Tempos Difíceis para a Imprensa Americana


 

São tempos muito difíceis para a imprensa. Na Argentina? Poderia ser. Bolívia, Equador, Venezuela…? Talvez. Mas me refiro aos Estados Unidos, o país das liberdades de opinião e de imprensa.

O fim da era Bush parecia ser o enterro de um dos períodos mais negros da história do jornalismo norte-americano, aonde de um lado houve o uso coercitivo e intimidatório contra a instituição jornalística e do outro lado houve a capitulação mais vergonhosa e covarde por parte dos grandes e “independentes” órgãos de comunicação e de seus repórteres e comentaristas, com raríssimas e honrosas exceções.

A truculência utilizada e outros expedientes gerou uma série de situações constrangedoras, principalmente nas coletivas da Casa Branca durante o período das Cruzadas pós-modernas lideradas por Bush Jr e seus cavaleiros, Colin Powell, Donald Rumsfeld, Condoleezza Rice e demais templários. Tudo que era dito naquela sala de imprensa era recebido como verdade absoluta, sem contestação ou questionamentos mais profundos. Quando alguém ameaçava fazê-lo as caras feias por trás do microfone era o suficiente para o recolhimento de um mínimo de “ousadia”, ignorando um papel primordial do jornalismo que é o de ser permanentemente cético.

A doutrina do “quem não está comigo, está contra mim” causou danos nefastos à liberdade de imprensa. O medo do questionamento e da dúvida que poderiam transformar um jornalista correto e coerente em um antipatriota gerou um jornalismo covarde aonde a simples ameaça de boicote por parte de grupos econômicos ou étnicos era razão para grandes órgãos de imprensa capitularem.

O cúmulo da patetice se deu em 2003, quando Colin Powell apresentou na ONU aquilo que dizia serem as provas cabais da existência de armas químicas no Iraque. Assisti em tempo real pela TV a explanação do heroico General, apontando os lugares exatos das armar químicas. Recordo-me que eu olhava e não via nada ali que pudesse ser uma prova definitiva, só via suposições e especulações. A imprensa americana imediatamente expôs manchetes como “Powell prova a existência de armas químicas no Iraque”.  Eu não acreditava no que lia, comecei mesmo a duvidar de minha sanidade. Estaria eu louco? Só eu não conseguia ver nada daquelas afirmações do NY Times, Washington Post, NBC, CNN…

As armas não foram localizadas jamais, como todos sabem. Aqueles mesmo membros da cúpula americana diante do vergonhoso fato se desculparam afirmando que a CIA errou ou havia sido enganada. Ora, a CIA não errou, a CIA simplesmente atuou de maneira política selecionando os subsídios que interessavam aos objetivos da administração de Junior. Que agente em sã consciência teria coragem para desdizer aquela falácia mesmo que estivesse repleto de convicções? Sabia que seria transferido para fazer espionagem na Antártida.

Mas nem tudo era capitulação. Lembro-me de Thomas Friedman, o incensado colunista do NY Times, um dos mais ardorosos defensores da invasão ao Iraque. Friedman nunca capitulou, sempre acreditou de fato e sinceramente naquilo, o que é respeitável. Eu lia as crônicas de Friedman e pensava: Meu Deus! Esse homem está míope e não percebe. O mundo de Friedman parecia vir de uma dimensão diferente daquela que enxergo. Mas Friedman sempre teve seu ponto de vista e acreditava aquilo porque essa é sua visão do mundo, se não é a mesma que a minha só cabe a mim respeitá-la. Era errada, mas era legítima.

 No mesmo jornal havia aquele que eu considerava como a última voz lúcida da América, Paul Krugman. Nem jornalista é, mas não havia como não se falar de política naqueles tempos. Krugman foi extremamente atacado e ameaçado, mas nunca deixou de expor seu ponto de vista extremamente crítico à loucura generalizada que tomou conta de toda uma sociedade.

A era Bush deveria ter sido varrida para  sempre para debaixo do tapete da história do jornalismo.

Assumiu então aquele simpático democrata, homem de uma empatia e um carisma impar. Fala bonita, discursos esperançosos , sua alegria renovadora parecia ser o despertar de uma nova era.

Mas não é isso que está se dando, mas agora a coerção se dá de outra maneira, mais sutil e sem truculência, mais ao estilo light Barack Obama de ser. Uma repressão como quem não quer nada, mas está pairando sutilmente no ar e de maneira menos específica e mais ampla. Há uma tentativa de tentar intimidar jornalistas, sem a agressividade e o rosnar de dentes de outrora, que ameaçava economicamente os órgãos de imprensa(que sempre é a parte mais sensível).

A ordem agora é criminalizar os jornalistas. Assim a “censura” corre de maneira mais discreta, nos corredores do tribunais e longe do olhar do grande público. Intimida a parte de baixo, o jornalista e que pouco atinge a parte de cima, o jornal.

Nesse momento em que há uma caçada sem tréguas a Edward Snowden, ameaçando países e quem quer que o ajude, chegando ao ponto absurdo de fecharem o espaço aéreo do avião do presidente da Bolívia simplesmente porque suspeitavam que Snowden pudesse estar a bordo. Lógico que contou com a vassalagem vergonhosa de França, Espanha e Portugal. Snowden sabe que se for pego verá o sol nascer quadrado para o resto de sua vida por ter revelado informações sigilosas do governo americano, principalmente a espionagem feita pelo governo Obama de cidadãos dos mais diferentes países. Essa caça sem tréguas a Snowden trouxe a baila um outro nome: Glenn Greenwald. Jornalista do “Guardian”, morador da Gávea e responsável por levar a público as revelações de Snowden. O governo americano está neste momento estudando a possibilidade de pedir a prisão de Greenwald. Na visão do governo Obama, o jornalista teria cometido um crime a publicar tais revelações, ignorando que jornalistas têm direito de obter informações com fontes.

Ou seja, jornalista que obtiver informações sigilosas sobre o governo está proibido de publicá-la, sob o risco de prisão, coisas como “crime de segurança nacional”. Traduzindo: censura. Atitudes muito semelhantes a utilizadas por ditaduras, inclusive aquela que vivemos. Tal atitude viola a Primeira Emenda da Constituição norte-americana, que garante a liberdade de expressão.

Para  ilustrar bem o momento, recentemente, em torno de 20 repórteres e editores da Associated Press tiveram suas ligações telefônicas interceptadas pelo Departamento de Justiça norte-americano.

Histórias como essas me fazem lembrar outra ocorrida neste ano, que envolveu a polêmica em torno do filme “A Hora Mais Escura”. O filme conta em detalhes a operação, os métodos e a investigação que acabou por levar ao esconderijo de Osama Bin Laden e exterminá-lo. O governo americano e o Senado ameaçaram processar a diretora e os produtores. O senado chegou mesmo a abrir investigação, o alvo principal era o roteirista Mark Boal, que obteve informações sigilosas de uma agente da CIA. Negaram os fatos  narrados no filme, mais especificamente a utilização de tortura como método para a obtenção de importantes informações. Mark Boal rodou todas as televisões e programas jornalísticos defendendo seu trabalho, alegando que apesar de ser um filme de ficção, era baseado em fatos jornalísticos. Ele mesmo um jornalista, que cobriu a guerra do Iraque.

A perseguição contra Julian Assange, dono do Wikileaks, também ajuda a clarificar o momento atual. A ânsia em colocar a mãos em Assange impressiona , assim como novamente a vassalagem de países periféricos na polêmica, como a Suécia que pediu sua extradição alegando uma acusação de estupro. A coisa fica mais ridícula, porque o país que inventou o sexo livre, possui uma das legislações mais idiossincráticas relacionadas ao sexo, tal como fazer sexo sem camisinha pode ser caracterizado como estupro. A “vítima” de Assange hospedou-o em seu apartamento, saíram juntos, jantaram e com consentimento dela fizeram sexo. Segundo a imprensa sueca, durante o ato, a camisinha de Assange teria se rompido. Esse é o motivo principal do pedido de prisão de um dos homens mais cobiçados pelo governo americano. Na minha opinião, acho Assange mais um bobo alegre do que alguém que está colocando o sistema de segurança americano em risco. Egocêntrico e marqueteiro ao extremo, se encontra “confinado” em uma embaixada equatoriana para não ser deportado para a Suécia e dali para os Estados Unidos. Novamente a vassalagem, dessa vez do país que Bush definiu como “o melhor amigo dos Estados Unidos”, a Inglaterra, se nega a atender um salvo-conduto para que Assange possa desembarcar em Quito.

Os tempos realmente andam difíceis para a imprensa nos Estados Unidos…assim como na Argentina, na Venezuela, no Equador, no México, na Itália, no Brasil…


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