Teatro Infantil É Coisa Séria


 

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 Desde que criei o Botequim Cultural, um dos temas que mais me dá prazer em escrever é teatro infantil, o qual tenho procurado, mesmo que modestamente e dentro das minhas limitações, incentivar e contribuir na divulgação de trabalhos e projetos, tentando dar atenção aos vários produtores e diretores que me contactam em busca de algum tipo de apoio. Não me recordo de ter deixado de abrir espaço a quem me pediu ou deixado de atender os amáveis convites que tenho recebido para assistir determinado trabalho, tal é o meu respeito e admiração por essa arte.

Passei a frequentar o universo do teatro infantil por força da profissão que exerço atualmente, a de pai de uma menina de 5 anos. Graças a ela, depois de burro velho, voltei a me encantar com os contos de Andersen, com as criações dos irmãos Grimm, com as histórias de Perrault, assim como o universo de uma série de autores nacionais, Maria Clara Machado, Chico Buarque, Fernanda Lopes de Almeida, ou com as recriações de Anderson Oliveira ou Marco dos Anjos e ainda vivendo a expectativa da primeira peça de Barbara Duvivier. O teatro infantil passou a ser uma paixão para mim, a ponto de hoje em dia poder afirmar que sou eu quem carrego minha filha para o teatro, já amargurado de vendo-a crescer e sabendo que daqui a poucos anos quando ela chegar na fase da autoafirmação, irá me dizer que não quer mais ver “peça de criança”. Acabará então minha desculpa para ver uma peça infantil? Felizmente o Botequim Cultural passará a ser minha desculpa.

Graças ao Botequim Cultural e a minha filha pude me aprofundar nesse mundo, conhecer seus criadores, atores, técnicos e posso até dizer que alguns deles se tornaram meus amigos. Descobri uma série de grandes profissionais que vivem e se dedicam de corpo e alma a esse segmento, criadores que exercem com a maior dignidade, competência e talento o ofício de grandes diretores do teatro infantil, como Anderson Oliveira, Marco dos Anjos, Rodrigo Rosado, Maria Lucia Priolli, Roberto Rezende, Carla Reis, Fabiano Leandro, Leandro Mariz, Sabrina Korgut, Daniel Herz, Antônio Carlos Bernardes, Susana Garcia, Daniel Dias da Silva, Diogo Villa Maior e mais uma série de nomes que, injustamente, não estão sendo citados.

Essas pessoas acima me ajudaram a entender que para se fazer uma criança se divertir e sair contente do teatro, não é necessário subestimar sua inteligência. Para fazê-la viver momentos de magia e fantasia não é preciso ser simplista e didático. Compreendi, ao contrário do que muita gente pensa, que teatro infantil não é sinônimo de teatro amador, muitíssimo pelo contrário. Existe toda uma cadeia profissional por trás, técnicos altamente qualificados, atores, figurinistas, iluminadores, cenógrafos, músicos, maquiadores, enfim, um sistema que funciona e que gira em torno do teatro infantil. Mas que tem problemas, lógico. São problemas de patrocínio ou de divulgação. Há também um problema crônico de espaço físico, aonde muitos espetáculos ficam “disputando” espaço no palco dos seus cenários com a peça principal do teatro. Com bem nos disse numa entrevista o diretor Leandro Mariz: “Em geral os infantis, precisam se adaptar aos adultos, e isso é um problema recorrente… Mas sim, é fato, as produções infantis estão sempre abrindo mão e por muitas vezes são as mais prejudicadas. Enfim, uma série de problemas que acabam por serem encarados, ao invés de obstáculos, como desafios a serem superados através da criatividade.

 Para tentar entender melhor os dilemas, os problemas, o processo de criação e os projetos, criei no blog uma coluna, pela qual tenho enorme carinho, chamada “Nos Bastidores do Teatro Infantil”. A coluna faz parte desse meu ideal de tentar levar o leitor do blog a perceber a grandeza e importância do teatro infantil. Outro momento de bastante alegria que me deu o teatro infantil foi a enorme quantidade de votos por parte desse segmento na 2ª edição do Prêmio Botequim Cultural, aonde numa eleição disputadíssima em que tivemos mais de 5 mil votos, “A Princesa e o Sapo” acabou levando nossa estatueta de Dom Quixote, que foi criada por Edgar Duvivier para ser o símbolo de nossa premiação.

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“A Princesa e o Sapo” recebendo o Prêmio Botequim Cultural de Teatro Infantil

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Escrevo esse texto num momento de amargura, aonde fiquei um tanto triste com uma peça infantil que vi hoje num importante teatro da cidade e que representou todo o contrário do que aprendi nesses últimos anos com esse incríveis profissionais. Se o resultado da peça é bom ou ruim, isso de um modo geral não é o mais grave, erros se cometem e isso faz parte do dia a dia de quem lida com a arte. O que me incomodou muito foi a maneira como se apelou para o óbvio e o esquemático, sem nenhuma preocupação com a dignificação do teatro infantil e com a única preocupação de encher a sala(o que conseguiu).

Mas deixemos isso de lado, foi apenas um espetáculo infeliz em meio a ótimos trabalhos que pude ver este ano, tendo a certeza que o teatro infantil me dará outros belos momentos de grande prazer.

Deixo aqui o meu muito obrigado para todos os profissionais do teatro infantil carioca, que trabalham para transpor o melhor do seu talento e da sua dignidade para os palcos de teatro da cidade.


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