Série de Entrevistas: O Jornalismo na Literatura Nacional – 6.Laurentino Gomes


 

 

O jornalista Laurentino Gomes é hoje um dos autores brasileiros que mais vende livros no mercado editorial nacional. Autor de “1808” e “1822“, dois best-sellers, está lançando nesse momento pela Globolivros seu último trabalho, “1889“, fechando sua trilogia do século XIX, aonde se debruça sobre os eventos em torno da Proclamação da República.  O livro em menos de 1 mês já está chegando na marca de 300 mil exemplares vendidos.

Com uma agenda repleta de compromissos, tais como palestras, feiras de livros e entrevistas para os principais órgãos de comunicação do país, Laurentino Gomes, num gesto de grande generosidade conseguiu espaço para conceder essa entrevista para o Botequim Cultural. Fica aqui registrado nosso agradecimento.

Laurentino Gomes é o nosso 6º entrevistado na série que estamos realizando sobre “O Jornalismo na Literatura Nacional“. Abaixo dessa entrevista estão os links das entrevistas anteriores.

Crédito das fotos: Alexandre Battibugli

 

BC:  Nas listas dos livros mais vendidos no Brasil nesses últimos anos, quase a totalidade deles foi escrita por jornalistas, sejam as biografias, livros de história, ou com conteúdo memorialista. Ao contrário disso, vemos raríssimos livros de ficção nacional nessas listas. Como você analisa essa faceta do mercado editorial brasileiro?

LG:  Acredito que a literatura de não-ficção seja o grande fenômeno do mercado editorial brasileiro no momento. Basta ver toda semana a lista dos livros mais vendidos, onde despontam as obras dessa categoria. Jornalistas tem dado contribuição importante nessa área. É o meu caso e também o do cearense Lira Neto, autor da biografia de Getúlio Vargas que está sendo publicada em três volumes pela Companhia das Letras. A nossa contribuição está no uso de uma linguagem mais acessível ao leitor comum, não habituado ao estilo mais técnico da produção acadêmica. Acho que ainda temos no Brasil um problema de foco e de linguagem. Um pesquisador, quando escreve um texto, geralmente tem como público alvo seus próprios colegas, como uma banca examinadora de dissertações e teses. Isso leva ao uso de uma linguagem mais técnica, de compreensão restrita ao círculo acadêmico. O jornalista, ao contrário, tem a obrigação de decodificar essa linguagem para torná-la acessível a um público mais leigo e mais amplo. As pessoas tem reagido muito bem a essa fórmula.

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BC:  Percebe-se nos seus livros, além da relevância do conteúdo, uma preocupação com a elaboração da capa, a escolha do título, com a divulgação, com o contato com o público. Para se atingir o êxito editorial é necessário tratar o livro como não só um trabalho intelectual, mas também como um “produto no mercado”?

LG: Vivemos em um mundo de intensa disputa de novos produtos e serviços pela atenção dos consumidores e um livro não escapa a esse desafio. Por isso, o trabalho de um escritor não acaba no momento da entrega dos originais da obra para a editora. É preciso que o autor se envolva também no desafio de divulgar e vender o livro. O melhor garoto-propoganda de um livro é o seu próprio autor. Por essa razão, eu sou um autor que gosta de pôr o pé na estrada. Já participei de centenas de eventos em todo o Brasil nos últimos seis anos. Vivo em constante contato com os leitores, tanto em palestras, feiras literárias e sessões de autógrafos quanto nas redes sociais. Nas duas semanas que antecederam o lançamento do livro 1889 fiz um road-show com o objetivo de apresentar a obra a gerentes e vendedores das maiores redes de livrarias. Foram três apresentações em São Paulo e duas no Rio de Janeiro. São essas pessoas que mais tarde poderão recomendar a compra do livro nas lojas, portanto é muito importante que estejam bem informadas a respeito da obra e do autor. Esse tipo de trabalho é muito comum nos Estados Unidos, mas está finalmente chegando ao Brasil. É uma prova de que o mercado brasileiro está se profissionalizando. Uma escritor precisa se expor ao público, o que inclui ouvir elogios e, muitas vezes, também críticas. Mas é parte da nossa atividade.

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BC:  Em entrevista que nos foi concedida pelo jornalista Klester Cavalcanti sobre seu livro “Dias de Inferno na Síria”, ele declarou sobre o seu trabalho: “O Laurentino conseguiu alcançar com o seu livro o que os historiadores não conseguiram. Os historiadores deveriam agradecer o Laurentino por conseguir levar a história para tantos...Acho o Laurentino fantástico e as pessoas estão entendendo a história do Brasil de maneira mais agradável, pop, sem academicismo e com sabor.” Como você vê essa polêmica que existe nos meios acadêmicos sobre a entrada exitosa cada vez maior de jornalistas na seara da história? Já sentiu algum preconceito?

LG: Às vezes encontro algum antagonismo, mas procuro não me preocupar muito com isso. Felizmente, são casos isolados. Entre os professores de História, que enfrentam em sala de aula o desafio de atrair o interesse de crianças e adolescentes para o tema, a acolhida ao meu trabalho tem sido a mais generosa possível.Historiadores e jornalistas têm muito a aprender uns com os outros. Historiadores podem ensinar aos jornalistas método e disciplina na pesquisa. Os jornalistas, por sua vez, tem contribuição de linguagem e estilo a dar no ensino e na divulgação do conhecimento da história. O grande desafio é ampliar o interesse do público pela História sem banalizar o conteúdo. Essa é uma linha tênue e perigosa. Se o autor ficar só na superfície e na banalidade, o livro não oferecerá contribuição alguma, será irrelevante. Se, ao contrário, der um mergulho muito profundo, não conseguirá prender a atender desse leitor menos especializado. Mas entendo também que esse é o desafio permanente do bom jornalista.

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BC:  Com “1889” se encerra seu período de profundo mergulho no século XIX. Em sua opinião quem foi o grande vulto nacional daquele século?

LG: Acho que foi José Bonifacio de Andrada e Silva. É quase impossível entender o processo de Independência do Brasil sem estudar o papel desempenhado por ele. Caberia a ele ser o principal conselheiro do príncipe regente e futuro imperador D. Pedro I num momento crucial para a construção do Brasil. Bonifácio esteve à frente do ministério de D. Pedro por escassos dezoito meses, de janeiro de 1822 a julho de 1823, mas nenhum outro homem público brasileiro realizou tanto em tão pouco tempo. Sem ele, o Brasil de hoje provavelmente não existiria. Na sua visão, a única maneira de impedir a fragmentação território brasileiro após a separação de Portugal seria equipá-lo com um “centro de força e unidade” sob o regime de monarquia constitucional e a liderança do imperador Pedro I. Foi essa a fórmula de Brasil que trinfou em 1822. Por essa razão, José Bonifácio passou para a história, e com muita justiça, com o nome de Patriarca da Independência.

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BC:  Ao se aprofundar sobre os eventos relacionados com a proclamação da República, que fato mais te surpreendeu nas suas pesquisas?

LG: Uma surpresa foi observar que a república se impôs no Brasil mais pelas fragilidades da monarquia do que pelo vigor dos ideiais republicanos em 1889. O imperador Pedro II estava cansado, doente, sem condições de reagir às pressões que o governo enfrentava naquele momento por parte do Exército e dos barões do café desgostos com a abolição da escravidão. Até as vésperas, os republicanos brasileiros estavam divididos em diversas correntes que se comunicavam precariamente e tinham muitas divergências. No Rio de Janeiro, havia a mocidade militar de Benjamin Constant que, influenciada pelo pensamento positivista de August Comte, pregava a instalação de uma ditadura republicana. Havia também os intelectuais como Quintino Bocaiúva, Silva Jardim, Rui Barbosa e Lopes Trovão, grupo que fazia muito barulho na imprensa mas tinha pouca capacidade de articulação política. Por fim, havia os cafeicultores do oeste paulista, que eram empreendedores e fascinados pela republicana liberal americana. O problema é que toda essa gente não conseguia seduzir a pequena opinião pública da época e ganhar votos. O desempenho dos candidatos republicanos nas eleições era pífio. Sem alternativa nas urnas, os republicanos caíram no colo dos militar e derrubaram a monarquia mediante um golpe liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca. Os militares dominaram a cena republicana até três décadas atrás. Tudo isso mudou com a campanha das Diretas, em 1984. Eu diria que foi uma segunda Proclamação da República, não mais pela espada, mas pelo povo nas ruas pedindo o direito de votar.

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BC:  Estudamos desde os bancos escolares que “Deodoro proclamou a República”. Mas como você descreve, Deodoro jamais verbalizou tal proclamação. Não te parece uma das maiores ironias de nossa história já recheada de tantos fatos pitorescos?

LG:  Ao contrário do que rezam os livros da história oficial, em momento algum do dia 15 de Novembro de 1889 o marechal Deodoro da Fonseca proclamou a república. Apenas liderou o golpe militar que derrubou o gabinente do Visconde de Ouro Preto, acusado pelo marechal de perseguir o exército e seus oficiais. Deodoro só mudou de posição e concordou com a troca de regime na madrugada do dia 16 ao saber que o imperador Pedro II chamara para compor um novo ministério o senador Gaspar da Silveira Martins, líder do Partido Liberal. Por trás dessa decisão estavam as rivalidades da política gaúcha e também um caso de amor e ciúmes. Em 1883, quando era presidente da Província do Rio Grande do Sul, Deodoro perdeu para Silveira Martins a disputa pelo coração da gaúcha Maria Adelaide Andrade Neves Meireles, conhecida como a Baronesa de Triunfo. Segundo testemunhas da época, era uma viúva bonita, quarentona e fazendeira na região de Rio Pardo. Desse episódio surgiu uma rivalidade cujos descobramentos levaria à Proclamação da República. A república teria em Maria Adelaide, portanto, uma madrinha secreta, que existência raramente aparece nos livros.

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BC:  Um dos fatos que mais chama a atenção nas principais rupturas da história brasileira é a presença dos “adesistas de última hora”, que abandonam o barco afundando e vão tomar parte na nova ordem. Seria errado qualificar Deodoro, um convicto monarquista, como um adesista de última hora? Que outros adesistas você destaca?

LG:  Na verdade, Deodoro foi mais um instrumento do que um líder de fato do movimento republicano, onde despontavam outros dois personagens mais importantes do que ele, o jornalista Quintino Bocaiúva e o tenente-coronel Benjamin Constant. Dos dois, Benjamin é o mais injustiçado pela história oficial. Foi ele o cérebro da revolução de 1889, “o catequista, o apóstolo, o evangelizador, o doutrinador, a cabeça pensante, o preceptor, o mestre, o ídolo da juventude militar”, na definição do historiador José Murilo de Carvalho. Deodoro era monarquista e admirador de D. Pedro II até as vésperas do golpe republica. A ele caberia um papel simbólico importante, o de catalizador das energias do meio militar. Mas sem a prévia ação doutrinadora de Benjamin, porém, é possível que Deodoro sequer tivesse tropas a comandar naquele dia. Quanto ao festival de adesões, é preciso levar em conta que a Abolição da escravatura, pela Lei Áurea em maio de 1888, aprofundou a impopularidade da Princesa Isabel entre os cafeicultores e fazendeiros, que eram até então o sustentáculo do trono. Nos meses seguintes, eles se comportaram como ratos abandonando o navio da monarquia em direção ao barco republicana. O festival de adesões dos antigos barões do café ao novo regime republicano, após o Quinze de Novembro de 1889, foi imediato e escandaloso. Entre eles estava o Barão de Loreno que, até a véspera da Proclamação da República, era preceptor dos filhos da Princesa Isabel.

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BC: Falando em “rupturas” e “adesismos”, você cita o telegrama do capitão Felicíssimo do Espírito Santo Cardoso(bisavô do ex presidente Fernando Henrique Cardoso) ao filho Joaquim Inácio: “Vocês fizeram a República que não serviu para nada. Aqui agora, como antes continuam mandando os Caiado”. Você não acha que essa frase sintetiza uma tendência brasileira em optar sempre pela “conciliação” em contraste com a América espanhola que sempre optou pela “ruptura”?

LG: Há uma contradição na história republicana brasileira. Os propagandistas do novo regime defendiam educação para todos, liberades civis, ampliação do direito do voto e outras promessas que não se cumpriram. Em 1889, cerca de 80% dos brasileiros eram pobres e analfabetos. Os escravos, libertados no ano anterior pela Lei Áurea, tinham sido abandonados à própria sorte. E assim continuaram no regime republicano. Os mesmos cafeicultores, fazendeiros e coronéis que mandavam na política do Segundo Império continuaram a dar as cartas nos primeiros anos da República, pelo menos até 1930. A fraude eleitoral, responsável pelo chamado voto de cabresto, era uma das principais características do Brasil monárquico e continuou impávida no Brasil republicano. O regime só mudou de nome, mas a estrutura política se manteve intacta. Acredito que muito do que ocorre hoje no Brasil, incluindo as manifestações de rua, tem raízes nessa distância entre as promessas e os sonhos republicanos. Por quase um século, de 1889 a 1984, nós convivemos com uma república de prática monárquica, na qual o povo foi sistematicamente mantido à margem de qualquer possibilidade de participação. A construção e a organização das instituições nacionais nesse período se deu sempre de cima para baixo, como nos tempos do império. O brasileiro participou pouco da construção do Estado nacional. Por isso, essa sensação de estranheza entre Estado e sociedade que se observa hoje. Os brasileiros não se reconhecem no que está em Brasilia.

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BC:  Com o fim da sua trilogia, já tem alguma perspectiva do seu próximo projeto?

LG: Tenho vários projetos, mas nenhum definido até agora. Gostaria de escrever um livro sobre a Guerra do Paraguai, outro sobre a Inconfidência Mineira, talvez mais um sobre as grandes rebeliões do período da Regência, entre a Abdicação de Dom Pedro I, em 1831, e a maioridade de D. Pedro II. Essa é uma década fascinante, que muitas ideias e projetos de Brasil foram testados, às vezes a custa de muito sangue e sofrimento. De certeza, por enquanto, só sei que 1889 será o último livro com data e números na capa. É o encerramento de uma trilogia e de um ciclo. Os próximos livros terão títulos diferentes. Espero que continuem a fazer sucesso entre os leitores.

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BC:  Sua origem vem da redação da grande imprensa, com passagens por “Veja” e “O Estado de São Paulo”, aonde vários jornalistas te consideram um mestre. Você não sente falta da rotina e da pressão diária de uma redação ou prefere levar sua vida profissional com os prazos mais extensos e generosos que é possível no meio editorial?

LG:  Um livro tem grande poder de transformação. E o primeiro alvo da mudança geralmente é o próprio autor. Minha vida mudou bastante desde que lancei o “1808”, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2007. Hoje passo boa parte do meu tempo lendo, pesquisando ou viajando pelo Brasil para dar aulas, fazer palestras e participar de sessões de autógrafos e conversas com os leitores. E confesso que nunca estive tão feliz. O reconhecimento e o contato com os leitores tem funcionado como um elixir da juventude para mim. Sinto-me renovado e com muita energia para me dedicar aos futuros livros. Para mim, é um grande orgulho ajudar os brasileiros, especialmente os leitores mais jovens, a gostar de História. Tento demonstrar com os meus livros que a História do Brasil pode ser fascinante, divertida e interessante, mas sem ser banal. Ser um escritor best-seller é mera consequência da reportagem bem feita, bem pesquisada e bem apurada.


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