Teatro Infantil: Pandorga Companhia de Teatro


 

18010020_1408071729243618_7807299881881105921_n

Por Renato Mello

Dentre os aspectos que mais me fascinam desde que passei a voltar um olhar mais apurado no teatro infantil, sem dúvida reside na peculiaridade com que as principais companhias teatrais constroem sua expressão cênica na especificidade com que se comunicam com o público desse segmento, como podemos observar no trabalho da Artesanal Cia de Teatro, da PeQuod, da Companhia de Teatro Medieval, entre outras. Em meio aos melhores, o trabalho da Pandorga Companhia de Teatro tem um lugar de destaque, em minha opinião, pela busca de uma qualidade dramatúrgica para abordar temáticas controversas ou delicadas. A prova disso é que mesmo espetáculos escritos quase 10 anos atrás se mantém vivos e atuais.

A Pandorga se sustenta sobre um tripé de feliz combinação: André Roman(um dos mais atuantes e competentes produtores do teatro carioca), Cleiton Echeveste(brilhante autor) e Eduardo Almeida(seguramente um dos melhores atores do nosso teatro infantil).

A oportunidade de se assistir a um painel completo do trabalho dessa companhia acontece neste momento no Teatro Glaucio Gill, no Festival Pandorga, exibindo as 3 peças que formam seu repertório “Juvenal, Pita e o Velocípede”, “Cabeça de Vento” e “O Menino que Brincava de Ser”.

Durante o festival pude finalmente assistir ao espetáculo que me faltava do repertório, “Cabeça de Vento”.

Cabeça de Vento

Escrito e dirigido por Cleiton Echeveste e encenado originalmente em 2012, “Cabeça de Vento” narra a trajetória de Léo, um menino de 8 anos, apaixonado por pipas. Enquanto aprende a lidar com a recente perda do pai, empreende uma viagem pela origem da pipa através da história da humanidade, se deparando com vultos como Benjamin Franklin, Fu Hao e Ricardo Coração de Leão. O que mais chama a atenção no espetáculo é a maneira como a dramaturgia de Echeveste aborda um tema tão complexo, a perda paterna, de modo tão fluente, mesmo que incômodo, mas com ternura e conduzindo seu personagem a uma travessia onírica rumo ao amadurecimento. O elenco formado por Eduardo Almeida, Guiseppe Marin e Tatiana Henrique sustenta a narrativa com atuações que atingem um nível emocional consistente sem apelar para fórmulas rasteiras. Eduardo Almeida divide-se representando o pai, Ricardo Coração de Leão e Benjamin Franklin, sendo que nos dois últimos tem a contribuição dos figurinos de Daniele Geammal para o processo de composição que o ator executa com graça, mas comove sobretudo na sutileza encantadora com que delineia a figura paterna. Guiseppe Marin, além do físico privilegiado para viver um personagem de 8 anos, permite percebermos a complexidade emocional que revolve seu interior sem necessitar expressar-se com maior eloquência. Tatiana Henrique interpreta a mãe e a figura histórica de Fu Hao, mantendo-se corretamente terreno da ternura materna e explorando o humor e a expressividade corporal para criar sua Fu Hao. “Cabeça de Vento” resulta num espetáculo profundo e de grande qualidade artística.

Em relação aos demais espetáculos apresentados pela Pandorga, já escrevi sobre ambos anteriormente e reproduzo abaixo uma síntese:

O Menino que Brincava de Ser - Foto: Renato Mangolin

O Menino que Brincava de Ser – Foto: Renato Mangolin

O Menino Que Brincava de Ser

Crítica Completa: (AQUI)

 de uma maneira lúdica e bem-humorada, numa grande brincadeira de meta-teatralidade, o espetáculo trata de questões presentes no universo familiar e escolar de toda criança: o respeito à diversidade, a busca da liberdade e do direito à livre expressão, o bullying, o questionamento de limites e padrões socialmente impostos e o lugar de afeto e apoio que a família e a escola devem representar para ela. Neste espetáculo a fantasia é um instrumento para educar, provocar e repensar conceitos.”

A construção da base dramatúrgica de Cleiton Echeveste não permite a diluição da narrativa e nem o esvaziamento do conteúdo, conseguindo manter o vigor da proposta através de um roteiro com a solidez fundamental para a estrutura cênica que dele se construiu. Atinge a profundidade no tom apropriado ao seu público para tocar em questões que podem mesmo ser controversas(talvez a mentalidade de alguns pais os levem a sentir incômodo, como pude testemunhar recentemente num outro contexto), mas temas absolutamente pertinentes, presentes e tratados de forma clara, com honestidade e de forma direta.

Um dos aspectos mais encantadores e cuja a qualidade dramatúrgica foi fundamental para seu êxito é o modo como Echeveste propõe uma brincadeira lúdica com seus atores, numa mutação constante de personagens em que todos interpretam cada um dos personagens. O modo como Echeveste conduz esse jogo consegue manter a delineação de cada personagem, independente de que ator esteja por baixo de sua pele. Realiza uma criação cênica de todo um universo utilizando poucos elementos, bastando uma arara de roupas, que com sua movimentação e o modo como se preenche, modifica contextos e situações, além de boas soluções na composição das cenas a partir das necessidades dramatúrgicas.

O jogo cênico entre os atores é mais intenso que de costume, pelo próprio rodízio nos personagens, pois no momento em que finda um personagem começa o outro, sem que se perceba uma alteração brusca nas  sutilezas e características de cada um deles, algo que só pode ser atingido com uma sintonia muito afinada e um perfeito entendimento da proposta…

Foto: Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

Juvenal, Pita e o Velocípede

Crítica completa: (AQUI)

Juvenal, Pita e o Velocípede” é a prova viva do poder que uma boa história, mesmo que singela, tem o poder de cativar por inteiro durante quase 1 hora tanto crianças, quanto adultos, através da eloquência de uma boa comunicação, levando a todos numa viagem lúdica para dentro do universo de um menino de 5 anos, Juvenal(Eduardo Almeida), que adora brincar com o velocípede construído por seu tio. Nessa sua viagem por distantes mundos pilotando seu velocípede, acaba conhecendo Pita embaixo de um cajueiro. Passam a se tornar amigos inseparáveis, o que acaba justamente por nos levar aquele teatro, nós e Juvenal a esperar a presença de Pita. Mas ela sempre se atrasa…

A direção é de Cadu Cinelli, integrante do grupo Tapetes Contadores de História, responsáveis por um dos mais belos trabalhos voltados ao público infantil e que tem uma rara capacidade de levar seu público a lindos voos imaginários pelos lugares longínquos do planeta, como ocorreu com o espetáculo que apresentaram em março na Caixa Cultural “Shtim Shlim – O Sonho de um Aprendiz”, que em minha opinião foi um das melhores apresentações infantis que pude ver esse ano(e olha que vi muita coisa!). Toda essa técnica dos Tapetes Contadores de História foi utilizada enorme habilidade por Cadu para realizar a construção de “Juvenal, Pita e o Velocípede”, transformando-o numa belíssima apresentação, que considero atualmente o que de mais interessante está sendo apresentado ao público infantil no Rio de Janeiro.

Cadu Cinelli necessita de pouquíssimos elementos para essa construção. Um excelente ator e um velocípede. O resto é puro exercício de criatividade a ser explorado do lindo texto escrito por Cleiton Echeveste.

Eduardo Almeida tem uma atuação impressionante em diversos sentidos. Seja pela sua empatia e presença, seja pelo estupendo trabalho tanto de expressão corporal, quanto vocal, pela entrega e transformação física que realiza para incorporar o menino Juvenal, raspando a cabeça, deixando crescer a barba, furando a orelha e acrescentando uma infindável quantidade de tatuagens provisórias pelas mais diversas partes do seu corpo. Eduardo possui uma ótima fluência narrativa e carisma, bastando-lhe poucos minutos para carregar todos os presentes para dentro de seu mundo. Uma das mais contundentes e expressivas atuações do ano.

Poucas coisas me são tão prazerosas como a oportunidade de vislumbrar um painel alargado de um grupo de artistas e criadores que se pautam pelo comprometimento integral com o seu público. Assim se notabiliza a trajetória da Pandorga Companhia de Teatro.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

maio 2017
D S T Q Q S S
« abr    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031