Crítica: Tim Maia – Vale Tudo, o Musical


 

Quando se concebe um espetáculo, o que pode ser considerado um sucesso artístico?

A)     Ingressos esgotados e casa lotada todos os dias;

B)      Empatia com público, levando os espetadores ao delírio;

C)      Excelentes críticas e reconhecimento da imprensa especializada;

D)     Renovação de linguagem e narrativa arrojada;

E)      Nenhuma das respostas acima.

Não existe a resposta certa ou errada para o meu questionamento, tudo é relativo e a busca por apenas 1 dos itens acima é válido e honesto para se medir se o espetáculo é um êxito.

Se “Tim Maia – Vale Tudo, o Musical” tinha como objetivo atingir os itens A, B e C, então podemos dizer que é um enorme sucesso e completou a função artística a que se propôs. Mas se seu objetivo era a opção D, então é um fracasso retumbante.

Baseado na biografia escrita por Nelson Motta sobre o irreverente e genial músico, narra a vida polêmica, falando de sua vida pessoal, amores, drogas e criações musicais. O musical dirigido por João Fonseca reestreou no Rio de Janeiro, dessa vez no Teatro Net Rio(o antigo Thereza Rachel), após ter feito sua estreia no Teatro Carlos Gomes, com passagem pelo Oi Casa Grande, retornando agora de São Paulo. Tentei vê-lo em sua passagem pelo Oi Casa Grande mas não consegui achar entrada, mas dessa vez comprei meus ingressos com 40 dias de antecedência e assim mesmo não encontrei os lugares desejados.

A cena começa um tanto caótica e poluída, com 11 atores em cena dançando e cantando, sete músicos ao fundo em plano mais elevado, um pequeno palco redondo ao centro e várias cadeiras dispostas nas duas laterais do palco. Fiquei apreensivo que algum ator tropeçasse ou um esbarrasse no outro com o espaço diminuto para se desenvolverem em cena com todos ao mesmo tempo. Isso provavelmente tem explicação, o musical foi concebido inicialmente em teatros grandes, com enormes bocas de cena, como o Carlos Gomes ou o Oi Casa Grande. Não que o Theatro Net Rio seja pequeno, ele é um teatro de tamanho convencional e provavelmente ao transpor o espetáculo para esse palco não tenha ocorrido uma (necessária) adaptação para suas dimensões. Recentemente assisti no mesmo Net Rio o espetáculo “Nada Será Como Antes” de Charles Möeller e Claudio Botelho, com um número similar de pessoas em cena e não tive essa sensação de super-lotação em cena.

A grande força do musical está, além das músicas empolgantes de Tim Maia, na presença de palco de Tiago Abravanel. Um colosso(sem duplo sentido) em cena. Vi algumas entrevistas de Tiago e ele não me disse nada, mas em cena ele demonstra um carisma absurdo e um completo domínio do que está fazendo. Sua interpretação de Tim Maia em suas diversas fases é tão perfeita que o público chega a acreditar que é realmente Tim Maia quem está ali. Canta e interpreta perfeitamente. Até quando improvisa e brinca com a plateia, chega a “intimidar” o público ao ameaçar descer na plateia se ela não imitar sua coreografia. As pessoas ficam com tanto medo de serem encaradas pelo velho “síndico” que nem titubeiam em repetir a coreografia. Tiago cumpre a ameaça desce do palco e vai praticamente checar espectador por espectador se ele está cumprindo as ordens. Só poupou o Guga Kuerten, ao passar pelo eterno campeão de Roland Garros na plateia virou-se e brincou: – Fica tranquilo que não vou te sacanear. Abravanel consegue levar a plateia ao delírio do início ao fim.

Comprar ingresso para a peça não é certeza de que Abravanel esteja no palco. Na bilheteria, nos reclames de jornal e no ingresso está bem claro que a peça é com Tiago Abravanel ou Danilo de Moura(cover), como está escrito. Não tenho como julgar se a peça é inferior ou não com Danilo, não é justo com Danilo que eu faça tal comentário, mas que fica difícil vê-la sem Tiago, isso fica. Quando estava indo embora, na fila do guichê do estacionamento para pagar, um senhor atrás de mim ficou surpreso ao saber que ele “correu o risco” de ver a peça sem Tiago. Embora isso esteja bem claro e sinalizado.

Mas a peça tem na sua narrativa seu ponto fraco, feita de maneira linear, cronológica, chegando a ser didática. Diria até que a expressão correta seria “careta”. Os 11 atores se revezam em cena narrando e “ilustrando” o que o espectador está vendo. Em certos momentos até desnecessário. Os atores vão se revezando no centro do palco nos diversos papeis e personalidades que passaram na vida de Tim, em certos momentos ficam em posição de escanteio nas cadeiras laterais do palco, como espectadores ou fazendo coro nas canções.

Entre os atores os coadjuvantes há uma homogeneidade, quem mais brilha é Reiner Tenente que arranca boas gargalhadas da plateia quando interpreta um Roberto Carlos quase que retardado. A direção também é convencional, feita sem correr riscos ou em busca de soluções mais arrojadas. Procura sempre o trivial e o simples, objetivando não complicar. Os atores são acompanhados de uma banda extremamente competente, embora com menos elementos que a banda original de Tim Maia, os 7 músicos conseguem plenamente manter o pique, o swing, força e a altura dos arranjos originais de Tim Maia, ajudando a criar a atmosfera que a velha Banda Vitória Régia dava aos shows de Tim.

Ao fim, o teatro vira um grande baile de Tim. Tiago comanda um público extasiado, mandando todo mundo sair do chão. O teatro treme! Ainda bem que o projeto arquitetônico do teatro foi feito com muita competência, porque o mezanino sobre minha cabeça balança horrores com os pulos dos espectadores do balcão superior.

Acredito que o verdadeiro objetivo da produção de “Tim Maia – Vale Tudo, o Musical” era simplesmente ganhar a empatia do público, levar a plateia ao delírio e lotar teatros Brasil afora. Sim, seu objetivo foi conquistado com logro. Apesar das 3 horas de peça, nem senti o tempo passar, tamanha a alegria e a felicidade que a peça deixa no espectador. Ah! Se o espectador quer uma narrativa ousada e arrojada, então que vá ver uma peça do Gerald Thomas(se entender alguma coisa).


Palpites para este texto:

  1. Adorei a peça! Confesso que rolava uma certa implicância com o Abravanel, mas me rendi ao talento dele.

  2. Adriani R. Dias -

    Assisti ao musical com o Danilo Moura, e a sensação foi exatamente a descrita, mas agora fiquei com muita vontade de rever com o Tiago.

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