Série de Entrevistas: O Jornalismo na Literatura Nacional – 5.Ariel Palacios


 

Conforme comentamos na entrevista concedida por Mauro Ventura ao Botequim Cultural, estamos transformando a série de entrevistas “O Jornalismo na Literatura Nacional” em uma série permanente. Dessa vez trazemos Ariel Palacios, correspondente da Globo News e do jornal O Estado de São Paulo em Buenos Aires, que recentemente lançou o livro “Os Argentinos“, no qual tenta lançar um entendimento e uma visão do país vizinho, procurando eliminar os clichês e as ideias pré-concebidas que temos.

Com uma boa dose de paciência e de generosidade, Ariel Palacios disponibilizou um pouco do seu concorrido tempo para nos conceder essa entrevista, que desde já agradecemos, aonde fala do seu livro, de política, jornalismo e lógico, dos argentinos.

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BC: Recentemente você lançou “Os Argentinos”. Como surgiu o desejo e a ideia desse livro?

AP: A ideia do livro surgiu em 1995, quando desembarquei em Buenos Aires para ser correspondente. Rapidamente ficou claro que a Argentina era um país de extrema complexidade, que precisava ser bem explicado para o público brasileiro. Mas, as matérias diárias em um jornal ou em um canal de TV não seriam suficientes. Seria necessário um livro, detalhado, para explicar as idiossincrasias dos argentinos e as peculiaridades de seu intrincado e mutável sistema político. Essa foi a idéia de escrever “esse” livro. Mas o desejo de escrever “um” livro vem desde que era criança. Durante anos pensei escrever um livro de História, que é minha paixão. Bom, este livro é em parte um livro de História. É um manual sobre os argentinos. Neste aspecto, minha inspiração veio de uma série de livros que admiro desde a adolescência. Um deles era o “Out of Europe”, de John Gunther, correspondente internacional dos EUA que nos final dos anos 30 fez um perfil de cada país europeu antes da Segunda Guerra Mundial. Ou “Os italianos”,dos anos 50, de Luigi Barzini, que consiste em um raio-x dos italianos. E o mais recente “The distant neighbour”, de Alan Riding, um perfil dos mexicanos, escrito para o público americano. Considero que o público brasileiro precisava um manual sobre a Argentina, que fosse mais além dos clássicos clichês. Não há nada mais brega do que os estereótipos.

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BC: Um dos seus principais objetivos com o livro é entender e retratar o argentino sem os tradicionais estereótipos. Quais os maiores clichês que nós brasileiros temos dos argentinos?

AP: O maior clichê é o que sustenta que os argentinos odeiam os brasileiros. Por um lado, é uma informação antiga. Nos anos 30, 40 e 50 setores da sociedade argentina podiam ter eventualmente uma visão do Brasil como um “inimigo” da Argentina. Mas nunca foi uma coisa generalizada. Isto é, não era um ódio generalizado como foi por parte dos franceses contra os alemães entre a guerra Franco-Prussiana de 1871 e o fim da Primeira Guerra Mundial. Além de estar defasada em décadas, a informação pretendia considerar um setor da sociedade argentina como majoritária. Nada disso. E, além do clichê geopolítico, o clichê futebolístico: a Argentina considerou o Brasil o principal rival no futebol entre os anos 60 e 70. Mas, desde 1982, os argentinos querem derrotar a Inglaterra. Tudo por causa da Guerra das Malvinas. Muitos amigos brasileiros consideram que essa informação é traumática. Ora…se nós, brasileiros, consideramos os argentinos nossos maiores inimigos em matéria futebolística, como é que não temos a “hierarquia” suficiente para que nos considerem também os maiores inimigos¿ Em vez de amor não correspondido é um caso de ódio não correspondido. E isso pode ser frustante para muitas pessoas que vivem dessas rivalidades. O outro clichê é turístico: a rua Florida não atrai os argentinos. Só os turistas, coitados, são levados pelas agências de turismo até lá, como se fosse algo interessante. Mas essa rua não passa de uma pálida sombra da elegância que a Florida teve há mais de três décadas. E além disso, o “Caminito”, o supra-sumo do clichê. Nenhum portenho vai ali. Só se for para levar algum turista, que acredita que ali surgiu o tango. Mentira colossal. O tango surgiu em Monserrat e depois espalhou-se para muitos bairros. A Boca só atraiu os tangueiros quando alguns bares ali foram abertos nos anos 60. Dizer que a Boca é o berço do tango é como afirmar que a Ilha do Galeão é o berço do samba. Um delírio.

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BC: Depois de 18 anos morando em Buenos Aires, como é o processo de entender o argentino com uma visão externa para escrever o livro, mesmo estando mergulhado no seu cotidiano?

AP: É possível estar imerso em um país, aprofundar dia a dia o conhecimento sobre esse lugar e permanecer com o distanciamento necessário para escrever um livro ou escrever as matérias diariamente. Em primeiro lugar, isso é possível por trabalhar e escrever todos os dias para o Brasil. Em segundo, depende de uma característica própria, que acho que as pessoas desenvolvem se moraram em muitos lugares desde criancinha. Nasci em Buenos Aires, me criei em São Paulo, depois em Governador Valadares, posteriormente em Londrina…mais tarde em Curitiba e Madri. Essa diversidade permite esse distanciamento, acho.

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BC: A Argentina é um país de uma riqueza cultural impar e com uma grande tradição educacional . Possui 5 prêmios Nobel, 2 Oscars, alguns dos maiores escritores do século 20(Borges, Cortázar, Puig, Sábato, Bioy Casares). Como a sucessão de crises políticas e econômicas dos últimos 40 anos afeta nos dias de hoje a Argentina na área cultural? Há uma efervescência ou um vazio cultural no país?

AP: As crises afetam a produção cultural em qualquer país do mundo. Dependendo da crise, elas inibem. Outras crises a estimulam. A Argentina vive em crise desde a independência. Por isso, tudo o que foi feito em matéria de cultura sempre foi marcado por alguma espécie de crise. O problema dos últimos 40 anos é que as crises econômicas e institucionais também afetaram a educação, o investimento nas pesquisas científicas. A crise de 2001 teve um único viés positivo que foi a de chacoalhar muitos paradigmas culturais prévios e isso deu um grande empurrão no cinema e no tango novo, por exemplo. E no design. E o teatro, que está florescendo! Mas não gerou grandes novidades na literatura, infelizmente. Não existem grandes nomes como Borges, Bioy Casares ou Cortázar. No entanto essa crise eliminou – ou reduziu – alguns preconceitos que a sociedade tinha.

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BC: O Brasil está nesse momento revisitando seu passado através da Comissão da Verdade que visa apurar crimes cometidos durante a Ditadura Militar. Que similitudes e diferenças você vê no processo argentino e brasileiro?

AP: O caso argentino é único na região, pois apenas neste país os militares não contaram com uma transição. Fosse uma transição muito,medianamente ou pouco controlada.Mas,uma transição, enfim. Na Argentina os militares estavam com o prestígio arrasado pela derrota na Guerra das Malvinas. Além disso, haviam realizado uma administração da área econômica que foi um fracasso. A incompetência da ditadura argentina em várias esferas, fora a crueldade,fizeram que ela não contasse com respaldo algum na volta da democracia. Por isso havia clima popular para julgar os militares em 1985, na época do presidente Alfonsín. O problema é que os militares contavam ainda com poder de fogo e fizeram várias rebeliões para provocar o fim abrupto dos julgamentos e conseguir as leis do perdão. E nos últimos anos foi possível retomar os julgamentos porque os militares perderam o poder de fazer um novo golpe de Estado nos anos 90,quando tiveram drásticos cortes do orçamento. No Brasil os militares controlaram a transição, fizeram uma anistia seis anos antes de entregar o poder, mantiveram poder de fogo, conseguiram colocar muitos civis políticos que foram seus aliados na ditadura como figuras de peso nos governos da democracia. Isto é: puderam evitar um Nuremberg, tal como Alfonsín havia feito. Um exemplo desses civis aliados dos militares que permaneceram com muita influência no pós-ditadura é José Sarney. Também é preciso levar em conta que os massacres protagonizados pela ditadura argentina foram tremendamente superiores aos realizados por outros regimes militares da região. E de quebra, em matéria de marketing, os militares argentinos nunca dissimularam que eram militares, homens de quartel…no Brasil os ditadores mantiveram um Parlamento limitado. Mas havia um Parlamento. Além disso,com freqüência apareciam de terno. Na Argentina os caras sempre estavam de farda. E no final, até o general Figueiredo posava de sunga, fazendo exercício! O cara era mais espertos em matéria de“visu” do que o sorumbático Videla. E de quebra, a maior parte dos protagonistas da ditadura brasileira morreram, enquanto que os argentinos ainda estão vivos. Eu acho que crimes são crimes. Quem comete um delito deve pagar, seja lá com 50 ou com 95 anos.

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BC: De certo modo Brasil e Argentina caminharam de maneiras paralelas nesses últimos 50 anos: golpes militares, ditaduras, torturas, redemocratização, crises políticas, mega-inflações e planos econômicos “mirabolantes”. Havia até uma brincadeira que dizia que a Argentina era o“efeito Orloff” do Brasil: “Eu sou você amanhã”. Seria um chavão dizer que a grande diferença é que a Argentina sempre optou pela ruptura e o Brasil pela conciliação?

AP: Não é chavão. O Brasil foi marcado pelo consenso desde que Dom João praticamente “repassou” a coroa para Dom Pedro. E a Argentina, desde a mesma época de ambas independências, foi marcado pelo antagonismo feroz, praticamente sem pausas. O Brasil é o país do consenso, avant la lettre. E a Argentina, o confronto puro. Se o verbete“confronto” no Wikipédia tivesse que ser ilustrado por um pais, eu colocaria a Argentina…E,infelizmente,não vejo um horizonte no qual o confronto deixe de existir no país. Sequer uma redução do confronto! O antagonismo prevalece atualmente dentro da Argentina. E a tendência é que isso persista. O diálogo inexiste.

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BC: Com a tentativa do governo de asfixiar os grandes órgãos de comunicação(mais especificamente com o “Clarín” e o “La Nácion”), a liberdade de imprensa está ameaçada? Como é exercer a profissão de jornalista em um país aonde o governo entende que um crítico é um inimigo?

AP: A liberdade de imprensa está ameaçada na Argentina, mas de forma diferente à clássica. Isto é: não é como na época da ditadura. Agora existem mecanismos de censura sutil. Isto é, formas indiretas de pressionar. Ou nem tão indiretas…Jornalistas críticos do governo são o foco de manifestações de militantes kirchneristas que – com frequência – espalham cartazes com suas fotos e os nomes nas paredes da cidade. Em 2010 a organização das Mães da Praça de Mayo organizou um “tribunal popular” para julgar virtualmente os jornalistas que supostamente haviam colaborado com a ditadura. No entanto, entre os “condenados” estavam vários profissionais do setor que foram perseguidos pelos militares. Mas, todos tinham em comum posturas críticas contra os Kirchners. Entre os vários mecanismos de“censura sutil” está a distribuição de publicidade oficial direcionada, de forma a favorecer os meios de comunicação alinhados com o governo. Jornais críticos da administração Kirchner sofreram a suspensão total da publicidade, como o “Diario de Río Negro”, da província de Río Negro, e o “Perfil”, da cidade de Buenos Aires. O jornal “Crítica” – que havia feito investigações sobre corrupção do governo – teve que fechar suas portas por problemas financeiros, entre eles, o calote dos pagamentos da publicidade oficial do governo há mais de um ano. Em 2010 e 2011 os dois principais jornais argentinos, o “Clarín” e o “La Nación” foram alvo de pressões do sindicato de caminhoneiros, na época aliado do governo. Durante duas noites o sindicato bloqueou com piquetes os portões das gráficas de ambos periódicos, impedindo a saída dos exemplares. Além disso, os jornalistas críticos sofrem blitze da Receita Federal, sem justificativas,só com o objetivo de intimidar.

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BC: No que tais restrições afetam seu trabalho como correspondente estrangeiro?

AP: Por enquanto, essas restrições não atingem os correspondentes estrangeiros, já que essas pressões não nos atingem diretamente.Mas, indiretamente criam um clima de pânico em empresários e fontes do governo, que temem falar com a gente.A isto soma-se outro fator, existente desde o início do governo Kirchner,o de não falar com a imprensa. Não há coletivas de imprensa, os ministérios e secretarias recusam-se em dar até as informações básicas. Isso tudo torna nosso trabalho mais difícil.

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BC: Como você vê o fenômeno Jorge Lanata? O que as denúncias desse jornalista que tem feito tremer a Casa Rosada tem de real apuração e jornalismo sério? Ou trata-se só de um grande show-man com uma metralhadora giratória nas mãos?

AP: Lanata é um jornalista genial. Além de ser muito coordenado, ele é criativo na hora de apresentar a notícia, dando enfoques diferentes, que revelam ângulos interessantes. Lanata descobriu ao longo de sua carreira casos de corrupção dos governos Menem e De la Rua. Na época, os mesmos que o criticam hoje o aplaudiam. O problema é que hoje não querem que Lanata conte os podres da administração Kirchner…A reação do governo Kirchner é uma demonstração de que as investigaç]oes são sérias,senão o governo já teria retrucado cada uma das provas apresentadas por ele. Mas o governo prefere não falar. E a decisão de colocar os jogos de futebol no mesmo horário de seu programa, no domingo,é uma demonstração do pânico que o governo tem de suas revelações….

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BC: Você trabalha como correspondente do Estado de São Paulo, da Rádio Eldorado e da Globo News. Como consegue conciliar tantas atividades? Como é sua rotina? Passa mais tempo fazendo“pesquisa de campo” na rua ou colhe mais informação ficando mesmo em casa/escritório?

AP: A única forma de conciliar tudo isso (não trabalho para a Eldorado desde 2005) é trabalhando muuuuito. E ficando antenado o dia inteiro,seja fim de semana ou feriado. O correspondente não tem hora. Pelo menos,o correspondente na Argentina, já que aqui ocorre de tudo a toda hora…Sobre a rua e o escritório, depende do assunto e da época. Isso é imprevisível e varia muito. Quando a gente vai no supermercado ou está no ponto de ônibus já está fazendo “trabalho de campo”, involuntariamente. Mas, tudo o que possa ser feito por telefone ajuda a incrementar o tempo. Mas depende muito de cada assunto.

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BC: Para terminar, indique qual seria a grande roubada para um brasileiro que vá desembarcar hoje em Buenos Aires pela primeira vez?

AP: Existem duas roubadas colossais: a “calle” Florida e o “Caminito”. A primeira é uma pálida sombra decadente daquilo que essa rua foi outrora. Mas as agências de viagens no Brasil a continuam vendendo como algo “in”. É um absurdo. Seria como dizer em Buenos Aires que a rua Augusta em São Paulo ainda é rua comercial por excelência,tal como foi nos anos 70. E “Caminito” é o clichê do clichê, onde a maioria das pessoas são turistas cujos guias insistem em dizer que aquilo representa a alma portenha. Há mais espontaneidade em Disneylândia do que no Caminito… E outra coisa é passar todo o dia no Tigre, na zona norte de Buenos Aires, ao lado do delta do rio Paraná. O lugar foi legal nos anos 40. Depois, não foi mais.Seria como recomendar a alguém que vem de Paris, para estar apenas três dias no Rio que vá a Paquetá….Há 60 anos, talvez. Hoje em dia os cariocas vão de passeio a Paquetá? Não, né? Lembrei de outra “roubadésima”: ver os shows de tango para turistas. É o clichê do clichê. Tão irreal mostrar um dançarino de tango dançando com uma rosa na boca como exibir um cara dançando samba com um chapéu de frutas na cabeça. Mas, admito, há turistas que preferem ver o clichê do que a realidade.


Palpites para este texto:

  1. Alguns comentários sobre a entrevista de Ariel. 1º) Só temos a agradecer pela maneira como disponibilizou seu tempo para nos conceder essa entrevista, aberto para falar de todos os assuntos e sem economizar palavras, detalhes e explicações para melhor entendermos seu trabalho e a Argentina. 2º)Adorei as roubadas citadas por Ariel e concordo plenamente. Tive essa sensação na primeira vez que fui ao Caminito e nunca mais voltei. Em relação a Calle Florida, lembro dos comentários de minha avó, falando da rua chique que era quando ela esteve em Buenos Aires na década de 40. Hoje é claramente um lugar decadente, recheada de espertalhões e camelôs. Tá, mas eu adoro a calle Florida assim mesmo, talvez seja um espirito antropológico que tenho. Mas não a indico, é apenas um gosto peculiar meu. Adorei a comparação do passeio ao Delta do Tigre com um passeio a Paquetá. Perfeito! COncordo plenamente com sua opinião sobre os shows de Tango, é o mesmo que alguém vir ao Rio e for a um show na Plataforma e achar que conhece o samba brasileiro. Acho o show do “Senhor Tango” patético. Mas gostei do que vi no “Esquina Carlos Gardel”, mesmo sabendo que era para turista. 3º) Recomendo a leitura do seu livro “Os Argentinos”, para quem quer conhecer o argentino sem clichês e folclores.

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