Teatro Infantil: Balanço 2017


 
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Foto: Renato Mello

Por Renato Mello

Após ter assistido 53 espetáculos do segmento infantojuvenil em 2017, o balanço que chego reflete uma temporada muito irregular, com um 1º semestre ruim em que não é possível mencionar mais que 5 espetáculos com um bom nível técnico, mas que melhorou sensivelmente na 2ª parte, com uma maior oferta de propostas que conseguiram se complementar como uma obra viva e com capacidade de envolver seu público. Não foi o ano dos sonhos, mas também não chegou a ser o pesadelo que se prenunciava nos primeiros meses, por uma série de complicadores exteriores à capacidade dos criadores que talvez caiba expormos detalhadamente em uma nova oportunidade, a começar pelo calote no fomento às artes não pago na gestão passada da Secretaria Municipal de Cultura e não honrado pela atual administração, que atingiu em cheio uma série de produções em andamento.

Mas prefiro dedicar este texto a homenagear aqueles que dedicaram sua arte a um público com exigências muito peculiares.

 

Os Visitantes:

Um dos maiores nomes do teatro infantil de São Paulo, cujo nome não revelarei, comentou comigo certa vez: “ estamos tentando há muito levar nosso repertório para o Rio, mas parece que tem um bloqueio que dificulta a ida de peças para crianças de São Paulo para o Rio de Janeiro”. Talvez, por isso mesmo, somente em tempos mais recentes conseguiu mostrar seu trabalho por aqui. Neste ano, felizmente, três companhias de extrema representatividade no teatro infantojuvenil paulistano aportaram em terras cariocas, talvez não coincidentemente, todas com um trabalho de desenvolvimento de uma linguagem muito particulares. Desejo veementemente que retornem em um maior número de oportunidades.

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Cia Le Plat Du Jour – Cinderela Lá Lá Lá

Já havia recebido boas referências sobre o trabalho desenvolvido pela Cia Le Plat du Jour, com um histórico de reinventar os clássicos contos de fada com criatividade e bom humor. O sentimento que me passou a partir desse espetáculo, mesmo sem ter visto trabalhos anteriores que me permitam uma maior amplidão do olhar, é que existe ali dentro o aprofundamento na consolidação de uma linguagem que se desenha numa assinatura muito específica, além de um processo de maturação e decantação da sua narrativa. O que pude presenciar em “Cinderela Lá Lá Lá”, dirigido por Alexandra Golik e Carla Candiotto, salvo estar muito enganado, é que não se trata de uma especificidade deste trabalho, mas todo um moto-contínuo. Com boa dosagem de frescor e originalidade para uma narrativa que aponta para direções que surpreendentes, por vezes em vias adoravelmente absurdas, que jamais perde o fio de coerência na solidez da história.

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Foto: João Caldas

Foto: João Caldas

Conteúdo Teatral – “Cinderela” e “Chapeuzinho Vermelho”

No início do ano o grupo Conteúdo Teatral realizou uma ocupação no Teatro Fashion Mall em que apresentou dentro do universo do teatro infantil 2 espetáculos do seu repertório: “Cinderela” e “Chapeuzinho Vermelho”, com direção de Isser Korik. Não assisti “Chapeuzinho Vermelho”, mas tive a oportunidade de ver “Cinderela”. Com apenas 2 atores em cena(Ian Soffredini e Michelle Zampieri) interpretando 12 personagens do clássico conto de fadas, trocas constantes de figurinos ao longo da apresentação, com uma costura narrativa sem oscilações criando uma estética através de projeções, figurinos e  perucas que revestem a ambientação com tons próximos da linguagem do cartoon.

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Foto: Mariana Chamma

Foto: Mariana Chamma

Companhia Solas de Vento – Volta ao Mundo em 80 Dias

 No dia das crianças a Cia Solas de Vento se apresentou no tradicional Sesc Ginástico com “Volta ao Mundo em 80 Dias”, direção de Carla Candiotto. Eu havia assistido 1 anos antes em São Paulo um outro espetáculo da companhia, “Viagem ao Centro da Terra” no teatro Alfa, que me deixou encantado com a linguagem da companhia e das soluções encontradas para representar um texto tão complexo.  Pessoalmente considero “Volta ao Mundo em 80 Dias” inferior a “Viagem ao Centro da Terra”, ainda assim é uma mostra representativa de um trabalho que incorpora elementos corporais, vocais, audiovisuais e pantomimas para criar um “produto” híbrido e com grande força artística. As vídeo projeções não se inserem como acessórios já pré-produzidos, ao contrário, vão sendo construídas artesanalmente diante do espectador em interação com os atores Bruno Rudolf e Ricardo Rodrigues, num resultado visual expressivo. Um trabalho que merece todo o reconhecimento.

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O Mestre:

Foto: Sheila Oliveira

Foto: Sheila Oliveira

Miguel Vellinho – Ovelha Negra

São em tempos de desalentos que mais do que nunca necessitamos dos mestres para nos mostrar o rumo correto dos ventos. Demonstrando que por vezes é pela via da simplicidade que se alcança um aprofundamento e a complexidade, Miguel Vellinho apresentou o último projeto da Cia PeQuod, “Ovelha Negra“, em temporada no Teatro Maria Clara Machado. Se tudo parece fácil é porque existe uma pureza nos gestos que permite o espetáculo fluir com leveza . Assim ocorreu com “Ovelha Negra”, um espetáculo que a partir do universo musical de Rita Lee leva a uma interessante discussão sobre os padrões de comportamentos impostos pela sociedade. Independente se parte do público alvo não conheça suas músicas, a forma como as canções são inseridas cenicamente preenche de vigor a representação, executadas ao vivo. Pude perceber em todo o redor a reposta imediata das crianças pela maneira como reagiam corporalmente, se balançando, mexendo os membros ou sorrindo, jamais indiferentes. Uma prova inequívoca da força que existe na obra musical de Rita Lee, despertando sempre algum tipo de sentimento relacionado tanto com a vitalidade quanto a sensibilidade. Por fim, perguntei hoje a minha filha Beatriz, companheira de todas minha temporada infantojuvenil, qual seu espetáculo favorito do ano. Sem titubear me respondeu: “Ovelha Negra“!

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As Companhias:

Absolutamente necessário um olhar atento para os trabalhos realizados por companhias teatrais que dedicam seu olhar para o público infantil. Algumas delas se fizeram presentes com consistentes espetáculos:

Foto: Rafael Bisbis

Foto: Rafael Bisbis

Etc e Tal – O Alfaiate do Rei

Com texto e concepção cênica assinados por Alvaro AssadMarcio Moura e Melissa Teles-Lôbo, “João o Alfaiate” é uma livre adaptação do conto dos irmãos Grimm “João Mata Sete”, porém conceituada por formas de expressão que caracterizam todo um trabalho de linguagem que a Cia Etc e Tal vem desenvolvendo nos seus 24 anos de atividade, como a utilização da mímica e da pantomima, dando uma caracterização farsesca que resultou num adorável espetáculo teatral.

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Foto: Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

Crias da Casa – Sakurá

O texto escrito por Gabriel Naegele é virtuoso por ampliar a diversidade de percepções não tão usuais no segmento do teatro infantil, movendo uma engrenagem em busca de um olhar sobre princípios e valores, que embora universais, possuem uma abordagem muito particular da cultura oriental. A proposta carrega seus riscos justamente por trilhar zonas menos tangíveis da nossa formação, que em mãos pouco hábeis adentrariam facilmente por clichês e estereótipos, desvencilhados pelo autor primeiramente por uma história bem contada sem apelar para voos rasteiros, bem fundamentada em sua gênese e com interessantes ingredientes filosóficos.

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Trupe do Experimento – O Alfaiate de Palavras

A proposta teatral de Marco dos Anjos representa uma abertura da pesquisa da Trupe do Experimento em busca da maturação de sua linguagem, tendo ao longo desses 10 anos explorado possibilidades em diferentes frentes, que passo a passo e sem atropelos, vai paulatinamente desenhando sua assinatura.

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Os Musicais:

Espetáculos que buscam levar ao público infantil o universo de artistas que precisam sempre ser reverenciados. Nesse campo destaco:

Foto: Andrea Rocha

Foto: Andrea Rocha

Bituca – Milton Nascimento Para Crianças

Um processo que Pedro Henrique Lopes e Diego Morais vem amadurecendo com o projeto “Grandes Músicos Para Pequenos”, depois de levarem ao palco “Luiz e Nazinha”, sobre Luiz Gonzaga e “O Menino das Marchinhas”, sobre Braguinha, agora foi a vez de Milton Nascimento. Em “Bituca, Milton Nascimento Para Crianças”, Pedro Henrique Lopes e Diego Morais imprimiram uma maior contundência no aprofundamento de temáticas importantes que rodearam o universo de formação de Milton Nascimento, principalmente na questão do racismo vivido por uma criança negra num ambiente predominantemente branco, mas sem jamais perder de vista todo um aspecto lúdico e poético que habitam nas suas composições. Gosto bastante de todos os 3 espetáculos, mas enxergo em “Bituca” um texto mais potente, em que as canções irrigam com inteira harmonia toda a narrativa, elevando os tons de uma descarga emocional sobre uma plateia que se deixa entregar ao mundo que formou Milton Nascimento para todos nós.

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Tra – La – Lá

Lamartine Babo, um dos mais importantes compositores brasileiros, autor de incontáveis canções e inesquecíveis marchinhas carnavalescas, além de outras facetas como figura emblemática da sociedade brasileira da primeira metade do século XX, recebeu um belíssimo tratamento cênico a partir de projeto idealizado pela atriz, cantora e flautista Anna Bello, com direção de Ana Paula Abreu. mesclando com equilíbrio distintas técnicas narrativas, como a manipulação de bonecos, a metalinguagem e naturalmente, a música, trouxe aos palcos um resultado visual absolutamente adorável!

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Temáticas Complexas:

Para quem tem a ideia que teatro infantil não tem uma função muito maior que meramente entreter, dois espetáculos em especial apresentaram propostas bem mais complexas, sem jamais subestimar a capacidade do seu público e por isso mesmo, atingindo seu emocional.

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Foto: Yvina Raira

Makuru – Um Musical de Ninar

o tratamento dramatúrgico de José Mauro Brant se destaca por todo um embasamento sociológico que permite expandir o conteúdo poético existente num formato que, independente de o relegarmos ao inconsciente, ressurge do seu espaço recôndito desde as primeiras linhas melódicas entoadas em nossas lembranças pelos primeiros contatos musicais que tivemos em nossa existência. Mesmo as opções de Brant por personagens como a Murucutu, a Tutu e o João Pestana, não é obra de uma escolha aleatória, existe ali uma motivação bem sedimentada. Eles revelam os elementos que norteiam o caráter da gênese da formação brasileira, incluindo seus aspectos de terror, acentuado até mesmo pela origem escravocrata brasileira contaminada por ameaças e hostilidades, mas igualmente traços de resistência e preservação cultural das etnias negras e indígenas. O diretor estrutura os aspectos psicológicos depreendidos das cantigas de ninar, como o medo da morte, perdas, despedidas e separações, de maneira que se insiram com naturalidade e sutileza, dando coerência para a narrativa e permitindo sua boa fluência. “Makuru – Um Musical de Ninar” é um espetáculo de ótimo alcance artístico e com profundidade sobre o que discute

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Foto: Guga Melgar

Foto: Guga Melgar

Casa Caramujo

– Bergman para crianças?” Logicamente essa piadinha que fiz ao sair da sala de teatro não se referia a alguma similaridade na densidade ou complexidade d’“O Sétimo Selo”, mas pela inteligência com que Gustavo Paso desenvolve sua abordagem para uma temática que pode de início aparentar pouca palatabilidade e que ganha um tratamento, embora revestido de camadas filosóficas,  possui todo um aspecto lúdico buscando expor o sentido do ciclo da vida através de atos prosaicos, como quebrar um ovo, colher, verduras, fazer uma canja ou pescar, articulando uma contextualização de que a continuidade da vida depende necessariamente do convívio com a morte. “Casa Caramujo” é um projeto ousado de Gustavo Paso, pela sua temática e pelas opções cênicas, que o diretor alinha com extrema competência e sensibilidade.

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Flavia Lopes:

Foto: Rodrigo Menezes

Foto: Rodrigo Menezes

Tal como ano passado, tive que criar um tópico “Flavia Lopes” pela dificuldade de “classifica-la”. Mas novamente não posso deixar de cita-la. Este ano Flavia Lopes trouxe “História das Histórias”, mesclando teatro físico com música e palhaçaria criando uma representação de encantamento e poesia cênica por uma diretora que considero dentre as que melhor traduzem todo um sentido de integridade artística em trabalhos destinados ao público infantojuvenil.

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Por fim, é preciso registrar também: “Makupuni”, “Lá Dentro Tem Coisa”, “Romeu e Julieta, do Nosso Jeitinho”, “Mário, Mar e o Amor”, “Maria Menina” e “Tagarelando”, como espetáculos igualmente representativos da temporada.

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Destaque Negativo:

É inacreditável que teatros importantes como o Clara Nunes e XP Investimentos assumam uma atitude perniciosa com espetáculos que atentam contra os direitos autorais. O caso mais flagrante refere-se a “Uma Aventura no Mar”, uma transposição a meu ver tosca de “Moana“, condensada em 50 minutos de um roteiro original da Disney, utilizando-se de todos os personagens, reprodução integral de cenas, diálogos e o que considerei de mais surreal(para não utilizar outro termo), a reprodução das músicas foi mais além de um mero playback para os cantores utilizarem sua voz, simplesmente valeram-se da gravação original da Disney, incluindo a voz dos dubladores da versão em português. Ainda incrédulo, resolvi gravar o áudio do espetáculo para fazer a comparação quando chegasse em casa, para ter certeza do que presenciava. Enquanto a atriz se esmerava na dublagem dos agudos de “Saber quem Sou”, na verdade era a voz da dubladora oficial da Disney Any Gabrielly que ecoava pela sala, entusiasmando pais, que não sei se por ignorância ou comodismo, achavam lindo aplaudir uma cena que em pouco se diferenciava da performance do Pablo no “Qual é a Música?”. O texto completo sobre esse caso pode ser lido AQUI. “Uma Aventura no Mar” talvez seja um símbolo de uma relação de cumplicidade entre diversas salas de teatro com espetáculos que, naquilo que tenho como meu conceito moral,  afronta os limites éticos e os direitos autorais.


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