Teatro Infantil: Uma Aventura no Mar


 

Por Renato Mello

Enquanto assistia a apresentação de “Uma Aventura no Mar” no Teatro Clara Nunes, uma situação hipotética me vinha a mente a partir da lembrança de uma informação que constava no release oficial de outro espetáculo teatral em cartaz na cidade, “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”

Transcrevo abaixo:

Por algumas questões burocráticas, a adaptação teatral do filme nunca foi adiante. Apaixonados pelo longa-metragem, Charles Möeller & Claudio Botelho tinham um desejo antigo de encenar a história e foram surpreendidos com a notícia de que finalmente a transposição para o palco tinha acabado de ficar pronta. O próprio Henry Farrell, autor do romance original que deu origem ao filme, se dedicou a escrever a peça pouco antes de morrer, em 2006. Quase dez anos depois, os direitos foram liberados pela família e cedidos para a Möeller & Botelho.

Mas que relação “O Que Terá Acontecido com Baby Jane?” tem com um espetáculo infantil? Fiquei imaginando se Möeller e Botelho resolvessem montar o espetáculo sem se preocupar em adquirir seus direitos. O que aconteceria? Certamente o mundo lhes cairia sobre a cabeça. Felizmente ambos sempre foram extremamente zelosos com questões relativas a direitos autorais e certamente esse tipo de pensamento não lhes passaria da mais remota forma.

Continuei exercitando meus pensamentos: Por que somos tão perniciosos quando se trata de um espetáculo infantil? Por que situações que ocorrem corriqueiramente no teatro infantil raramente são debatidas ou comentadas?

Normalmente produções infantis se valem da capa do “domínio público” para transportarem ao palco filmes inteiros da Disney. Recordo-me de cerca de 2 anos atrás de ter assistido “A Bela e a Fera” num teatro na Barra da Tijuca, sendo que na véspera li o conto original e vi o DVD. No teatro me chamava a atenção o cartaz que dizia: “livre adaptação do famoso conto A Bela e a Fera”. Do conto não vi nada. O que presenciei foram diálogos e cenas extraídas integralmente do filme, assim como todas suas canções originais.

Nas últimas vezes que abordei essas questões recebi severas críticas(segmentadas, diga-se de passagem), de que estaria procurando “pelo em ovo”, “querendo ser mais realista que o rei”, “exagerado”, sempre se alegando o subterfúgio de que seria “domínio público” e me questionando: a Disney agora quer se apropriar da Bela e a Fera? Não pode mais adaptar a Cinderella? Por fim, o argumento mais contundente: Ahhhh! É só pra crianças…

Podemos e devemos adaptar “Cinderella” e “A Bela e a Fera”, como bem escreveu recentemente Dib Carneiro Neto em uma crítica sua sobre espetáculo igualmente encenado num teatro do Shopping da Gávea(coincidência?): “É importante, sim, que se continuem montando esses contos tradicionais tão importantes inclusive para a formação psíquica das crianças. Nada contra montar … Mas, por favor, cadê a criatividade e o talento para se recontar um clássico, atualizando-o, dando viço a ele, renovando sua linguagem?

Não compreendo a diferença da razão de Claudio Botelho e Charles Möeller ter que negociar os direitos teatrais de um filme e a produção de “Uma aventura no Mar” não precisar. Trago justamente “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?” para o centro da questão para contextualizar uma discussão que por vezes parece uma briga de surdos, porque trata-se exatamente da mesma situação. Simples assim: um filme(ou desenho) que foi adaptado aos palcos teatrais.

Em relação a “Uma Aventura no Mar”, informa o site do Shopping da Gávea:

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Imagem capturada do site oficial do Shopping da Gávea

Dois aspectos me chamam a atenção no texto acima, até mesmo pela sua incongruência. 1) A utilização da palavra “inspiração”. 2) A descrição da história. Basta ler a sinopse acima e perceber que é ipsis litteris a história do desenho da Disney, condensada em 50 minutos. Com um agravante: “Moana” é um roteiro original, não dando margem  para a desculpa de que se trata de uma adaptação do conto X.

Posso até ser um desinformado, mas desconheço por completo qualquer negociação da Disney para ceder “Moana” a qualquer produtora teatral brasileira.

Voltemos a falar em “inspiração”. Antes de me dirigir ao teatro preocupei-me em assistir ao filme. Testemunhei no teatro mais uma vez a reprodução integral de diálogos e cenas inteiras do filme. Inspiração? Mas havia um agravante: a reprodução das músicas foi mais além de um mero playback para os cantores utilizarem sua voz, simplesmente valeram-se da gravação original da Disney, incluindo a voz dos dubladores da versão em português. Ainda incrédulo, resolvi gravar o áudio do espetáculo para fazer a comparação quando chegasse em casa, para ter certeza do que escrevo. Enquanto a atriz se esmerava na dublagem dos agudos de “Saber quem Sou”, na verdade era a voz da dubladora oficial da Disney Any Gabrielly que ecoava pela sala, entusiasmando pais, que não sei se por ignorância ou comodismo, achavam lindo aplaudir uma cena que em pouco se diferenciava da performance do Pablo no “Qual é a Música?” do Silvio Santos nos anos 80. Assim se repetiu com todas as canções do filme.

Várias questões se põem na mesa, mas me chama igualmente a atenção que teatros localizados no coração da Zona Sul, frequentado por uma dita “elite cultural”, não tenham o menor critério ou curadoria sobre o que ocorre em seus palcos. Os teatros do Shopping da Gávea vem adotando um comportamento semelhante aos donos de grandes salões que alugam seu espaço para qualquer casamento, formatura, baile de debutantes ou algo que o valha, desde que pague suas extorsivas taxas de ocupação(as mais altas do Brasil). Os donos do teatro não se preocupam minimamente com essas questões? Basta-lhes as produções assinarem um termo declarando serem as únicas responsáveis por questões de direitos autorais, legais ou penais?

Outra questão que sempre volta à baila nesse tipo de discussão é sobre a afluência do público. Estava lotado, né? Inteiramente!  Isso absolve a violação de direitos autorais? Que exemplo se está dando a um público em formação? Ah! É só para crianças…

Não quero me estender por questões cênicas do espetáculo, a começar por sua irrelevância, mas principalmente por ter menores de idade envolvidos e certamente os únicos inocentes, motivo pelo qual me absterei de inserir qualquer foto do espetáculo ou citar nome de atores em algo que, no meu entendimento particular, configura violação de direitos autorais.

Termino meu texto extraindo um trechinho da entrevista que Fernanda Maia, dramaturga e diretora musical de espetáculos infantis de São Paulo, concedeu ao  site “Pecinha é a Vovozinha”:

Não faça teatro para crianças a menos que você queira, de verdade, se comunicar com este público. Trate a criança como você gostaria de ser tratado, seja honesto e responsável. Não se paute somente por questões mercadológicas, nem porque você acha que é mais fácil de vender. As crianças entregam para a gente todo seu encantamento, elas precisam ser tratadas com respeito”.


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