheçamos melhor a história que por tanto tempo tentaram esconder. 

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BC: Como começou o processo de escrever “Marighella”? Você queria escrever um livro e buscou um tema ou encontrou um tema e achou que daria um belo livro?

MM: Em 2003, eu tinha 39 anos. Antes de completar 40, queria mergulhar numa reportagem sem as amarras de tempo e espaço próprias de uma redação de jornal. Ou seja, precisava de tempo para apurar e de espaço para narrar. Decidi contar a história de uma vida e encontrei em Carlos Marighella um personagem trepidante, goste-se ou não de sua trajetória e dos valores pelos quais ele lutou.

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BC: Ruy Castro declarou que “É muito melhor biografar morto do que vivo. Porque o biografado vivo vai mentir para você, e ainda vai atrás de outras pessoas para fazerem elas mentirem para você também. Os mortos não mentem, você só tem que lidar com os herdeiros dele“. Mas biografar um morto também tem seus desafios, a memória é traiçoeira. Há entrevistados que amplificam seu papel e outros que fazem o oposto. Visões ideológicas antagônicas. Como se equilibrar diante desses obstáculos?

MM: Para um biógrafo, como para qualquer repórter, o ceticismo constitui uma qualidade imprescindível. É preciso cotejar todas as fontes possíveis para alcançar a síntese mais próxima da realidade. Às vezes, até fontes com interesses antagônicos contam os fatos da mesma maneira, e ambas estão erradas. Um exemplo: uma senhora muito próxima a Marighella descreveu em detalhes a atuação dele na sessão da Câmara de 7 de janeiro de 1948, quando foram cassados os mandatos dos deputados comunistas. Em 1979, um eminente jornalista, com aversão a Marighella, evocou o episódio de 1948, repetindo a versão da senhora. Para ela, Marighella tinha sido um herói na sessão. Para o jornalista, um baderneiro. Sabe qual é a verdade? Marighella não participou daquele evento. Estava afastado da Câmara havia mais de uma semana, como recordaram amigos e consta de jornais de todas as inclinações políticas e dos anais da Câmara. O confronto obsessivo entre versões é essencial para reconstituir o passado como de fato ele ocorreu.

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BC: Em relação à documentação que você utilizou na pesquisa de “Marighella”, como você lidou com a dificuldade das fontes oficiais, que em sua maioria são confidenciais ou manipuladas?

MM: Busquei informações em arquivos públicos e privados de todo o mundo. É preciso confrontar documentos e testemunhas. Um exemplo de documentos confidenciais que contam a história: o laudo da necropsia do guerrilheiro Virgílio Gomes da Silva, morto sob tortura na Operação Bandeirante, em 1969. Virgílio foi o primeiro “desaparecido político” na ditadura instaurada em 1964. O governo jamais reconheceu que o prendera. Pois nos arquivos da polícia política paulista eu descobri o laudo, prova de que não só haviam detido o militante, mas das condições em que seu cadáver chegou ao necrotério. Encontrei esses papéis, junto com fotos de Virgílio morto, no Arquivo Público do Estado de São Paulo.

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BC:  Escrever uma biografia é quase um trabalho insano. Entrevistas, arquivos, viagens, etc. É possível um jornalista conciliar sua atividade como escritor com a extenuante rotina de uma redação?

MM: Só posso falar por mim: não. Pelo menos para compor uma biografia como a de Marighella, com 256 entrevistados (alguns em várias sessões, somando dezenas de horas de gravação), cerca de 70 mil páginas de documentos consultadas, leitura criteriosa dos 600 títulos da bibliografia e um tempo ainda maior dedicado à redação do livro.

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BC: Existe algum projeto de levar “Marighella” para o cinema?

MM: Já recebi quatro sondagens para a venda dos direitos de adaptação do livro para o cinema.

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BC: O exercício da escrita faz parte do cotidiano de todo jornalista. Nunca desejou escrever ficção?

MM: Não, porque a realidade já me inebria o bastante. Além do mais, infelizmente, não tenho o mais remoto talento para escrever ficção.

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BC:Existe no momento uma polêmica no meio acadêmico sobre a entrada de jornalistas no terreno da história. Qual sua opinião?

MM: Jornalistas contam história e histórias há muito mais tempo do que se imagina. Penso que, para contar a história, os jornalistas têm muito a aprender com os historiadores, e estes têm muito a aprender com os jornalistas. Em “Marighella”, a narrativa é tipicamente jornalística. Já a preocupação com a transparência sobre as fontes se inspira no rigor acadêmico.

 

BC: Apesar de pouco tempo de lançamento você já ganhou o importante prêmio da APCA. Para que servem os prêmios?

MM: O reconhecimento pelo trabalho feito me revigora, para encarar o próximo. Sou muito grato à generosidade de todos que têm sido tão carinhosos comigo e com a biografia “Marighella”.

 


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