Teatro Infantil – Uma Visão


 

teatro infantil 10

Por Renato Mello.

Para um público generalista e que tem presença ocasional num espetáculo teatral, como é o caso da gigantesca maioria de nossa população, resiste ainda uma ideia de que teatro infantil é sinônimo de atores amadores, roupas puídas, cenários frágeis que ameaçam desmoronar sobre o elenco e um repertório limitado baseado apenas em famosos contos dos irmãos Grimm ou transposições literais para o palco de filmes da Disney.

Essa realidade pode de fato até existir, mas taxa-la como um retrato do atual teatro infantil é uma visão distorcida e obtusa do que se pratica hoje no Rio de Janeiro, em São Paulo e outros importantes centros culturais do país. O cenário está longe de ser o ideal, mas quem acompanha o que acontece atualmente verá em cena atores altamente preparados, com uma sólida formação tanto na intepretação, no canto e na dança, produções muito bem realizadas que nada devem a uma peça dita adulta. Sem dúvida um quadro muito diferente daquele que inquietava, por exemplo, o jornalista Accioly Neto em 1949 na Revista “O Cruzeiro”:

Compreendendo a imensa dificuldade que existe em se obter essa simplicidade indispensável, em apresentar uma história cenarizada para crianças muito maior do que desenvolver um tema dramático para adultos, é que a inflação do teatro infantil, que se ameaça em nosso meio artístico, me parece assustadora. Isso porque, peças infantis desapropriadas, serão capazes de afugentar definitivamente as crianças do teatro ao invés de atraí-las e em última instância, inutilizarão futuras gerações de espectadores para o dia de amanhã”.

Lógico que ainda em nossos dias os atores não ganham nem perto do que mereceriam, o investimento e orçamento são muito menores, assim como o retorno financeiro longe de dar uma independência. Mas pensando bem, são exatamente os mesmos problemas que o teatro adulto também enfrenta, mas em proporções maiores(em todos os aspectos). Quantos artistas conseguem viver exclusivamente de teatro? Contamos nos dedos. Quantos ficaram ricos fazendo teatro no Brasil? Contamos também nos dedos(mas só de uma mão)

Bem distante do quadro de 1949, há hoje uma profissionalização maior do teatro infantil em todos os seus departamentos, porém sem que tenha se perdido em definitivo alguns resquícios do amadorismo. Profissionais sim, mas também abnegados. São artistas e técnicos que não utilizam o teatro infantil como um meio para se chegar no “grande teatro”, mas como um fim. Dedicam seu tempo e suas ideias para desenvolverem trabalhos para o teatro infantil.

Alguns profissionais parecerem ter chegado à conclusão que existe sim um espaço ocioso e não explorado. Há alguns anos atrás, quando Luana Piovani ou Lázaro Ramos, estrelas de cinema e televisão, capa de todas as revistas, que recebem notas pelos fatos mais corriqueiros,  causaram um certo estranhamento ao resolverem voltar esforços para produções infantis no teatro, como se fosse um gesto excêntrico, conforme pode ser notado no registro do jornalista Nondas Correa da revista “Famosos & Empreendedores” sobre o opção de Luana:

“…decidiu seguir o seu caminho sem dar ouvidos as críticas de alguns ‘entendidos na área’ que sempre falavam que não dá para ganhar dinheiro com peças infantis e o ator fica sem credibilidade no mercado.(Porque fazer teatro infantil no Brasil é apenas para quem está iniciando ou para quem está no final de carreira e não conseguiu nada como ator)..”.

O raciocínio de Nondas é correto e certeiro ao retratar justamente a visão distorcida que mencionei no começo do texto. Mas Luana Piovani, como sabemos, de tola nunca teve nada, respondeu essa questão ao jornalista Alexandre Schnabel na Revista Pontocom:

…Descobri que o potencial desse mercado merece ser levado a sério e que o público reage bem se percebe que está sendo tratado com sinceridade e respeito. Uma produção de teatro infantil leva um tempo enorme e gasta uma fábula se tiver de ser realizada como tem de ser. Até porque uma peça infantil lida com o imaginário de uma faixa etária, faixa etária que não tem limites. Mas o retorno é enorme.”


“A Menina Edith e a Velha Sentada”, de Lázaro Ramos

Para escrever esse texto, realizei junto a alguns produtores teatrais uma pequena pesquisa sobre o orçamento de uma peça teatral infantil com uma produção caprichada, contando com bons figurinos, cenários, iluminação bem desenhada, mas sem maiores luxos. Uma peça desse top pode ser feita entre R$ 60 e 100 mil. Lógico que uma produção mais luxuosa tende a ter valores maiores, 200, talvez 300 mil. Quando observamos as bobagens que andaram sendo feitas no teatro nacional, utilizando isenções fiscais e leis de incentivo, na casa dos 7, 8 e até 10 milhões de reais, fico pensando em quantas peças infantis de grande qualidade poderiam ser feitas com o dinheiro de apenas 1 dessas produções? Umas 100, 150 peças infantis de altíssimo nível.

Felizmente o universo do teatro infantil conta hoje com produtores ativos que tem uma visão mais ampla não só do potencial, mas da consciência que estão fazendo arte e da importância desse trabalho na formação do público infantil. São nomes como Vanessa Dantas ou Pablo Sanábio, que tem se caracterizado por levantarem produções teatrais de grande complexidade, com uma dramaturgia consistente, com um alto grau de exigência no resultado final e que acabaram realizando peças teatrais lindíssimas que encantaram crianças, mas igualmente incontáveis adultos.


“O Elixir do Amor”(2014), direção Daniel Herz, produção Vanessa Dantas

Assim como podemos encontrar companhias que estão há anos fazendo do teatro infantil uma arte superior, com o desenvolvimento de um repertório próprio, um trabalho de pesquisa de linguagem muito particular e que se tornaram referência. Nesse caso podemos citar o trabalho realizado no Rio de Janeiro pela Artesanal Companhia de Teatro e em São Paulo a Cia Vagalum Tum Tum, com um sofisticado nível técnico e levando o que existe de melhor da literatura para o público infantil, o que pode ser confirmado para quem assistiu as adaptações de Oscar Wilde(“O Gigante Egoísta”) e Edmond Rostand(“Cyrano de Berinjela”) da companhia carioca,  enquanto os paulistas realizam um trabalho magnifico com um repertório baseado em Shakespeare(“As Bruxas da Escócia”, “O Príncipe da Dinamarca”, “Othelito”, e “O Bobo do Rei”). Importante registrar também o trabalho realizado nesses últimos 20 anos pela Companhia de Teatro Medieval, tendo à frente Márcia Frederico, buscando no teatro popular da Idade Média sua forma de expressão para levar ao público infantil a recriação de uma leitura de  teatro que é a referência básica de tudo que se faz em arte até os nossos dias, sem deixar de mencionar a Cia dos Bondrés, com Fabianna Mello e Souza que desde 2007 apresenta com grande beleza a técnica da representação do ator através do  jogo de máscaras, num trabalho único e original e a Trupe do Experimento, de Marco dos Anjos.


“O Princípe da Dinamarca”, Cia Vagalum Tum Ttum. Direção: Angelo Brandini

Outro aspecto que só comprova o quanto o teatro infantil pode acrescentar para o desenvolvimento artístico de um criador, através da codificação da sua linguagem particular, é a participação de alguns destacados diretores teatrais brasileiros inseridos diretamente nesse universo, com trabalhos extremamente relevantes de nomes como Daniel Herz, Gabriel Vilela, João Falcão, Joana Lebreiro ou Isaac Bernat, debruçados com paixão por belos projetos infantis, dando-lhes a mesma importância e significado que suas produções mais sofisticadas.

Se a literatura infantil brasileira tem em Monteiro Lobato seu símbolo maior, no teatro temos em Lucia Benedetti a grande desbravadora desse caminho a partir de ”O Casaco Encantado” em 1948 e em Maria Clara Machado a figura que deixou como legado além do seu trabalho frente ao Tablado, todo um colchão dramatúrgico que serve(e servirá) de sustentação para muito do que se faz de teatro infantil no Brasil, sendo fundamental que as novas gerações continuem a ter seu imaginário irrigado pelos personagens únicos que habitam o universo de Maria Clara, como Pluft teve um lugar importante na minha infância. Um trabalho que vem felizmente sendo levado adiante através de Cacá Mourthé. Mais além dessa base, é necessário o desenvolvimento e uma permanente produção de novos textos para oxigenar e apontar novos rumos para o teatro infantil. Grandes autores contemporâneos têm tido importante participação em obras recentes de boa repercussão, como Adriana Falcão e o cineasta Jorge Furtado. Muito antes de ganhar o Prêmio Shell, Renata Mizrahi teve no teatro infantil o alicerce e a base que acabaram tornando-a uma das mais importantes e reconhecidas autoras teatrais do Brasil. Assim como na mais recente safra temos tido autores gerando trabalhos originais ou mesmo adaptações de obras menos óbvias, mas de grande riqueza e complexidade, como também Nathalia Colon(“O Pequeno Autor”), Rafael Gomes e Vinicius Calderoni(ambos por “Mas Por Que?!? A História de Elvis”)ou através de um produtor obstinado como Alexandre Lino investindo em novos autores como Barbara Duvivier e Daniel Porto.


“A Bruxinha que era Boa”, de Maria Clara Machado. Direção: Cacá Mourthé


“Coisas que a Gente não Vê”. Texto: Renata Mizrahi. Direção: Joana Lebreiro

Quando falamos de dramaturgia acabamos por entrar num tema espinhoso e que tenho me transformado num chato paranoico que são as adaptações dos contos de fadas clássicos. Voltando ao princípio do texto, faz parte do estereotipo associar quase que imediatamente teatro infantil se resumindo a esse tipo de adaptação. Como já disse várias vezes, não tenho nada contra, mas a dramaturgia infantil não se resume a isso. O tema é polêmico, mais ainda porque é área fértil para os oportunistas de plantão que com a desculpa de utilizarem-se do conto original, acabam levando para o palco na verdade uma transposição literal do desenho da Disney e praticamente ignoram a história original(sobre a qual não tem de fato o menor interesse). Bem, essa discussão é longa e pode ser vista em mais detalhes AQUI.

Na verdade a questão é muito mais antiga que os insignificantes 3 anos de existência do Botequim Cultural. Vejamos o que escreveu em maio de 1949 Sebastião Fernandes para a Revista Ilustração Brasileira sobre o tema:

Os psiquiatras condenam os contos de fadas para a primeira infância, pois dizem que verificaram causas das psicoses no adulto. Também antes de Freud os alienistas já haviam constatado os distúrbios mentais derivados da féerie, dos sacis e duendes que se incrustaram na mente das crianças e dizem que as desordens mentais chegaram às vezes a paranoia. Isso sem falar nas taras ancestrais…

Pascal dizia que a poesia ajuda a viver. Se os adultos também gostam de sonhar, porque roubar nas criancinhas as cenas de fantasia? Por acaso o sueco é algum lunático só porque a aventura de Nils Helgrsoe que contou a todas as crianças lá da Escandinávia a história dum anão montado num ganso selvagem? Os pedagogos modernistas e bem materialistas apelariam para um gigante dentro dum avião… E todos os crimes fascistas germânicos têm origem em contos de fadas?

Ainda que não houve um criminalista que encontrasse entre os mais tarados criminosos algum amante de contos de fadas. No entanto todos nós sabemos como são explorados outros gêneros de publicações…

No entanto sabemos quantos contos de fadas mostram a vida verdadeira, dando-os conselhos, preparando o espírito infantil com exemplos e alertando a existência de seres bons e mãos, e, portanto, ensinando o caminho da vida prática. Pelo menos os contos maravilhosos jamais ensinaram os meninos a jogar pedra no professor numa antecipação jornalística da estratégica casca de banana posta no caminho dum super maioral. ”

Esse pensamento de Sebastião Fernandes vem bem a propósito do que penso sobre o tema e que acho fundamental que eles continuem sendo contados e repassados ao público infantil, se perpetuando. Embora de um modo geral, noto que há um certo preconceito de uma elite pensante sobre esses espetáculos, certamente contaminados em seu pensamento justamente pelos maus profissionais. Existem ótimos diretores que tem feito um belo trabalho de recriação sobre esses contos, como Anderson Oliveira, que buscou referência nos “Saltimbancos” de Chico Buarque e no seu derivativo, o filme “Os Saltimbancos Trapalhões”, bebeu lá na fonte original dos Irmãos Grimm e transformou tudo em uma outra coisa, recheada de referências, mas sendo um produto final híbrido, com a sua dramaturgia e estilo pessoal, como foi o caso de “Os Músicos de Bremen”. Dessa mesma forma vem atuando outros diretores com trabalhos extremamente sérios sobre esses contos, como Carla Reis, Leandro Mariz e Sabrina Korgut.

Uma outra questão ser levantada é a falta de reconhecimento tanto na grande imprensa e mesmo pela própria classe teatral(por incrível que pareça). Enquanto TODOS os filmes infantis tem suas críticas publicadas, acompanhadas de generosas matérias, o teatro infantil é absolutamente ignorado. Aonde se pode ler uma crítica contundente e completa num grande jornal? Seja Folha, Estadão, Globo, O Dia. Recentemente “O Globo” abriu espaço mensal para uma crítica mais ampla e criteriosa, assinada por Mànya Millen, que tem produzido excelentes textos. Mas é muito pouco! Uma crítica por mês…espero que seja um começo. Lógico que não podemos deixar de falar da crítica semanal da Revista Crescer por Dib Carneiro Neto, que continua sendo uma importante referência.

Outro ponto, considero constrangedores vários prêmios teatrais que incluem em meio à diversas categorias: “Melhor Peça Infantil”, dando-lhe um peso de subgênero, quase que um prêmio de consolação, um prêmio “café com leite”. Mas felizmente o Prêmio Zilka Sallaberry se consolidou e se transformou uma referência, chegando já próximo da 10ª edição em um trabalho louvável de Carlos Augusto Nazareth no comando do Cepetin, assim como os Prêmios CBTIJ e São Paulo parecem ter vindo para ficar. Os prêmios são importantes para que possamos fazer avaliações, repensar o teatro infantil, compreender os rumos tomados e os que virão, além do enorme reconhecimento que representam, deixando técnicos e artistas gratificados.

foto: Renato Mello. Vencedores da última edição do Prêmio Zilka Sallaberry

foto: Renato Mello. Vencedores da última edição do Prêmio Zilka Sallaberry

Apesar do quadro ser positivo, confesso que nesse 1º semestre de 2015 ainda não me deparei com uma grande quantidade de peças que tenham me despertado um certo brilho. Até o momento, assisti em torno de uns 3 espetáculos que me causaram entusiasmo. Acho pouco. Além da péssima notícia recebida com o fim do Teatro do Jockey, lugar em que vi importantes peças infantis e sede do Centro de Referência Cultura Infância há 12 anos sob o comando de Karen Accioly. O Centro na verdade não acabou, será transferido para o Teatro Maria Clara Machado, mas há que se lamentar a extinção de mais um palco que apresentava um teatro infantil de qualidade e criterioso em suas escolhas.

O teatro infantil consegue me empolgar, graças a artistas e criadores maravilhosos que tem se entregado de corpo e alma para essa arte. Acreditem, há muita vida inteligente no teatro infantil.

.

* Fontes utilizadas: Arquivos dos sites do CBTIJ(http://cbtij.org.br/) e Cepetin(http://www.cepetin.com.br/)


Palpites para este texto:

  1. O que li aqui me deixou muito feliz! Um panorama que há muito não via em nenhum veículo de comunicação, e que nos faz pensar que nós que fazemos espetáculos voltados para os pimpolhos, temos que estar cada vez mais preparados para apresentar sempre novas ideias e novas soluções criativas porque finalmente estamos sendo vistos, finalmente estamos sendo ouvidos, estão nos dando a atenção necessária para que tenhamos mais incentivo em fazer do nosso trabalho uma busca pela excelência!
    Parabéns Botequim Cultural por mais essa linda publicação.

  2. Bacana, Renato!
    Vamos em frente, sempre!!!

    Vida longa ao Botequim Cultural.

  3. Agradeço a vocês, meus caros Leandro Mariz e Henrique Gonçalves. Artistas e criadores que tanto admiro, verdadeiros militantes de um teatro infantil de qualidade. Abraços para vocês.

  4. Parabéns Botequim Cultural pelo texto. Teatro infantil é tudo de bom. Não só no Brasil. Aqui em Munique, Alemanha, o Teatro Brasileiro de Munique faz teatro em português há anos com bastante sucesso e com peças inéditas como: Entre o Amor e a Espada, Amigos para Sempre, O Príncipe Enfeitiçado entre outras. Se me permitem divulgar, as peças são inéditas no Brasil e podem ser pedidas através do e-mail info@ricardo-eche.com. Convidamos também grupos a se apresentarem. Entrem em contato. Abraços e obrigado.

  5. Renato linda matéria.
    Fico cada dia mais feliz com o caminho que o teatro infantil toma agora…
    Fico feliz como atriz e educadora q faz das aulas uma maneira de deixar as crianças se expressarem de forma natural e com isso aprendo cada vez mais e mais com elas a arte de interpretar.
    E posso ver q estas crianças são respeitadas pelos autores das peças infantis q assisto.
    Parabéns Renato e Botequim Cultural!

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