Série de Entrevistas: O Jornalismo na Literatura Nacional – 3.Klester Cavalcanti


 

O jornalista Klester Cavalcanti é o 3º entrevistado da série “O Jornalismo na Literatura Nacional”. Ganhador de importantes prêmios, entre eles o Natali Prize,  o Vladimir Herzog de Direitos Humanos, além de ter conquistado 2 vezes o Prêmio Jabuti(pelos livros “Viúvas da Terra e “O Nome da Morte”), o mais importante da literatura nacional, Klester fala para o Botequim Cultural da sua experiência para escrever seu último livro “Dias de Inferno na Síria”, aonde em pleno campo de batalha acabou preso e torturado. Sua experiência em meio a um país destruído por uma guerra civil e numa cela de prisão de um país estrangeiro acabaram por ser o propulsor para a elaboração de um dos mais contundentes livros lançados em 2012 no mercado editorial brasileiro.

 

Booktrailer:”Dias de Inferno na Síria”
 

O público carioca que tiver interesse em se aprofundar no trabalho de Klester Cavalcanti terá  uma ótima oportunidade no dia 4 de abril na Casa do Saber, na Lagoa, aonde Klester dará uma palestra. Mais informações neste LINK.

Entrevista:

BC: Em 2012, nenhum livro de ficção de autor nacional teve sucesso, seja de venda, seja de repercussão. Ao contrário desse cenário, vários livros com conteúdo jornalístico tiveram grande representatividade. A que você atribui a isso? O público estaria atrás de realidade?

KC: Essa pergunta deveria ser direcionada aos editores, eles saberiam responder melhor que eu. Mas livro no Brasil, de uma forma geral, os livros de não ficção sempre tiveram maior êxito que livros de ficção. Isso acontece mesmo em outras áreas, no cinema por exemplo, se você olhar os filmes que ganharam o Oscar nos últimos tempos, a maioria  deles foi adaptada de histórias reais. O ser humano tem preferência por histórias reais, pela não ficção. Vai continuar sendo assim.

.

BC: Quando você partiu para a Síria para fazer uma matéria para a “Isto é”, já havia uma ideia de escrever um livro ou a sucessão dos acontecimentos acabaram por te levar ao livro?

 KC: Não ia fazer livro não. Eu ia para a Síria para fazer uma matéria e acabou acontecendo situações que me fizeram escrever o livro. Sou o único jornalista brasileiro que foi a Homs e o único do mundo que foi a Homs com visto de imprensa e saiu para contar história. Se eu não tivesse ficado preso 1 semana não teria material para o livro. São as pessoas com quem convivi que transformaram o livro em algo interessante. Se dentro da prisão um cara que falasse inglês, Ammar, e traduzisse o que eu falava, permitindo minha comunicação, não haveria o que contar.

.

BC: Num conflito, como se faz para achar o tom equilibrado diante da guerra da comunicação travada pelos 2 lados do conflito, mantendo uma imparcialidade diante dos fatos?

KC: O fundamental era ver pessoalmente. Eu via nas matérias sobre o conflito que as notícias não podiam ser checadas porque não foi permitida a entrada de jornalistas. Como jornalista eu acho isso vergonhoso, por isso eu fui lá. Você percebe em contato com os lados opostos do conflito se o cara está sendo tendencioso, por isso é importante a presença dos jornalistas no local. Quando você está no lugar, você só é parcial se estiver mal intencionado. Hoje muitas pessoas com quem tive contato durante minha permanência estão no meu Facebook, inclusive rebeldes. Por exemplo, o exército estupra meninas, mata, rouba, são coisas que a gente ouve falar. Mas outra coisa é quando você ouve do próprio sargento do exército da Síria contando que colegas se gabavam de ter estuprado meninas. Não foi uma fonte rebelde. Foi um sargento do exército sírio me contando que colegas se gabavam disso. Torna mais forte a informação. O cara só é parcial se for maldoso. Mas a grande dificuldade é que no conflito, ninguém é santo.

.

BC: Acompanhamos a situação da Síria através das agências de notícias, mas poucos estiveram lá in loco. Como é a real situação da população diante do conflito? Como isso está afetando seu dia a dia?

 KC:  Isso afeta totalmente. Eu vi coisas que ninguém viu. Se você der um google você não vê notícias das pessoas. Só vê que morreram tantas pessoas. Homs tem 1 milhão de habitantes, tem teatros, cinemas, um estádio do tamanho do Pacaembu, edifícios. Ninguém fala isso. As pessoas acham que é um vilarejo. As pessoas não saem à noite, o estádio de futebol está fechado. Imagina isso no Rio, fecham o Maracanã porque está todo mundo na guerra. A vida da cidade acabou. Isso afeta a vida de todo mundo. Na minha cela tinha um corretor de imóveis, Ahmed, que durante o conflito estava trabalhando como intérprete de um fotógrafo francês. Na guerra ninguém compra e vende imóveis. Do que vai viver um corretor de imóveis? O impacto é muito forte e profundo. Mas você não vê isso em nenhum lugar, em nenhuma matéria, apenas números e estatísticas.

.

BC: “Dias de Inferno na Síria” é um resultado de uma experiência pessoal sua. Mas você tem trabalhos que foram fruto de elaborada pesquisa. Como é possível conciliar todo o tempo necessário para a concepção de um livro com a rotina extenuante de uma redação?

KC : No “Dias de Inferno na Síria” tem muita pesquisa também. No começo do livro tem a introdução da editora mostrando meu trabalho de pesquisa. Nunca deixei de trabalhar para fazer livro. Faço nos meus horários de folga, nas férias. Levo de 3 a 4 meses para escrever. Em casa escrevo das 10, 11 da noite até 3 da manhã. Não fico 1 dia sem escrever. Sou disciplinado, não atraso.

.

BC: Alguns jornalistas se tornaram também importantes autores de ficção. Você pensa em algum dia entrar pela área da ficção?

KC: Tenho vontade de fazer ficção. Mas tenho tantos projetos fantásticos para contar que eu acabo escrevendo sobre a realidade. Tenho 2 histórias incríveis que já estou desenvolvendo. Mas gostaria muito de escrever ficção sim.

.

BC: Uma discussão bastante atual nos meios acadêmicos é a entrada de jornalistas na seara dos historiadores, vide o sucesso de Laurentino Gomes, Eduardo Bueno, entre outros. O que você acha dessa polêmica?

KC: O Laurentino foi meu chefe, um mestre. Um cara brilhante, aprendi muito com ele. Um homem que tenho como exemplo. Cada um na sua área. O Laurentino fez um trabalho muito bom, seu texto é ótimo. O meu texto é mais literário. O Laurentino tem um texto de revista, um texto de Veja, muito agradável de ler, com uma linguagem que chega no grande público. Já o Eduardo Bueno, o Peninha, tem um texto com muita graça, com toques de humor. Gosto muito do estilo do Peninha também, mas seu estilo é diferente. O Laurentino conseguiu alcançar com o seu livro o que os historiadores não conseguiram. Os historiadores deveriam agradecer o Laurentino por conseguir levar a história para tantos. Esse egoísmo me incomoda muito e acaba afastando o grande público da história. Acho o Laurentino fantástico e as pessoas estão entendendo a história do Brasil de maneira mais agradável, pop, sem academicismo e com sabor.

 


Palpites para este texto:

  1. Klester tem a capacidade de mostrar a “beleza ou feiura” interior. De imagens e relatos quase banais e habiuais na mídia, ele nos leva ao âmago, à essencia do que se torna invisível aos olhos, levando-nos à reflexão mais correta.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

abril 2017
D S T Q Q S S
« mar    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30