Série de Entrevistas: O Jornalismo na Literatura Nacional – 9.Audálio Dantas


 

 

 Hoje temos a honra de apresentar a 9ª entrevista da nossa série do Botequim Cultural, “O Jornalismo na Literatura Nacional“, com Audálio Dantas, um grande mestre do jornalismo e que em 2013 lançou um livro fundamental e necessário para entendermos todo o ambiente repressivo da década de 70 durante a Ditadura Militar.  Com “As Duas Guerras de Vlado Herzog“, Audálio Dantas foi o grande vencedor, ao lado de Luís Fernando Veríssimo, do prêmio Jabuti, o mais importante da literatura nacional. Agradecemos a Audálio Dantas pela sua gentileza em disponibilizar um pouco do seu tempo para nos conceder essa entrevista, um grande  privilégio para o Botequim Cultural.

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BC: – A memória pode ser por vezes traiçoeira. O espaço de tempo acaba por ajudar a certas pessoas a amplificarem seu papel e outros, por modéstia, fazem o inverso, podendo gerar certas imprecisões. Por que esperar quase 40 anos para escrever sobre o caso Herzog, aonde o senhor, como Presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, estava no centro dos acontecimentos?

AD: – Na verdade, decidi escrever o livro 30 anos depois. Mas o propósito de escrevê-lo persistiu durante todo esse tempo. Para mim, tratava-se de uma dívida a ser paga. Conforme digo na apresentação, havia um bloqueio, o temor de cometer imprecisões, pois eu não havia anotado nada. Dependia da memória e das pesquisas que, finalmente, fiz. A história é contada a partir da atuação do Sindicato dos Jornalistas, de onde partiu a denúncia do assassinato de Vlado.

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BC: – Quais foram as grandes dificuldades na sua pesquisa? O senhor menciona na introdução alguns problemas em relação ao acesso aos documentos do Arquivo Nacional.

AD: – Não foram apenas dificuldades da burocracia. Meu grande espanto foi verificar que os documentos referentes ao período da ditadura continuam a ser sonegados e que grande parte deles levou sumiço. No caso dos papéis do SNI sobre o caso Herzog, isso fica muito claro. Exigiram-me a apresentação de atestado de óbito de Herzog, o qual, na ocasião (início de 2011) era um atestado falso, o que dava o Vlado como suicida. É inadmissível que tal exigência fosse feita por um órgão do governo democrático do Brasil.

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BC: –    Para o resultado final de “As Duas Guerras de Vlado Herzog” o senhor utilizou elementos literários de gêneros como a biografia, da grande reportagem e de livro de memórias. Como foi para o senhor mesclar esses gêneros para atingir o resultado final?

AD: – O livro “As duas guerras de Vlado Herzog”  é, ao mesmo tempo, biografia e história. No conjunto, o que se define como “grande reportagem”. O tratamento “literário” enriquece a narrativa, como ocorre em textos jornalísticos, mas sem deixar de lado a verdade dos fatos.

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BC: – Vários jornalistas foram presos e mortos naquele mesmo período. Por que o caso Herzog alcançou uma repercussão maior?

AD: – É importante dizer que, antes da prisão do Vlado, a escalada dos órgãos de repressão atingira pessoas de todas as áreas, supostamente por atividades comunistas. Um dos jornalistas mortos em 1975, foi Jayme Amorim de Miranda preso no início do ano no Rio de Janeiro e mandado para o DOI-Codi de São Paulo. Como em vários outros casos, esse assassinato, numa casa de extermínio em Itapevi, não foi denunciado na época. A escalada da repressão atingiu os jornalistas em massa. Entra, aí, o Sindicato dos Jornalistas, que denunciou as prisões e, depois, o assassinato do Vlado. Isso explica a repercussão. É importante lembrar que a lista de jornalistas mortos e desaparecidos desde o início da ditadura chegava a 21. Sabia-se desse fato, mas não havia uma atuação decisiva de uma entidade, como ocorreu no caso do Vlado.

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BC: – Como foi para o senhor, em meio ao trágico momento da morte de Herzog, encontrar o equilíbrio entre a prudência para evitar uma intervenção no sindicato e ao mesmo tempo manter a firmeza que o momento exigia?

AD: – Aquele momento exigia, principalmente, que o medo prevalecesse sobre a indignação. Foi o que aconteceu. Estávamos no fio da navalha. Qualquer precipitação poderia levar á perda do instrumento de luta de que dispúnhamos – o Sindicato. Era preciso, portanto, manter a firmeza, mas sem dar o pretexto que os militares queriam. Não foi fácil, foram os dias mais angustiantes de minha vida.

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BC: – Como o senhor analisa a contribuição do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo para a abertura lenta e gradual ocorrida nos anos posteriores?

AD: – Ao denunciar o assassinato, o Sindicato tornou-se uma trincheira para qual acorreram todos, e não só os jornalistas, dispostos a dar um basta aos crimes da ditadura. O caso Herzog foi um marco. A partir dele setores cada vez mais amplos da sociedade civil passaram, organizadamente, a lutar pelo fim da ditadura.

BC: – Em março de 2013 a CBF publicou uma nota oficial negando que o seu atual presidente José Maria Marin tenha participado da perseguição a Herzog como diretor de jornalismo da TV Cultura e atribuiu as matérias vinculadas ao assunto a “pseudojornalistas”. Que papel desempenhou José Maria Marin no episódio?

AD: – Em artigo que publiquei no O Estado de S. Paulo, afirmei que Marin, por ser apenas um servidor do segundo time da ditadura, não tivera a importância que lhe atribuíram no caso. Como outros serviçais, ele apenas participou do coro que pedia a cabeça do Vlado. Como deputado estadual da Arena, o partido da ditadura, pediu num aparte na Assembleia “providências” contra os “comunistas” da TV Cultura.

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BC: – A polêmica das biografias ainda está na ordem do dia. O senhor teve algum problema? O que o senhor pensa dessa polêmica?

AD: – A Constituição de 1988, uma conquista de todos os que lutaram pela democracia, garante plena liberdade de expressão. Qualquer restrição e essa liberdade é censura.

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BC: – Como o senhor analisa o trabalho da Comissão da Verdade?

AD: – A Comissão Nacional da Verdade é uma conquista democrática da maior importância, mesmo que tenha sido instituída tardiamente. Mesmo que, em virtude da Lei de Anistia, que na verdade protege aos autores de crimes como a tortura e o assassinato de opositores do regime militar, a Comissão desempenha um papel da maior importância. No mínimo, contribui para o debate sobre os crimes da ditadura.

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BC: – Tantos trabalhos já foram escritos sobre Herzog.  Quando começou a escrever seu livro, o senhor ainda achava que teria algo importante a contribuir sobre o episódio? Esperava tanta repercussão positiva e receber prêmios tão importantes como o Jabuti?

AD: – Nenhuma referência séria sobre o período militar pode omitir a importância do caso Herzog para a reconquista da democracia. Ao escrever o livro, não pretendi fazer novas revelações sobre o caso, mas reconstituir uma história da qual fui um dos personagens. É uma história contada “de dentro para fora”, por quem a viveu. Talvez, por isso, tenha alcançado tanta repercussão.

 


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