Crítica: Somos Tão Jovens


 

Para se fazer um razoável filme retratando algum grande ícone é necessário basicamente 2 coisas: achar o ator certo para viver o protagonista e ter um bom roteiro. Se o diretor não atrapalhar, consegue-se um resultado pelo menos digno. Foi o caso de “Somos Tão Jovens”, se não brilha, pelo menos não compromete.

Vem-me a cabeça um filme nacional recente, “Gonzaga”, em que tinha o bom roteiro e contava com um ótimo diretor, mas Breno Silveira não conseguiu encontrar o seu Gonzagão e o filme acabou naufragando porque não conseguíamos reconhecer Luiz Gonzaga nas telas do cinema. Antônio Carlos da Fontoura teve o mérito de encontrar Thiago Mendonça, que consegue atingir a árdua missão de nos fazer ver Renato Russo na tela e contou com o roteiro de Marcos Bernstein, que trabalhando no seu tradicional feijão-com-arroz(salvo “Central do Brasil”), consegue não complicar as coisas. Mas lógico que o filme tem alguns defeitos graves.

Para começar não acho que Antônio Carlos da Fontoura fosse o cineasta correto para retratar o universo de um Renato Russo antes da fama e todo o universo do rock de Brasília no início da década de 80. Esperava um diretor menos convencional(por isso estou levando mais fé no filme “Faroeste Caboclo” que está para estrear, em cima da música homônima de Renato Russo). Fontoura é até autor de alguns filmes ousados dos anos 70, mas isso faz tempo, nos últimos anos se dedicou a bobagens como “Uma Aventura de Zico” e “Gatão de Meia Idade”.

Não me surpreendi em encontrar em “Somos Tão Jovens” um filme didático, careta e com algo que abomino, o roteiro explicativo. Roteiro que procura situar e apresentar cada novo personagem que aparece no filme, sem deixar espaço para o público descobrir ou imaginar, claramente preocupado em agradar as grandes massas. Mas não podemos ser injustos com Fontoura que teve seus rasgos de ousadia ao optar por utilizar música ao vivo, sem playback, acreditando no seu protagonista.

Outro problema grave é o desnível das atuações, algumas beiram ao caricatural, como por exemplo os personagens de Herbert Vianna e Dinho Ouro Preto. Já outros, estão péssimos mesmo, como a canhestra interpretação de Sérgio Dalcin, vivendo Petrus e também Marcos Breda(com direito até a cabelo pintado) como o pai de Renato Russo. Nesse campo salvam-se Thiago Mendonça, soberbo e Laila Zaid(Ana),  numa junção de várias amigas e namoradas de Renato, promissora e carismática. Esse desnível, com atores parecendo fazer filmes diferentes é muito ruim, é preferível todos estarem mal porque chama menos a atenção as más atuações.

Impressiona realmente Thiago Mendonça. Você consegue claramente ver Renato Russo personificado. Não se trata de imitação, mas de interpretação mesmo. Impressiona igualmente a perfeição de Thiago cantando tal como Renato, seus trejeitos, sorriso, sarcasmo. Lembrando ainda que cantou ao vivo nas gravações, sem auxílio de playback. Para tal, Mendonça teve a preciosa ajuda de Carlos Trilha, músico que produziu alguns discos de Renato Russo, com quem passou 3 meses em Brasília treinando.

Por falar em Carlos Trilha, responsável pela execução de excepcional trilha sonora e lindos arranjos das canções de Renato Russo.

O filme se passa no período da vida de Renato na Brasília de 1976 a 1982, aonde uma geração tentava procurar novas formas de expressões, saindo do período mais crítico da ditadura, num país procurando um caminho para a redemocratização “lenta, gradual e segura”(como diria Geisel). É nessa efervescência que esses jovens da capital federal, formada basicamente por uma pequena elite de filhos de funcionários públicos, militares e diplomatas se juntam para trocar ideias sobre música e sonhar em viver dela, de onde surgiram o Aborto Elétrico(embrião do Legião Urbana), os Paralamas do Sucesso(primeira banda da Capital a estourar nacionalmente), o próprio Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial, entre outras, até que essas bandas começam a ecoar por todo o país , bem, aí já é uma outra história(ou quem sabe um novo filme).

Somos Tão Jovens” é até um filme gostoso de se ver, que se sustenta no seu protagonista, no ícone de Renato Russo e nas suas eternas canções. Repleto de altos e baixos, mas quem não se deter em tecnicismos(como eu) vai passar 2 horas relembrando(ou descobrindo) um dos mais importantes ícones da música nacional do final do século passado.


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