Teatro Infantil: Discutindo Direito de Propriedade Intelectual


 

Por Renato Mello.

A vilã cria um plano para aprisionar todas as princesas. Essas vão entrando em cena individualmente e cantam temas compostos especialmente para os desenhos da Disney. Após seu respectivo número musical a princesa da vez acaba capitulando diante do terrível plano. Então entra em cena uma princesa loura com uma longa trança cantando “Let it Go”. O público que lota o teatro vem abaixo. Até a princesa de trança sucumbe ao plano.

Essa sequência de princesas dura aproximadamente 30/40 minutos, até que nos últimos 10 minutos de peça conseguem dar a volta por cima e todas se salvam.

Em resumidas palavras essa era a sinopse de um espetáculo infantil que assisti no ano passado. O nome das princesas não é nenhuma vez mencionado, mas estão todas lá: Branca de Neve, Iasmin, Ariel, Cinderella, Aurora, Elsa, com suas respectivas canções eternizadas pelos desenhos animados dos estúdios Disney.

Sem dúvida um arremedo de teatro.

Chocado com que havia presenciado, relatei à época para um diretor de teatro infantil, que respeito bastante. Ele comentou: “- Fórmula fácil…Mas estava cheio, né? Está aí a contradição”.

Neste último fim de semana assisti um espetáculo que segundo sua sinopse oficial, tratava-se de uma “livre adaptação do famoso conto ‘A Bela e a Fera’”. Com direção de Allan Raggazy, me deparei com a reprodução integral de 80% do diálogos do famoso desenho da Disney, execução de TODAS as canções compostas especialmente para a animação do cinema, recriação inexistente e embalada numa representação canhestra. Quanto ao teatro: casa cheia.

Adaptar um conto que a Disney levou para o cinema não é nenhum demérito. O que pretendo discutir é como se faz uma adaptação como essa. Até porque tem muita gente séria que fez lindos trabalhos. É importante acima de tudo separar o joio do trigo.

Em São Paulo, adaptando “Branca de Neve”, o diretor Billy Bond declarou recentemente ao blog Completa Virtual:(link original AQUI)

Mas essa história não é deles. Segui os mesmos passos. Peguei o livro original, fiz adaptação e contamos a história com as nossas músicas. Nós teatralizamos. A Disney não é dona da ‘Branca de Neve’ e nem da ‘Cinderela’, ela é dona do Mickey e do Pato Donald, mas não tenho visto nenhum musical com esses personagens. Todo mundo acredita que eles são os donos. Obviamente com todo o dinheiro que eles têm, e todo o movimento pós-guerra, os americanos tomaram conta de tudo, cinema e teatro inclusive”.

Lógico que a Disney não é a dona da história da Branca de Neve, da Aurora, do Aladin, da Bela e a Fera. Em sua grande maioria são histórias que remontam a idade média e que se perpetuaram através da tradição oral, até que nomes como Perrault, Irmãos Grimm ou Andersen deram-lhes um formato mais próximo do que conhecemos hoje e a Disney com toda sua pujança deixou sua marca no imaginário coletivo com esses contos.

Montar uma peça sobre esses personagens não é crime, até porque são de domínio público. Mas a coisa muda de figura quando se utiliza os mesmos diálogos do desenho, suas músicas, composição de personagens e trabalho de criação quase zero. Uma usurpação de direitos intelectuais. Além de uma possível questão criminal, uma discussão ética e moral. Qual a relevância artística de se levar à cena uma peça teatral em que se digitou todos os diálogos do desenho da Disney?

Escrevi tempos atrás um texto aqui no Botequim Cultural que dizia que “teatro infantil é coisa séria”. O artista que resolve trabalhar para esse público, tem que ter em mente que é necessário sobreviver sim, ganhar dinheiro sim, é preciso fazer girar a roda do “mercado do teatro infantil” sim. Mas com dignidade e sabendo que trata-se quase que um sacerdócio. O trabalho teatro infantil é tambem uma doação pessoal na formação moral e ética do seu público. Por isso que eu admiro tanto os verdadeiros artistas que se dedicam de corpo e alma a esse universo. Se acha que não tem esses atributos, sugiro que parta para outro gênero, sei lá, talvez comédia erótica dê uma grana legal.

Recentemente a Folha de São Paulo publicou um interessantíssimo artigo intitulado “Genéricos”(link original AQUI), que gerou alguma repercussão no meio teatral aqui mesmo no Rio de Janeiro, em que  afirmava:

“Peças infantis não oficiais embarcam no sucesso de desenhos famosos e garantem casa cheia”.

Os pais acham que fazem uma maravilha ao levarem os filhos para assistir a peças assim. E compram suvenires.

Afirmou na mesma matéria Dib Carneiro Neto, crítico e especialista em teatro infantil.

A matéria da Folha se referia a uma adaptação de “Frozen”, afirmando que “Com figurinos simples, os atores repetem os diálogos do filme sem medo, em meio a gelo seco e a flocos de neve falsa, que demoram a cair”. Confesso que não tenho o menor embasamento para falar dessa produção, pois não a vi. Mas me interessei em colocar uma lupa sobre o caso. No último dia 12 de fevereiro a justiça de São Paulo expediu uma liminar favorável à Disney. Diz o despacho do juiz:

Assim, DEFIRO o pedido de antecipação dos efeitos de tutela para DETERMINAR à ré …, que abstenha-se de divulgar, produzir e realizar, a qualquer meio que ao público se revele, o espetáculo “…  ..”, sob pena de pagamento de multa diária que ora arbitro em R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais) por descumprimento da obrigação, aumentando-se automaticamente para o dobro em caso de reiteração e sem prejuízo de apuração de crime de desobediência (artigo 330 do Código Penal).

Me remeti então a uma entrevista que fiz sobre teatro infantil para o Botequim Cultural com o músico Jay Vaquer, em que nos disse:

“Mas os pais não reclamam, acham que é isso mesmo…’Aaa…é só pra criança! Dane-se o ator interpretando pessimamente, desafinando uma música chata, com uma fantasia já puída, num cenário caindo aos pedaços’ Só pra criança’?? Oi?”.


Palpites para este texto:

  1. Até que enfim, leio palavras sensatas de alguém que parece traduzir o que me vai no íntimo.

    O circuito infantil do teatro no Brasil é cada vez mais decadente. Obviamente, muitas produções se destacam e optam por produções de fato originais, ou até mesmo reais ADAPTAÇÕES, mas a grande maioria são copias de filmes , sem nenhum cuidado, geralmente Disney, que garantem a casa cheia.

    A arte em si ou a mensagem para o público não é o que importa, e sim um Bordero recheado com o minimo de dinheiro e tempo investidos. A famosa formula do “sucesso”.

    Lamentável!

    • Sim, Renata. Enquanto isso, artistas criativos como você ficam horas e horas para colocar de pé e viabilizar uma produção com uma preocupação sincera com a formação desse público, sem substimar sua capacidade. Artistas e criadores como você, Renata. são essenciais.

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