Série de Entrevistas: O Jornalismo na Literatura Nacional – 4.Mauro Ventura


 

 

Conforme prometido, entra hoje o 4º entrevistado na série “O Jornalismo na Literatura Nacional”, Mauro Ventura. Repórter especial do 2º Caderno do jornal “O Globo” e responsável pela coluna “Dois Cafés e a Conta” na revista “O Globo”, Mauro lançou pela editora Companhia das Letras em 2012 o livro “O Espetáculo Mais Triste da Terra”, uma longa e aprofundada pesquisa sobre a maior tragédia de todos os tempos no Brasil, o incêndio Gran Circo Norte-Americano em Niterói. Como se não bastasse a enorme repercussão pela qualidade do trabalho de Mauro Ventura, o livro acabou, infelizmente, sendo muito oportuno nesse momento em que o Brasil revive uma tragédia de tal dimensão, como a ocorrida recentemente em Santa Maria.
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Com a entrevista de Mauro Ventura, encerramos esta série, que começou com Mário Magalhães(autor de “Marighella”), Leonencio Nossa(autor de “Mata”) e Klester Cavalcanti( autor de “Dias de Inferno na Síria”) mas com a ideia de que poderemos em breve transformá-la numa série permanente do Botequim Cultural.
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BC: Em 2012 os livros brasileiros que tiveram maior êxito de venda ou de repercussão foram livros escritos com conteúdo jornalístico ou escritos por jornalistas, entre eles o seu “O Espetáculo Mais Triste da Terra”. Poucos livros nacionais de ficção foram bem sucedidos. Você concorda com essa afirmação? Você acha que o público está mais interessado em histórias reais do que em ficção?

MV: É mais difícil para um autor de ficção brasileiro enfrentar um best-seller internacional. Ele já entra na disputa em desvantagem, porque muitas vezes não recebe uma atenção de marketing das editoras. E é bom lembrar que nem sempre venda significa qualidade. Tem muita ficção de qualidade que não vende tanto, e nem por isso deixa de merecer atenção e investimento. Por outro lado, como as histórias de não ficção em geral tratam de temas próximos ao leitor, fica mais fácil atrair a atenção. De qualquer forma, tenho visto de fato um movimento forte das editoras em busca de livros de não ficção, muitos deles escritos por jornalistas.
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BC: O seu livro é fruto de uma longa pesquisa e de várias entrevistas. Como é possível conciliar à estafante rotina de uma redação com um projeto pessoal tão vasto como esse? Como você conseguiu tempo para realizar uma pesquisa dessa dimensão?

MV: Foi muito complicado administrar redação, livro e vida pessoal. Ainda mais porque comecei a fazer quando minha mulher estava grávida. Levei dois anos e meio fazendo o livro e, durante quatro meses, tirei licença não remunerada do jornal para escrever. Mas o jeito foi trabalhar todos os dias – férias, fins de semana, folgas e feriados -, inclusive durante a madrugada. Acabou que vi pouco minha filha Alice nos dois primeiros anos de vida.
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BC: Você saiu procurando um tema para escrever um livro ou foi o inverso, deu de cara com um tema e achou que dava um livro?

MV: Eu já vinha querendo escrever um livro há tempos. Cheguei a começar 22 livros, mas parava sempre no início. Fazia pesquisa, começava a escrever e interrompia. O principal motivo era a falta de tempo. E talvez porque não tivesse achado um tema que realmente me prendesse. Até que veio a ideia do livro do circo. Dei-me conta de que iam se completar 50 anos da tragédia e achei que seria um bom gancho para falar do assunto.
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BC: A tragédia do circo de Niterói foi a maior de todos os tempos no Brasil, com uma quantidade jamais vista de mortos e feridos. Você precisou mergulhar de cabeça num universo com tantas vidas destruídas, que até hoje sofrem as consequências trágicas daquela tarde. Como é se sentar frente ao computador e conceber o livro com toda aquela carga dramática contida nos seus apontamentos e ainda manter um distanciamento para poder elaborar o texto final? É possível ficar frio e distante enquanto escreve?

MV: Não foi fácil, ainda mais porque minha filha havia nascido havia pouco. Eu vivia a maior alegria do mundo e passava os dias conversando com pessoas que haviam perdido o que tinham de mais importante. O jornalismo ajudou a manter um pouco do distanciamento – são quase 28 anos ouvindo histórias – mas mesmo assim em várias ocasiões eu acabava me envolvendo e pensando como aquelas pessoas tiraram forças para sobreviver.
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BC: Qual foi a grande dificuldade que você teve para reconstituir o que aconteceu naquela tarde no circo?

MV: Inicialmente foi a dificuldade em encontrar pessoas dispostas a falar. O trauma havia sido tão grande que as vítimas preferiam não tocar no assunto. Mas, aos poucos, comecei a vencer as barreiras. Depois, o grande problema foram as versões conflitantes. Como havia se passado muito tempo e o trauma foi muito forte, as lembranças se embaralhavam. Além do mais, o inquérito havia se perdido. Eram tantas as contradições, as lacunas e as versões que cheguei a pensar em desistir. Não havia consenso sobre onde começou o fogo, sobre a origem do incêndio, sobre as cores da lona e sequer sobre o nome do circo, se Gran Circo Norte-Americano ou Gran Circus Norte-Americano. Até que decidi incorporar as divergências. Mas eu tenho laudo da perícia, que me ajudou a resolver muitas dúvidas.
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BC: Perdoe-me a obviedade da pergunta, mas é inevitável: Qual a relação você vê entre as 2 grandes tragédias do Brasil com mais de 50 anos de distância entre elas, Niterói e Santa Maria?

MV: Há várias semelhanças. Tanto o circo como a boate Kiss estavam superlotadas e não tinham saída de emergência. Além do mais, nos dois casos, na única saída existente havia grades de ferro atrapalhando o escoamente do público. O Gran Circo não tinha extintores de emergência, enquanto na boate eles não funcionavam. A lona do circo era de algodão parafinado, altamente inflamável, assim como a espuma do isolamento acústico da boate, feita de poliuretano. E o dono do circo era igualmente um gaúcho.
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BC: Aprendemos alguma coisa com a tragédia do circo em Niterói?

MV: Pouca coisa. Com relação aos circos a situação melhorou muito, tanto que não se repetiram outras tragédias. Mas ainda falta a cultura da prevenção no país. Passada a comoção inicial, os erros se repetem. A memória das pessoas vai se apagando, as regras vão se afrouxando e a impunidade continua.
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BC: Você tem planos ou projetos de escrever algum livro no campo da ficção?

MV: Por enquanto, não. Mas não descarto algo na linha de autoficção, do tipo que faz Javier Cercas (“Soldados de Salamina“), ou seja, embaralhando as fronteiras da ficção e da não ficção.
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BC: O que você acha da polêmica no meio dos historiadores sobre a incursão exitosa de jornalistas no campo da história, como o Laurentino Gomes ou o Eduardo Bueno? No próprio Globo, aonde você trabalha, temos um exemplo disso, o Pedro Doria com seu livro “1565”.

MV: O importante é que eles fazem muito pela popularização da História, num país sem memória. Mesmo que não tragam contribuição às pesquisas históricas, aproximam os fatos do leitor e recuperam temas muitas vezes circunscritos aos meios acadêmicos, usando uma linguagem acessível.

 


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