Teatro Infantil: Arlindo Lopes – “Ombela – A Origem das Chuvas”


 
Arlindo Lopes – Foto: Renato Mangolin

Por Renato Mello

Após o êxito de “As Aventuras do Menino Iogue”, o ator e diretor Arlindo Lopes retorna ao universo do teatro infatojuvenil para transpor ao palco do Oi Futuro a obra do escritor angolano Ondjaki com o espetáculo “Ombela – A Origem das Chuvas”.

“Ombela – A Origem das Chuvas” conta a história de uma menina, africana, a deusa das chuvas, que começa a questionar a origem de suas lágrimas. Inicia uma busca pelos ensinamentos junto às divindades africanas, o espetáculo propõe uma jornada de autoaprendizagem sobre as emoções e uma aproximação com a natureza.

Nesta entrevista, Arlindo Lopes fala sobre o espetáculo, o seu processo de criação e sua visão sobre o universo do teatro infantojuvenil. “Ombela – A Origem das Chuvas” cumpre temporada no Oi Futuro até o dia 20 de outubro, sempre aos sábados e domingos às 16 hs.

Foto: Renato Mangolin

BC:- Que aspectos do livro de Ondjaki, “Ombela – A Origem das Chuvas”, despertaram o desejo de levá-lo ao palco?

AL: Conheci o livro porque a minha amiga e produtora, Joana D’Aguiar, trouxe de presente e falou da vontade de ter um projeto próprio de teatro. Quando li a história achei muito poética e era claro que os aspectos lúdicos mostravam milhares de possibilidades para a adaptação. A ligação das emoções com o nascimento das chuvas e o que esse fenômeno transformava no planeta me parecia algo muito diferente e rico para se abordar em um espetáculo para toda a família. Topei o desafio. Para fazer essa transposição queria seguir a trajetória de aprendizagem da deusa da chuva que questiona a origem de suas tristezas, aceitando seus sentimentos sem perder a inocência da infância, mas também queria trazer para os tempos de hoje e falar sobre a preservação da natureza, falar sobre a mitologia africana, as tribos, divindades e os orixás. Comecei a procura por uma escritora que ficasse responsável pela a adaptação e uma pesquisadora que trouxesse seu conhecimento das mitologias. Para mim estava claro que era importante ter a sensibilidade do olhar feminino e da mulher negra. Cheguei até Mariana Jaspe, que emocionada topou na hora e leu o livro no mesmo dia. Consequentemente chegamos até ao Ricardo Gomes, seu marido e grande parceiro profissional e a pesquisa ficou sob a responsabilidade da escritora Vilma Piedade. Juntos com os diretores musicais e sócios do projeto, Maria Clara Valle e Jonas Hocherman, passamos a estudar todo o conteúdo que poderia ser a base para o amadurecimento dessas ideias e construirmos a nossa adaptação de “Ombela”. Foi um estudo muito importante pra todos nós e que agora pode ser estendido ao público.

 BC: O livro de Ondjaki propõe uma aproximação com a natureza e uma autoaprendizagem sobre as emoções. Você entende que de alguma forma existe ali um diálogo subjetivo com o momento que vivemos atualmente?

 AL:Totalmente! Como expliquei, essa aproximação me fez querer ir além da questão emocional de “Ombela” e falar sobre a forma como os humanos tratam o mundo atualmente, poluindo com lixo os mares e rios, aumentando criminosamente as queimadas, desmatamentos e tendo como esporte a caça aos animais. O que vivemos nesse momento no Brasil é realmente triste e absurdo. Um retrocesso sem tamanho que é um claro reflexo do novo governo. No final de agosto tivemos grandes áreas queimadas atingindo a Amazônia e ficamos chocados ao saber que esses incêndios e desmatamentos aumentaram mais de 82%. As fumaças das queimadas transformaram um dia em noite e o mundo perplexo e preocupado com a situação, ofereceu ajuda que foi negada por esse presidente. Uma enorme área verde vital do nosso planeta está sendo destruída de forma criminosa e precisamos fazer alguma coisa, não importa o tamanho da nossa luta mas temos o dever de defendê-la. Com “Ombela – A Origem das Chuvas” estamos falando também sobre o sentimento da tristeza que pode estar relacionada com a destruição da nossa natureza.

BC: – Quais foram as grandes dificuldades no processo de adaptação do livro para os palcos?

AL:Não sinto que tivemos grandes dificuldade. Os encontros de brainstorming foram muito produtivos. Vilma Piedade trouxe muitas histórias. A mitologia Iorubá é muito bonita e nos mostra deuses conectados com os elementos da natureza.  Comprei muitos livros sobre a África e eles trouxeram contribuições importantes. Semana passada, estava assistindo um documentário que falava da importância das máscaras criadas pelos povos africanos. Coincidência ou não, foi assim que resolvi iniciar o espetáculo, explicando o início do mundo, a diversidade das pessoas e o nascimento da deusa da chuva com máscaras distintas de várias tribos africanas. O mais difícil, depois que já estávamos por dentro dessas mitologias, foi escolher quais desses personagens seguiriam até a versão final do texto. Mariana e Ricardo são extremamente abertos no processo de carpintaria dramatúrgica e o tempo todo me senti sendo ouvido e acolhido. Quando o primeiro tratamento chegou tudo que tínhamos falado, estava presente nas páginas. Não era deslocado do que idealizei como diretor, pois de fato tínhamos estudado tudo aquilo. Acredito que essa é a felicidade dos encontros, quando conseguimos nos ouvir, exercitar a nossa generosidade para estarmos no mesmo barco e atingir o mesmo desejo.

BC: – Em relação ao elenco, formado por 6 atores, de que maneira eles acrescentaram e contribuíram durante os ensaios para o processo de criação?

AL: – Resolvemos fazer audições para encontrar as atrizes do espetáculo. Os atores eu já tinha em mente, Bukassa Kabengele e Orlando Caldeira, com quem já tinha trabalhado. Recebemos mais de 140 inscrições de atrizes/cantoras e era muita gente talentosa. Fizemos audições com 41 e desse grupo selecionamos 14 para participarem de uma segunda etapa onde poderíamos de alguma forma sair desse padrão de audições que não passam de simples testes. Queria um encontro que fosse uma troca, para isso convidei Gleide Cambria que nos presenteou com uma aula/preparação de dança, Soraya Ravenle que junto com Maria Clara e Jonas deram um trabalho vocal e musical, depois com Vilma Piedade que trouxe uma aula sobre mitologia africana. Terminamos com o trabalho de improvisação em cima de cenas e pequenos solos. Tínhamos um grupo de atrizes totalmente aquecido e entrosado e foi incrível esse dia, pois pudemos entender que o processo deveria ser horizontal e o elenco contribuiria muito para o espetáculo. Fizemos muitas leituras e estudos de texto, até que todo mundo estivesse confortável com as palavras, sentimentos e subtextos. Todos contribuíram trazendo suas experiências em dança, circo e música.

BC:No seu trabalho anterior, direcionado ao público infantojuvenil, “As Aventuras do Menino Iogue”, você fez uma imersão numa cultura muito particular, se apropriando de texturas, cores e sonoridades que resultaram num trabalho bem-sucedido artisticamente. Em “Ombela”, quais são os elementos que conduzem a contextualização cênica até o universo proposto?

AL:Como em As Aventuras do Menino Iogue mergulhei na cultura indiana, nesse projeto queria de fato trazer um pouco da África, deslocando o público para uma viagem no tempo com música, cores e sensações. Trazer o som tribal da ancestralidade de um dos povos mais importantes da nossa humanidade aqui para os nossos ouvidos. Queria partir do “onde tudo começou…” e explorar novos caminhos para misturar áreas artísticas bastante diferentes. Convidei Gleide Cambria para trazer sua bagagem de danças de matriz africana e afro-brasileiras e fomos costurando o espetáculo com muitas coreografias. Soraya Ravenle, com quem tinha feito O Menino iogue, colaborou artisticamente em vários detalhes e cuidou da preparação vocal do elenco. Queria ter a Tereza Nabuco para assinar os figurinos, e ela, para dar vida aos diversos personagens retratados na peça, apresentou uma pesquisa linda e detalhada, escolhendo tecidos africanos que exploram cores e texturas extremamente diferentes e hipnotizantes. A Carol W, artista plástica gaúcha, que trabalha misturando papel machê com madeira e metal, ficou responsável pelo visagismo e adereços de todas as cabeças dos atores. Com ela na equipe pude voltar a trabalhar com máscaras, só que dessa vez meu desejo era que elas fossem de fato inspiradas em 5 tribos africanas diferentes. Carol fez um estudo em cima das tribos Senufo, Baoule, Fang, Kwele e BaKongo. Os bonecos, que é algo que amo, achei que seria a oportunidade perfeita para convidar o Bruno Dante, um excelente bonequeiro que já admirava há tempos. Bruno confeccionou bonecos incríveis que retratam a Deusa da Chuva em diversas fases da vida, a sua sábia avó, que lindamente é manipulada pela atriz Renata Vilela, uma rã-boneco de estimação, além de duas escalas de tamanho para o pai de Ombela, que, ao ficar preocupado com a filha, passa a encolher. Teca Fischinski trouxe a ideia de um cenário lindo, leve, todo branco, feito com materiais reciclados e que se transforma nas diversas transições da nossa história. Deborah Motta cuidou de toda preparação circense para que as atrizes soubessem se movimentar na lira que é um aparelho aéreo e para que o ator tivesse mais segurança com o aparelho da roda cyr. Fechando a equipe criativa, meu grande amigo Paulo César Medeiros, que sempre colore lindamente os espetáculos, trouxe texturas e profundidades para as cenas. E essa equipe incrível que ainda é composta por mais 36 profissionais só se tornou possível graças a operacionalização impecável da nossa diretora de produção e idealizadora Joana D’Aguiar.

BC: – Muitas vezes a trilha sonora de espetáculos infantojuvenis parece deslocada e sem encontrar uma fluência que acrescente de modo consistente à narrativa. De que maneira a trilha composta por Maria Clara Valle e Jonas Hocherman Correa ajuda a contar essa história?

 AL: – A trilha do nosso espetáculo é executada ao vivo e faz parte da dramaturgia que está sendo contada em cena. É uma trilha original que parte de uma pesquisa baseada na sonoridade do tambor e propõe a mistura da sonoridade da música brasileira com a africana. A direção musical é assinada pela violoncelista Maria Clara Valle e o trombonista Jonas Hocherman, que fizeram uma imersão nessa pesquisa musical de ritmos africanos e trouxeram referências importantes de Angola, Cabo Verde, Luanda, e tantos outros países africanos. Nosso espetáculo passou a ter uma mistura significativa desses sons que se cruzam com a música e a cultura brasileira. Também fiquei instigado pela pesquisa proposta por eles e resolvi fazer a minha pesquisa de vozes femininas africanas, já que o nosso elenco é formado por quatro atrizes. Para mim era muito importante que a trilha exaltasse as vozes femininas, já que a nossa história fala da importância da força feminina e da mulher em nosso planeta. Descobri a maravilhosa Angelique Kidjo e pedi que duas de nossas músicas que foram compostas por Bukassa Kabengele e Marília Lopes em swahili, alcançassem esse lugar mágico que essa cantora traz para suas canções. Outra grande inspiração para mim foi Miriam Makeba que nos deu o norte para a música de abertura e para que Bukassa escrevesse a penúltima canção do espetáculo. Completando o palco para a nossa história, foi reunida uma banda muito linda e incrível: as flautas e percussão de PC Castilho, o violão de sete cordas de Samara Líbano e os tambores de Mayombe Masai. O trio somado com todas as vozes incríveis do nosso elenco traz um brilho de arrepiar para as 15 músicas executadas no espetáculo.

BC: – Que aspectos da sensibilidade infantil você espera atingir com o espetáculo?

AL: – O público infantil é um desafio. Precisamos sempre pensar como manter a atenção deles focada no que acontece em cena. A história não pode ter barriga porque rapidamente elas podem perder o interesse. Pensando nisso, busco colocar cada cena em um lugar diferente, com ritmos diferentes, intercalando com humor e emoção. Na nossa peça cada nova amizade que Ombela conquista trazem mudanças e reflexões para a menina. Assim ela mergulha mais profundamente nos seus sentimentos e acredito que esse é o caminho para atingirmos o coração de toda a plateia. Os personagens são muito diferentes e apesar de alguns falarem sobre o sentimento da tristeza que normalmente pode se abater sobre nós, nenhum deles deixa a peteca cair e ensinam para Ombela que o melhor caminho é o do pensamento positivo. Em um momento a deusa africana afunda no oceano e acaba sendo acolhida por Yemanjá que lhe acarinha como a grande mãe que ela não teve a chance de conhecer. Elas falam sobre infância, sobre a mulher e como as vezes é difícil se sentir só. Os barulhos do fundo do mar com os cantos de baleias e golfinhos, poderiam ficar só no lamento da poluição dos mares, mas Yemanjá abraça Ombela e rapidamente a acalma dizendo que nunca devemos perder as esperanças e que toda força dos mares está dentro de cada um de nós. Assim ao longo do espetáculo ela vai amadurecendo seu olhar para a importância da natureza e o fenômeno do nascimento de todas as águas. Queremos contar para as crianças que é normal ficar triste, que também é normal ter vontade de chorar, que inclusive é importante deixarmos sair todas as lágrimas. Praticando a escuta aprendemos a valorizar a nossa história pessoal, controlamos nossa ansiedade por respostas imediatas, encontramos o amor por nós mesmos e ainda conseguimos nos conectar com o universo e toda a natureza.

BC:O que te seduz em criar projetos específicos para o teatro infantojuvenil? Te satisfaz, artisticamente, atuar nesse segmento?

AL: – Amo pensar em projetos para crianças e suas famílias. Acho que nunca abandonei esse olhar lúdico da infância. Bonecos, máscaras, músicas, cores me instigam e se tudo isso ainda pode tocar as pessoas e transformá-las de alguma forma utilizando a linguagem poética é o que importa. Vejo tantos espetáculos ruins por aí que só estão focados em arrecadar bilheteria, isso me entristece um pouco. Como artista entendo que a cultura é algo extremamente importante para a formação da inteligência emocional, mas infelizmente nem todo mundo pensa assim. Então fiz um acordo comigo mesmo que independente de ter um projeto de espetáculo adulto para atuar como ator, sempre terei outros projetos infantis para dirigir, por que pensar em peças infantis traz o grande desafio de educar e entreter pequenos e grandes. Em “Ombela” mesmo falando sobre sentimentos profundos e lágrimas tenho ficado surpreso que no fim do nosso espetáculo as crianças das mais variadas idades ficam atentas em toda a jornada da nossa deusa menina e os adultos saem da sala bastante emocionados com lágrimas no rosto. Isso me dá a certeza de que devo seguir plantando ideias, que podem vir a ganhar vida ou não. O importante é continuar plantando, sem parar!

BC: – Ondjaki tomou algum tipo de contato com o processo de criação de vocês ou tudo se deu apenas pelos trâmites formais da cessão dos direitos autorais?

AL:Sim! Assim que decidimos tocar uma adaptação do livro, descobrimos que ele estava morando na rua atrás da minha casa. Isso foi curioso. Marcamos um encontro com Ondjaki que nos recebeu para um jantar. Maria Clara e Jonas, nossos diretores musicais, levaram seus instrumentos e terminamos a noite ouvindo-os tocarem. Isso foi em 2016, faz um bom tempo já. Foi um encontro bonito e feliz entre Angola e Brasil. Ele criou canções originais para o espetáculo que merecem demais um CD. Prevejo outro sucesso tamanha a beleza das músicas compostas em parceria com os diretores musicais, elenco e banda. Na semana da nossa estreia, um homem de roupas claras, entrou discretamente na nossa sala de ensaio procurando alguém e timidamente tirou os sapatos para sentar-se ao nosso lado. Não acreditei quando percebi que era o próprio Ondjaki que surgiu ali de surpresa para assistir a um corrido da peça. Os atores e músicos seguiram sem imaginar quem era aquela ilustre visita. Três anos depois um reencontro com o autor do livro que originou a peça, foi demais. Ainda contamos com a sua presença em todas as sessões de convidados da peça antes dele retornar a Luanda.

BC:Quais são suas expectativas para essa temporada que se inicia no Oi Futuro?

AL:Todas do mundo! Mas sempre me forço a lembrar que a nossa arte é efêmera. Pode acabar muito rápido. Então mesmo que as adversidades do dia a dia tragam desânimos e tristezas, procuro elevar os pensamentos para não parar de ter ideias que possam tocar as pessoas e levar os projetos pra frente. Manter o trabalho vivo a partir do dia 31 de agosto será o nosso próximo desafio. Ainda mais no momento em que vivemos um desmonte da cultura. Sem contar que os espetáculos infantis sempre ficam em um lugar menos favorecido para captação de patrocínios. Mas….tenho um bom sentimento quanto à nossa “Ombela”. Acho que ela ainda irá percorrer muitos lugares desse mundo. Oxalá que esse palpite esteja certo. Oxalá!


Palpites para este texto:

  1. Parabéns pelo lindo trabalho, pela pesquisa e seriedade em relação a infância e a formação cultural das crianças e suas famílias. É preciso pensar e revelar os temas atuais sem perder a poesia e a leveza para sensibilizar, formar meninos e meninas, cidadãos hoje, que respeitem as diferenças, sejam empáticos e protejam a natureza!

  2. Gostaria de saber da possibilidade de fazerem um espetáculo (projeto escola) ainda em novembro, na escola Sá Pereira, onde trabalho. Se for do interesse de vocês, peço que me contatem. Abraço, Cecília Moura

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