Série de Entrevistas: O Jornalismo na Literatura Nacional – 7.Lira Neto


 

 

 

Se propor a realizar uma completa biografia de Getúlio Vargas dividida em 3 volumes é a princípio um temerário desafio,  pois se trata de um personagem que até nossos dias desperta paixões e polêmicas. Mas o jornalista Lira Neto não parece temer a empreitada e acabou de lançar o 2º volume da série, sobre o período que abrange a  passagem de Vargas pelo poder central entre 1930 até 1945.

Em meio a uma agenda lotada entre a divulgação do 2º volume  e as pesquisas para o 3º, Lira Neto gentilmente aceitou nossa proposta de conceder essa entrevista para a nossa série “O Jornalismo na Literatura Nacional”, aonde fala do seu trabalho. Isso justamente na semana em que foi indicado ao prêmio Jabuti, o mais importante da literatura nacional, pelo 1º volume da série.

Segue abaixo a entrevista completa de Lira Neto

BC — Você escreveu biografias de grandes mitos nacionais, como o Padre Cícero e Getúlio Vargas. Como é possível manter a isenção e o equilíbrio diante de sentimentos tão antagônicos e extremos por eles despertados?

LN — Interesso-me, exatamente, por personagens históricos que, em sua trajetória, despertaram reações extremas, amores e ódios, em igual medida. Gosto de trabalhar as contradições pessoais e as ambivalências humanas dos biografados, na busca de entendê-los em toda a sua complexidade. Por dever de ofício, como jornalista, busco uma narrativa equilibrada, o mais isenta possível, sem fazer apologias ou tentativas de desconstruções sumárias.  

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BC — Certa vez Ruy Castro declarou que “é muito melhor biografar morto do que vivo. Porque o biografado vivo vai mentir para você, e ainda vai atrás de outras pessoas para fazerem elas mentirem também. Os mortos não mentem. Você só tem que lidar com os herdeiros dele”. Hoje existe uma grande discussão sobre as restrições que os biógrafos tem que enfrentar com herdeiros. Você já viveu algum problema com herdeiros? Como você vê essa questão?

LN — Felizmente, até agora, não tive grandes problemas com herdeiros. Procuro ser muito criterioso em tudo aquilo que publico, documentando-me previamente, para evitar contestações posteriores. Apenas em um caso, o da biografia de Maysa, o filho da biografada, Jayme Monjardim, reagiu mal ao livro, acusando-me de ter feito “um trabalho muito jornalístico, e muito pouco poético”. Repórter que sou, encarei como um elogio. Mas é preciso destacar que Jayme, inicialmente, foi de uma generosidade extrema, franqueando-me o acesso irrestrito a todo o “baú” de Maysa. E, depois, se ele não gostou do livro, também não tentou retirá-lo das livrarias. Ao contrário, comprou os direitos de adaptação para cinema e tevê. No caso de Castello: A marcha para a ditadura, a filha do marechal Castello Branco recusou todos os pedidos de entrevista que lhe fiz, durante os três anos de pesquisa. Mas, depois disso, com a obra já publicada, permaneceu em silêncio, sem questionar o resultado. De todo modo, creio que sua pergunta aponta para uma questão inadiável: a necessária aprovação da lei, ora em tramitação no Congresso Nacional, que impedirá qualquer espécie de censura ao gênero biográfico no Brasil. 

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BC – Sabemos das grandes dificuldades encontradas por um biógrafo, quando tem que lidar com arquivos caóticos, documentos manipulados, censurados e até mesmo incinerados. Mesmo assim no 1º volume de “Getúlio” você levou a público 2 fatos obscuros da juventude de “Getúlio”, como os assassinatos do acadêmico paulista Carlos de Almeida Prado e do índio Tibúrcio. Fale um pouco sobre a intensa e persistente pesquisa que você teve que fazer para ter acesso a tais informações.

LN – Gosto da pesquisa em arquivos, em documentos de época, em fontes primárias. Em nosso país, infelizmente, nem sempre os arquivos públicos merecem o devido cuidado das autoridades responsáveis por sua preservação. No caso da biografia de Getúlio, consultei os acervos de mais de vinte instituições, do Brasil e do exterior. A pesquisa foi realizada nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Brasília e Paraná, entre outros, e em países como Estados Unidos, Inglaterra, Argentina, Uruguai, Itália e Alemanha. Todas as minhas fontes de pesquisa são minuciosamente referendadas ao final do volume. Cada tomo tem em média 600 páginas. Dessas, pelo menos 100 são de referências às fontes consultadas. O leitor que não gosta de notas, pode passar perfeitamente sem elas e se prender à narrativa dos capítulos. Mas os pesquisadores e aqueles que desejam saber de onde veio cada informação, têm ali o mapa da mina.

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BC — Quando você se propôs a escrever uma vasta biografia de Vargas, dividida em 3 volumes, lógico que não esperava escapar incólume de polêmicas e críticas. No 1º volume houve uma crítica muito pesada do jornalista Juremir Machado da Silva no “Correio do Povo” tentando desqualificar suas pesquisas sobre os assassinatos de Carlos de Almeida Prado e do índio Tibúrcio. Agora, Paulo Henrique Amorim qualificou o 2º volume tem “uma irrefreável inclinação udenista/tucana”. Como você lida com críticas tão pesadas?

LN – No caso do assassinato do índio Tibúrcio Fongue, atribuído por Carlos Lacerda a Getúlio, localizei o original do inquérito do crime e a certidão de nascimento do verdadeiro assassino, um homônimo de Getúlio. O filho do ex-presidente, Lutero Vargas, sempre defendeu a tese de homonímia, mas nunca apresentou nenhum documento que corroborasse suas afirmações. Como jornalista, não poderia me contentar com o livro de Lutero (que aliás cito em meu trabalho) como fonte para considerar a questão resolvida. Quanto ao outro fato, o assassinato do estudante Carlos de Almeida Prado, em Ouro Preto, também tive acesso à íntegra do inquérito original, em Minas Gerais. Partes do processo foram publicadas antes pelo filho do juiz responsável pelo caso, José Augusto de Lima, na intenção de livrar o pai da acusação de ter sido conivente com a família Vargas. Mais uma vez, é claro, eu não podia me dar por satisfeito com o que está no livro de Augusto de Lima Júnior (que também cito nas notas e na bibliografia). Precisei localizar e ler todo o inquérito, na íntegra. Sobre ter sido acusado de ter uma “irrefreável inclinação udenista/tucana”, apenas achei divertido. Já fui, muitas vezes, apontado como petista ou comunista. Ser rotulado de tucano, porém, é uma irônica novidade. Mas creio que isso é resultado da partidarização excessiva que tomou conta do país. Vivemos uma espécie de Fla x Flu ideológico. Meu trabalho busca exatamente fugir desse pensamento binário e dicotômico.  

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BC ­— Qual foi a grande dificuldade para sintetizar os 15 anos do governo Vargas em 600 páginas, um período em que o país passou por um grande processo de transformação econômica em meio a eventos políticos de grande importância como a revolução constitucionalista, a intentona comunista, o Estado Novo, a entrada na Segunda Guerra Mundial?

LN — Sempre tive em mente que meu foco prioritário, por se tratar de uma biografia, era o indivíduo Getúlio. Todos os episódios que compõem o pano de fundo histórico estão ali para explorar e refletir de que modo tais fatos, que você cita, impactaram a trajetória pessoal do então presidente — assim como para explicitar de que forma a dimensão da vida privada influenciou algumas de suas decisões públicas.  

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BC — É possível perceber alguma diferença no homem Getúlio Vargas, daquele que assumiu o poder em 1930, daquele que se elegeu em 1951? Ou Getúlio foi permanentemente um grande enigma?

LN — Durante o longo tempo em que permaneceu no poder, Getúlio foi responsável por uma série de transformações na sociedade, na política, na economia e na cultura brasileira. Sem dúvida tais transformações acabaram por proporcionar mudanças internas no indivíduo. A professora Maria Celina D’Araújo, doutora em Ciência Política — e que assina a orelha do segundo tomo — tem um texto brilhante sobre isso. A imagem de “homem enigmático” foi incentivada pelo próprio Getúlio, que nunca explicitava suas convicções pessoais, para inclusive poder agir de acordo com as circunstâncias. Creio que, ao final do terceiro volume, o leitor terá um conjunto de informações que possibilite visualizar um retrato de corpo inteiro do personagem, algo que contribua inclusive para entender as razões de seus históricos “enigmas”.

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Percebe-se que você dá uma boa atenção para a divulgação do seu trabalho, seja através de entrevistas, noites de autógrafos e outros inúmeros eventos. Em sua opinião, para se atingir o êxito editorial é necessário tratar um livro como algo maior que um trabalho intelectual, mas também como um “produto”?

LN — Como jornalista, preocupo-me com a recepção, com o público leitor. Não escrevo para mim ou para algumas poucas dezenas — ou mesmo centenas — de pessoas. Tenho a obrigação de escrever para um público amplo, heterogêneo. Por isso, busco combinar o rigor da pesquisa histórica com o texto fluido e inteligível. E, hoje, é impossível pensar o trabalho do jornalista sem os canais de interlocução pública proporcionados pelas novas tecnologias. Não faz sentido nenhum, para um repórter, se encastelar na velha torre de marfim. Minha escrita é pragmática. Escrevo para ser lido. Gosto do contato com os leitores.

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BC —Qual a grande dificuldade de simultaneamente estar divulgando o 2º volume com as pesquisas e a elaboração do 3º volume?

LN — É, sem dúvida, um desafio. Escrever um trabalho dessa dimensão exige tempo e dedicação exclusiva. Por isso, desta vez, reduzi um pouco a agenda de lançamentos pelo país, para me dedicar a escrever o terceiro e último volume. No ano que vem, com a trilogia consolidada, voltarei a pôr o pé na estrada, sem descanso.

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BC —Seus últimos trabalhos foram todos eles exitosos. O mérito de tal sucesso depende mais da qualidade do biógrafo ou da complexidade do biografado?

LN —Creio que o êxito editorial de um livro depende de inúmeros fatores. Entre eles, sem dúvida, está a escolha do tema. Mas também o empenho dispendido, a seriedade do trabalho e a responsabilidade no trato com as informações também são elementos essenciais.

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BC — Como você vê a polêmica que existe atualmente sobre a presença de jornalistas cada vez com maior frequência atuando no campo da história, como o Laurentino Gomes, Eduardo Bueno, Domingos Meirelles, entre outros?

LN — Vejo isso como algo saudável e natural. Laurentino Gomes, por exemplo, faz um trabalho formidável de divulgação histórica. Há, aqui e ali, algumas resistências do mundo acadêmico, mas considero essa velha tensão entre historiadores e jornalistas uma questão bizantina, sem nenhum sentido. Além de recorrer às fontes primárias, utilizo bastante os trabalhos de historiadores em meus livros. Busco sempre me atualizar sobre as pesquisas acadêmicas mais recentes em relação aos temas sobre os quais me debruço. A propósito, tive a honra de ter o texto de contracapa do primeiro volume de “Getúlio” assinado por um dos maiores historiadores brasileiros, Boris Fausto.


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