Série de Entrevistas: O Jornalismo na Literatura Nacional – 2.Leonencio Nossa


 

Hoje publicamos a 2ª entrevista da nossa série sobre o Jornalismo na Literatura Nacional. Leonencio Nossa generosamente disponibilizou seu tempo para responder algumas perguntas do Botequim Cultural. Autor de um dos livros mais interessantes de 2012, “Mata!, o Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia“, editado pela Companhia das Letras, o premiado jornalista Leonencio Nossa faz  um relato contundente, fruto de extensa pesquisa em inéditos documentos sobre um período ainda coberto de obscuridade a partir de um perfil biográfico do lendário e controvertido Major Curió, um temido agente da repressão, associado com  a mítica Guerrilha do Araguaia.

 

BC:  Os livros nacionais que tiveram maior repercussão no mercado editorial brasileiro em 2012 foram trabalhos feitos por jornalistas, sejam biografias, livros de história, memorialistas e como no caso do seu livro, resultado de uma extensa pesquisa. O público brasileiro estaria em busca da realidade e da sua própria historia em oposição à ficção?

LN: É num bom livro, de ficção ou não-ficção, que podemos compreender a nossa realidade e a nossa história. Na condição de leitor, vejo que alguns ficcionistas da nova geração pregam como uma virtude o distanciamento do debate sobre a realidade brasileira. Esse distanciamento não deve ser visto como um valor, mas uma opção de cada escritor, da ficção ou da não-ficção.

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BC: Para escrever “Mata!” você dispendeu longos anos, fez várias viagens à região do Araguaia por conta própria, gastou dinheiro do próprio bolso. O que leva um jornalista com uma extenuante rotina jornalística em utilizar seu tempo vago para escrever um livro? Como você concilia o trabalho na redação com a concepção de um livro?

LN: Para ser franco, não vejo uma conciliação possível entre o trabalho de escrever um livro e a vida na redação. É preciso, especialmente nos projetos de livros de fôlego, ter uma uma rotina espartana. Não é possível fazer um livro sobre uma tragédia da proporção da guerrilha do Araguaia sem prejudicar a vida pessoal. É necessário fazer adaptações na vida diária para realizar um projeto. O trabalho, porém, precisa proporcionar alegria.

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BC: Por que sua escolha em fazer um livro sobre a guerrilha do Araguaia e o Major Curió?

LN: É um assunto que conheci no tempo da faculdade de jornalismo em Vitória e, à primeira vista, me fascinou. Eu gostei da história da guerrilheira Áurea Elisa, estudante de física da UFRJ executada em 1974. Com o tempo, tive a certeza que o Araguaia poderia mostrar de uma forma perturbadora o tempo presente. O combate à guerrilha foi a negação máxima do diálogo, a ausência da política.

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BC: Como conseguiu convencer uma figura tão controvertida como o Major Curió a abrir seus arquivos para você?

LN: A abertura do arquivo ocorreu ao longo de dez anos, diante das questões que eu apresentava.

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BC: Como é possível ganhar a confiança do Major Curió e ao mesmo tempo tentar ser imparcial na história que você estava relatando?

LN: Desde o primeiro contato com o agente, ainda em 2002, no Pará, eu deixei claro que faria um livro imparcial, citando todas as denúncias. Um trabalho jornalístico requer transparência. Não era possível seguir outro caminho. Não suporto o jornalismo da “pegadinha”, da “esperteza”. 

 

BC: Poucos tiveram a oportunidade de se aprofundar “in loco” como você num assunto que até hoje levanta tanta controvérsia quanto a guerrilha do Araguaia. Como você vê a atuação da Comissão da Verdade para apurar o que de fato ocorreu ali?

LN: Ainda não há uma decisão política da presidente Dilma Rousseff em abrir os arquivos dos centros de inteligência das Forças Armadas, o que realmente interessa nessa história. Quanto ao Araguaia, é um tema que vai além do debate sobre a ditadura ou da formação de uma comissão para investigar um período específico da história. A região ainda vive formas diversas de autoritarismo e repressão. O governo mantém hoje 4 mil militares na área do Sul e Sudeste do Pará. É um número superior ao de agentes usados na repressão à guerrilha. Não sei o motivo de manter a tropa lá. O Araguaia não é rota de tráfico ou área de fronteira. Ao mesmo tempo, faltam escolas e cursos profissionalizantes para uma geração ansiosa em entrar no mercado de trabalho. Outra questão é a exploração mineral. É incrível, mas Serra Pelada, o lendário garimpo, está sendo explorada por uma empresa que montou um esquema de corrupção e violação de direitos humanos, com a cumplicidade de um ministro do atual governo. Por lei, a lavra é dos garimpeiros. O crime contra a população civil no Araguaia continua.

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BC: Como você sentiu a receptividade e a repercussão do seu livro? Você não ficou com a sensação de que houve em determinados meios um certo pudor em falar do livro, por acharem, erroneamente, que você estaria dando voz a um importante agente da repressão?

LN: Aos poucos, as pessoas vão perceber que “Mata!” é um mosaico de 150 visões sobre o Araguaia. Uma boa parte dos entrevistados mora na região, é gente simples. O livro é a voz do garimpeiro, do barqueiro, da mulher de cabaré. Talvez levará mais tempo para um livro que mostra o protagonismo de brasileiros  anônimos ganhar a simpatia de certos setores da sociedade. O Brasil que se veste de moderno ou progressista não aceita um retrato da ditadura feito por uma mulher que bate ponto nos inferninhos do interior. O processo de divulgação do livro me mostrou que o país ainda é dividido entre o litoral e o sertão, como escreveu Euclides da Cunha. É muito difícil para grupos das grandes cidades que dizem defender os direitos humanos reconhecer a importância do ribeirinho, do homem da mata. Você já viu um desses ativistas de direitos humanos que sempre são ouvidos pela imprensa defender a população civil do interior vítima da ditadura? Quando lancei o livro, recebi um convite para participar de uma feira literária juntamente com um colega que escreveu outra obra sobre o regime militar. Dias depois, descobri que um conhecido grupo de direitos humanos mandou uma carta sigilosa à organização do evento para criticar minha presença. Fiquei incomodado, pois me preparei para debater cada linha que escrevi sobre o Araguaia. Um escritor, no entanto, deve aceitar as atitudes das pessoas e das organizações, ainda que não sejam posições transparentes, apresentadas de forma clara. Isso é o que menos importa. O escritor deve estar atento, na verdade, para debater com o tempo. O desafio maior é enfrentar o julgamento do tempo. Por outro lado, fui recompensado pelo carinho de parentes de guerrilheiros e de moradores do Araguaia durante a divulgação do trabalho. Desconfio que o tempo vai gostar do meu livro

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BC: Como jornalista você trabalha com a realidade e com a busca da verdade. Nunca pensou em partir para a ficção?

LN: É estranho. Desde menino, acredito que a ficção é o único instrumento narrativo capaz de revelar a nossa verdade interior. Isso é um problema de formação mesmo… rs… Eu não tenho condições de enfrentar a ficção. Para mim, a ficção é pesada demais, escancara a história, abre um abismo. Por isso, prefiro continuar no campo da reportagem, expor a verdade dos outros, que, aliás, é mais interessante que a minha.

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BC: Está trabalhando em algum novo projeto literário nesse momento?

LN: Termino até o final deste mês um livro sobre 12 conflitos liderados por pessoas simples. O livro será publicado neste ano.

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BC: Há nesse momento uma certa polêmica sobre a entrada de jornalistas, como o Laurentino Gomes,  Eduardo Bueno, Pedro Doria, Domingos Meirelles na seara dos historiadores. Qual a sua opinião?

LN: Eles não entraram na seara dos historiadores, mas na seara da história. Textos leves, profundos, conhecidos ou reveladores têm importância no processo da construção da memória. Não vejo problema de um veterinário ou jogador de futebol escrever um livro de história. É o conjunto de visões diferentes que realmente vai nos dar a dimensão do tempo vivido por um país. Como qualquer outro profissional, o jornalismo também pode produzir história. A reflexão sobre o tempo passado e presente não é exclusividade de uma classe. Recentemente, achei graça de uma iniciativa da USP em estreitar os laços entre jornalistas e historiadores. No programa do evento, os organizadores classificaram os jornalistas de “divulgadores” de história. Não é por aí que vamos acabar com esse debate inócuo. Quando aprofunda uma discussão, sistematiza informações e apresenta visão nova sobre um assunto, o jornalista produz história. Assim como o historiador faz apenas uma divulgação da história quando apresenta um tema de forma informal e leve num artigo de revista, com intuito louvável de popularizar um tema. Temo que esse debate esconda um desafio: o profissional formado na faculdade de história precisa ser valorizado, pois ele é essencial para o desenvolvimento do país.


Palpites para este texto:

  1. Adorei a entrevista, Leonencio continiu a escrever realidades…assim você ajuda muito a construir a historia do nosso país, que é tão escondida e desconhecida.

  2. É verdade, Eliana. O trabalho feito pelo Leonencio é fundamental para levar ao conhecimento geral fatos de momentos ainda obscuros da história recente do país. Ainda mais agora em que temos uma Comissão da Verdade tendo que lutar contra certas forças que não querem que a verdade venha a tona.

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