Série de Entrevistas: O Jornalismo na Literatura Nacional – 8.Toninho Vaz


 

Se tem uma pessoa que está no olho do furacão em decorrência das atuais restrições a que estão submetidos os biógrafos, essa pessoa é Toninho Vaz. Jornalista e escritor, Vaz estava se preparado para relançar a biografia que escreveu sobre a vida e obra do poeta curitibano Paulo Leminski, através do livro “Paulo Leminski, o Bandido que Sabia Latim”, até que a família do biografado decidiu proibir o relançamento da obra, confome já falamos AQUI.

Autor de importantes trabalhos, como “Pra Mim Chega – A Biografia de Torquato Neto” e “O Solar da Fossa”, Toninho Vaz é o 8º jornalista a nos conceder uma entrevista para nossa série aqui no Botequim Cultural, “O Jornalismo na Literatura Nacional”.

Nada mais atual e relevante nesse momento do que lermos o que Toninho Vaz tem a nos dizer sobre a censura sofrida ao seu trabalho.

 

 BC: – A família de Paulo Leminski alegou que essa nova edição de “Paulo Leminski, o Bandido que Sabia Latim” teria “um enfoque depreciativo à imagem do retratado e seus familiares”.  O acréscimo que você efetuou, relativo ao suicídio do irmão de Leminski, seria motivo suficiente para a proibição ou teria alguma outra razão, ainda obscura, para essa atitude?

TV: – Não creio que seja motivo para uma censura, afinal,  nada existe de mórbido no novo trecho de oito linhas, como foi alegado. E também não acredito que elas estejam preocupadas com o irmão do poeta, o também poeta Pedro. Eu acredito, sim, numa razão ainda obscura para que elas tenham tomado essa atitude. Agora, a crase em “à imagem” é sua, pois no original estava sem.

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BC: – No Facebook, Estrela Leminski (filha de Paulo) postou: “Se essa lei passar eu vou fazer biografias de certos biógrafos e dos jornalistas, contando em detalhes certos fatos muito pertinentes ao público. Por exemplo, como alguns causam polêmica só para vender mais ou manter o emprego na imprensa marrom”. Como você vê o tom agressivo das filhas de Leminski em relação ao episódio?

TV: – Ela me parece desequilibrada, pois eu não faço imprensa marrom e sim cultural. Ou seja, ela criou duas frases com três equívocos. 

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BC: – Qual o tamanho do prejuízo, financeiro e moral, pelo cancelamento do relançamento do livro?

TV: – Minha advogada está calculando na ponta do lápis, mas alguns editores cariocas acreditam que o livro tenha potencial de venda de 20/30 mil exemplares, no Natal. Do ponto de vista moral, o dano é maior, pois me acusar de fazer imprensa marrom, sensacionalista, não tem preço.

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BC: – Você vai mesmo entrar na justiça contra a família de Paulo Leminski?

TV: – Já entrei com uma Interpelação judicial, que ficou defasada depois que elas assumiram o que estão censurando: o trecho do suicídio do irmão do poeta. Porque nunca falaram disso antes, nem comigo e nem com a editora?

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BC: – Em relação à atual restrição sofrida por biógrafos, qual sua opinião sobre posicionamento de artistas tão expressivos da cultural nacional (representados pelo grupo Procure Saber) defendendo a manutenção da autorização do biografado e de seus familiares para o lançamento de uma biografia?

TV: – Esse pessoal é excêntrico e avarento. Faz quase tudo por dinheiro, se estivéssemos falando de honra ou ética, não deveria ter preço. Sem falar da incoerência de pessoas que foram perseguidas pela censura e agora se sentem no direito de censurar.

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BC: – Qual o efeito prático de tal restrição na produção nacional desse gênero literário? Como começar um trabalho de longa pesquisa, como é o caso de biografias, com essa instabilidade jurídica contra o trabalho de vocês?

TV: – Está criado um clima de incerteza. As exigências mais absurdas se disseminam por interesses escusos e contaminam as relações de trabalho – e as afetivas também, como é o meu caso. As editoras se retraem, lamentavelmente, fica difícil estimular um projeto.

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BC: – No momento em que Paulo Leminski virou um best-seller, com sua antologia incluída por várias semanas entre os mais vendidos, você não acha que tal censura seja extremamente prejudicial contra a circulação de sua obra, justamente quando parece existir um novo público interessado em se aprofundar mais sobre ela?

TV: – Certamente. Por isso estou entrando com uma segunda ação, para que a Justiça analise a procedência do veto (censura) e considere o meu pedido de indenização. Há motivo para censura?

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BC: – O relançamento da biografia de Torquato Neto (“Pra Mim Chega – A Biografia de Torquato Neto”) está confirmada ou as editoras estão apreensivas ao colocar uma biografia nas livrarias?

TV: – O lançamento está confirmado para as próximas semanas e a edição devidamente liberada por uma carta pessoal de Thiago Nunes, filho único do Torquato, encaminhada à editora.  O Thiago agiu como o Jards Macalé que disse hoje a um jornal carioca que estão escrevendo duas biografias sobre ele, mas que ele prefere a não autorizada.

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BC: – Você tem viajado o Brasil fazendo recitais sobre seu ótimo livro ”Solar da Fossa”, um trabalho que fala da mística pensão de Botafogo que reuniu pessoas tão interessantes daquele período. Como são esses recitais?

TV: – Obrigado pelo “ótimo”. No recital eu explico o que foi o Solar da Fossa falando de seus pontos luminosos, as canções. O Guarabyra (voz e violão) e Fabio Santini (guitarra) cantam um repertório baseado nas músicas criadas na pensão. São clássicos da MPB: Alegria alegria, Sinal Fechado, Roda Viva, Azul da cor do mar, Back to Bahia, etc…  Com o lançamento da bio do Torquato, vamos incorporá-lo ao recital pois ele também é personagem do Solar, fazendo parte daquele grupo que frequentava mas não era morador da pensão, como Ismael Silva, Zé Rodrix e outros.

 


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