Teatro Infantil: Balanço 2016


 

balanco-2016

Por Renato Mello

O balanço é positivo. Diversidade de estilos, propostas, linguagens e objetivos estiveram presentes nos palcos do teatro infantil carioca em 2016 com espetáculos de bom nível técnico e artístico. Lógico que nem só de flores se viveu, já que o teatro oportunista manteve seu espaço, mas felizmente de modo localizado e facilmente identificável.

Assisti 42 espetáculos do segmento ao longo do ano pelos mais diversos cantos da cidade. Do Méier ao Leblon, passando pela Tijuca, Santa Teresa, Gamboa, Centro, Flamengo, São Conrado e Gávea, entre outros.

Aponto como os aspectos positivos dessa temporada que se encerra:

As Referências: 

Duas das principais referências do Teatro Infantil carioca apresentaram novos trabalhos em 2016: A PeQuod e a Artesanal Cia de Teatro.

A PeQuod

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Foto: Simone Rodrigues

A virada do ano foi a melhor possível com a Cia PeQuod ocupando o pátio do Centro Cultural dos Correios com “A Feira de Maravilhas do Fantástico Barão de Münchausen”, com direção de Miguel Vellinho. Uma aventura cênica com linguagem particular mesclada com  dramaturgia consistente, belas músicas(Tim Rescala),concepção visual personalizada interagindo com bonecos e atores, resultando num trabalho híbrido, inventivo e ousado em sua estrutura. Há acima de tudo em “A Feira de Maravilhas do Fantástico Barão de Münchausen” uma proposta libertária, que convida seu público a soltar suas amarras pessoais e acreditar na realidade existente na imaginação do Barão, emanando adultos e crianças numa crença que é possível desvencilhar-se da lógica convencional da qual somos prisioneiros. A ideia da encenação de Miguel Vellinho quebra-nos da acomodação de um mundo ordinário para nos transportar para o universo que habita na amplitude imaginária de seu protagonista. As surpresas espreitam permanentemente a cada novo mundo que se abre diante de nossos olhos, com o espectador sendo convidados a ser parte ativa dessa narrativa.

Artesanal Cia de Teatro

Escrever sobre o trabalho da Artesanal Cia de Teatro dentro do cenário do teatro infantil é discorrer sobre um parâmetro muito particular. Sua nova montagem não decepciona. “Por que nem todos os dias são dias de sol?” é mais um trabalho de extrema qualidade narrativa e estética que se constrói na costura de 4 histórias distintas que contém alguns dos principais vetores da reflexão sobre “o ser criança e o tornar-se adulto”. Gustavo Bicalho e Henrique Gonçalves embasam todo o conceito cênico que a Artesanal vem desenvolvendo nessas décadas, trazendo uma essência de extrema delicadeza na maneira como aborda questionamentos que contém uma complexidade por trás de uma de uma enganosa simplicidade. Mais além das 4 histórias em si, um dos aspectos mais cativantes se dá pela forma como são contadas, utilizando-se de 4 técnicas e linguagens teatrais distintas.  Sensibilidade artística em elevados níveis.

Foto: Jackeline Nigri

Foto: Jackeline Nigri

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Os Dramaturgos:

Um aspecto curioso do ano foi a dedicação dos 2 últimos dramaturgos vencedores do Prêmio Shell ao teatro infantil: Renata Mizrahi e Pedro Kosovski. Ambos tem suas origens no teatro infantil, mas levantaram voos muito além do segmento e este ano voltaram para casa e foram acolhidos como merecem.

Foto: Arthur Vianna

Marrom – Nem  Preto, Nem Branco? – Foto: Arthur Vianna

Foram 3 anos desde seus últimos trabalhos nesse segmento, “O Jardim Secreto” e “Coisas que a Gente não Vê”. Esse período serviu para que Renata Mizrahi escapasse do rótulo de “autora de teatro infantil”, se consolidando como uma das mais importantes dramaturgas do teatro nacional com uma sequência ininterrupta de ótimos espetáculos como “Silêncio”, “Galápagos” e “War”. Renata faz bem qualquer teatro, seja infantil ou adulto. Em 2016, além do musical “Chica da Silva” apresentou os infantis “Ludi na Revolta da Vacina”(em que assina também a direção) e “Marrom -Nem Preto, Nem Branco?”. Em “Ludi”, adaptação do livro homônimo de Luciana Sandroni, leva ao palco um diálogo com a cidade, envolvendo o público na fantasia de uma viagem no tempo para despertar a curiosidade sobre eventos históricos ocorridos bem próximos do teatro(Ginástico) em que se apresentava. Já em “Marrom – Nem Preto, Nem Branco?”, com direção de Marcelo Alonso Neves, aborda a pluralidade cultural e racial sem resvalar jamais em “psicologismos”, construindo pequenas cenas cotidianas que ampliam o dimensionamento do efeito causado por situações aparentemente despretensiosas, ampliando para um público em formação uma discussão necessária e urgente.

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Taotão

Pela primeira vez em mais de 60 anos de existência  O Tablado apresentou um texto não escrito por Maria Clara Machado. Pedro Kosovski, que como poucos conhece toda a atmosfera que envolve esse espaço mítico, é um dramaturgo que parece sentir-se confortável em distintas formatações narrativas e “Taotão” comprova justamente essa sua capacidade de multifacetar-se. O espetáculo, dirigido por Cacá Mourthé, reveste com tintas acessíveis questões mitológicas, filosóficas e mesmo psicológicas, abordando a fragmentação do ser humano, as instâncias dinâmicas do aparelho psíquico e o mito de Narciso, numa dramaturgia fundeada em traços firmes que resultaram numa adorável história de 2 universos paralelos cujo rompimento de suas linhas divisórias faz com que um deles(o real) acabe sugado pela força do outro(o imaginário). Sua grande virtude é possuir uma fácil capacidade de interação com o público sem abrir mão da profundidade encontrada em suas camadas dramatúrgicas, fazendo jus ao histórico das peças encenadas naquele mesmo teatro.

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Os Visitantes:

Considero da maior relevância as visitas que o Rio recebeu de 2 companhias de teatro de outros estados para apresentarem espetáculos impactantes, com complexos processos de construção e de altíssimo nível. Refiro-me a Cia Mútua, da cidade de Itajaí, que encenou no Espaço Armazém o lindíssimo e poético “Um Príncipe Chamado Exupéry” e a Cia Vagalum Tum Tum, de São Paulo, que trouxe do seu repertório o ótimo “Bruxas da Escócia” para a Caixa Cultural.

Como é importante a vinda dessas companhias para oxigenar ideias e o intercâmbio de experiências, deixando no ar um questionamento sobre os porquês que recebemos com tanta raridade companhias de teatro infantil de outros estados, fechando-nos num hermetismo sem sentido. Um notável diretor de São Paulo me confidenciou certa vez: “estamos tentando há muito levar nosso repertório para o Rio, mas parece que tem um bloqueio que dificulta a ida de peças para crianças de São Paulo para o Rio de Janeiro”. Deixo a resposta para os especialistas…

Foto Exupery 3 (1)Um Príncipe Chamado Exupéry” conta uma história não muito difundida do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry antes de eternizar seu nome na literatura mundial e no inconsciente de diversas gerações a partir do romance “O Pequeno Príncipe”. No final dos anos 20, Exupéry trabalhava para a Companhia de Correio Aéreo Aéropostale, cujos aviadores tornaram-se mitos atravessando desertos, oceanos e cordilheiras transportando cartas, num período ainda de pioneirismo na engenharia aeronáutica, que transformava cada travessia entre os continentes em uma autêntica aventura. A grande questão no teatro não é necessariamente a história que está se contando, mas como ela é contada. Justamente no trabalho de desenvolvimento de uma linguagem particular reside um dos maiores encantos desse espetáculo.

Conheci o trabalho da Cia Vagalum Tum Tum em São Paulo e desde então me tornei um grande admirador do trabalho realizado por Angelo Brandini, que se caracteriza por adaptar Shakespeare para o público infantil, como ocorreu com os espetáculos anteriores,  “O Bobo do Rei”(versão de “Rei Lear”), “O Príncipe da Dinamarca”(“Hamlet”),  “Othelito”(Othelo”) e recentemente estrearam em “Henriques”(Henrique V”), que já foi reconhecida com os principais prêmios do segmento infantil paulista. Em sua passagem pelo Rio apresentaram “Bruxas da Escócia”(adaptação de “Macbeth”). O grande trunfo do trabalho elaborado por Angelo Brandini não se restringe a simplesmente se aproveitar de toda a riqueza que uma obra desse porte pode proporcionar para uma transposição ao universo infantil, mas do modo como é feito, do incrível trabalho de desenvolvimento de um conceito particular, com gags, palhaçaria e muita música ao vivo,  fazendo de “Bruxas da Escócia” um espetáculo de grande encantamento.

Foto: João Caldas

Foto: João Caldas

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Adaptações Literárias:

Adaptações literárias resultaram em bons trabalhos. Nesse quesito podemos destacar “Ludi na Revolta da Vacina”(já abordado acima), “Filhote de Cruz-Credo”, “Guerra Dentro da Gente”, “A Gaiola” e “A Árvore que Fugiu do Quintal(que abordarei mais abaixo), que levaram ao público infantil alguns referentes autores nacionais, como Luciana Sandroni, Fabricio Carpinejar, Paulo Leminski, Adriana Falcão e Álvaro Ottoni.

Dentre os espetáculos citados, Duda Maia foi responsável por algumas das mais relevantes montagens do ano, como o excelente “A Gaiola” e “Guerra Dentro da Gente”.

De início me suscitou curiosidade de saber como ultrapassar alguns desafios impostos pelo livro de Adriana Falcão para uma transposição teatral coerente com os sentimentos e intenções expostas em “A Gaiola”, começando pela necessidade de uma complementação dramatúrgica para ocupar o transcurso de uma peça teatral, mesmo que infantil com uma duração menor e sem que se perca a essência que o livro nos conduz. Porém, o roteiro assinado pela própria autora, conjuntamente com Eduardo Rios, tem a capacidade de impulsionar uma base dramatúrgica sólida, criando para a narrativa canções que se inserem com naturalidade dentro da dramaturgia, seja pelo encanto melódico, seja na tonalidade, passando o sentimento de moldar-se plenamente na fluência narrativa a partir da direção musical.

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A Gaiola

Em “Guerra Dentro da Gente”, a abordagem de uma temática que de antemão pela mera leitura de sua sinopse oficial me causou estranhamento em se tratando do segmento a que o espetáculo se destina. Mas ao se assistir à apresentação criada por Duda Maia é possível compreender a grandeza do tratamento dado para a fábula composta por Leminski, que não se contextualiza especificamente por um cenário de conflagração campal, mas pela delicadeza com que explora aspectos subjetivos do desenvolvimento humano do personagem ao ter que desbravar uma trajetória de percalços, escolhas e lutas diárias pela sobrevivência para que se traje de uma carcaça que o capacite a defrontar suas guerras interiores.

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Guerra Dentro da Gente – Foto: Guga Melgar

Dirigido por Isaac Bernat, “Filhote de Cruz-Credo” conta uma história baseada na experiência pessoal de Carpinejar. O protagonista Fabricio(Eduardo Katz), devido ao seu aspecto físico convive com os mais pejorativos apelidos que afetam diretamente sua personalidade e sensibilidade. A partir do momento que descobre no humor uma arma de defesa, se abre uma nova perspectiva de enfrentar os preconceitos que a vida social lhe desafia. Narrativa leve e fluída, com capacidade de apontar uma curva dramática bem definida em todo o processo da busca da autoestima pelo protagonista através de uma estrutura psicológica bem alinhavada.

Fillhote de Cruz-Credo - Foto: Chico Lima

Fillhote de Cruz-Credo – Foto: Chico Lima

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Teatro e música, teatro com musica…teatro musical infantil:

Dois espetáculos em particular se destacam nesse aspecto: “A Árvore que Fugiu do Quintal” e “O Menino das Marchinhas”.

A Árvore que Fugiu do Quintal - Foto: Leo Aversa

A Árvore que Fugiu do Quintal – Foto: Leo Aversa

A Árvore que Fugiu do Quintal”, dirigido por Zé Helou, levou ao palco do Oi Futuro uma atmosfera viva através de criação estética que acentua todo um aspecto lúdico. As letras e músicas de Vinícius Castro contribuem para o resultado final pela qualidade das composições, sempre interpretadas com bastante eficiência por um elenco que tem entre seus integrantes atores com inegável talento musical, especialmente Tatih Köhler e Reiner Tenente. Um espetáculo que além de buscar despertar uma consciência ecológica, reúne qualidade técnica e talento artístico.

Antes de tudo, confesso! Não assisti “O Menino das Marchinhas”, dirigido por Diego Morais e dramaturgia de Pedro Henrique Lopes. Ainda assim indico? As referências e fontes que me chegaram asseguram a indica-lo como um dos mais importantes espetáculos de temporada do teatro infantil, com a promessa expressa de que em caso de uma nova temporada acamparei na porta do teatro desde a véspera para me redimir. Segundo sua sinopse oficial, é “baseado em trechos da juventude do compositor Braguinha, o espetáculo utiliza os seus sucessos para transportar os espectadores para os divertidíssimos carnavais de rua da capital fluminense em 1920”. Meu Deus! Como perdi isso?

O Menino das Marchinhas

O Menino das Marchinhas

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Flávia Lopes:

Flávia Lopes merece destaque nessa temporada por seus espetáculos “Um Sonho Para Méliès” e “A Arca de Nina”, como é igualmente importante destacar seu trabalho na Cia dos Bondrés(que esse ano voltou a apresentar “Oikos”), e também a frente do Atelier Gravulo, responsável pela confecção de máscaras para alguns dos mais relevantes  espetáculos do ano, como os próprios “Sonho para Méliès” e “A Arca de Nina“, assim como  “A Feira de Maravilhas do Barão de Münchausen”, “A Lenda da Menina Água” e “Por que nem todos os dias são dias de sol?

Um Sonho para Méliès - Foto: Rodrigo Menezes

Um Sonho para Méliès – Foto: Rodrigo Menezes

Em “Um Sonho Para Méliès”, Flavia Lopes apoiou-se em diferentes técnicas para embasar sua encenação, como a manipulação de boneco, a projeção e a arte da palhaçaria para criar uma atmosfera de magia. Insere ainda projeções e imagens dos filmes de Méliès que juntamente com a sua construção dramatúrgica e a colagem de filmes de “Tempos Modernos” de Chaplin, passando por “ET” e” Guerra nas Estrelas” despejam uma carga emocional pela ambientação. Já com “A Arca de Nina”, em codireção com Marise Nogueira, também se utiliza de diferentes linguagens dentro de uma mesma representação para construir um conceito cênico expandido na utilização de máscaras e na técnica da manipulação de bonecos. A linguagem do audiovisual permeia boa parte da representação nas referências e citações inseridas nos próprios diálogos, nas analogias e nas interações entre a representação viva do palco com as cenas expostas na tela, diferentemente de “Um Sonho Para Méliès” que tinha um aspecto mais onírico e poético.

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Teatros e Programação:

Desde que a residência artística Vem! Ágora assumiu a ocupação do Teatro Ipanema é gratificante percebermos a importância que voltou a alcançar na vida cultural da cidade, agora compatível com  o relevo de sua história. Isso fica muito patente não somente na qualidade das peças em destaque no seu horário nobre, mas igualmente na excelente programação infantil que disponibiliza atualmente. Se apresentaram espetáculos de inegável qualidade como “A Cozinheira, o Bebê e a Dona do Restaurante”, “Oikos”, “Jogo!” e “Por que nem Todos os Dias São Dias de Sol?”.

Teatro Ipanema

Teatro Ipanema

Outro espaço de enorme relevância e que voltou a apresentar ótimos trabalhos foi o Oi Futuro, tanto do Flamengo, quanto de Ipanema. Assistir um espetáculo infantil no Oi Futuro é por si só garantia de qualidade.

Já no campo oposto podemos destacar negativamente a programação do Teatro do Fashion Mall, que com raras e honrosas exceções apresentou espetáculos de baixíssima qualidade artística, com conceito do pior que o teatro infantil pode oferecer, alguns dos quais eu presenciei.


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